14 de abr de 2008

Miniconto de segunda


Sobre os anjos da guarda:


1. Todo bebê tem um, às vezes dois. Nesses casos, não se trata de privilégio. É uma questão de oferta e demanda: por pura sorte, alguns bebês nascem em épocas em que um grande número de anjos simplesmente está desocupado. Acontece.

2. Durante os primeiros meses de vida, o bebê tem a companhia de um ou dois Anjos Sonoros. Salvo raríssimas exceções, esses anjos são calmos e gostam de cantar. Baixinho, é claro. Mas, diferente do que muita gente imagina, eles não tocam harpa. Isso é lenda. E o repertório varia demais: alguns interpretam peças clássicas. Outros preferem cantigas de roda. Também tem os que gostam de músicas indianas. Tudo muito suave e delicado.

3. Geralmente é a partir do décimo mês que os bebês passam a ser acompanhados pelos Anjos Ágeis. Esses não cantam e falam pouco. Mas, dependendo da necessidade, podem ter longas conversas com bebês indóceis, extremamente bagunceiros ou incrivelmente manhosos. De todo modo, é bom que se diga: sua principal missão não é acalmar, e sim, evitar acidentes. Por isso, são dotados de incrível perspicácia e agilidade -- verdadeiros atletas, correm pra lá e pra cá o tempo todo, sempre atentos a degraus, objetos pontiagudos, vidros, piscinas, lareiras, fogões e ferro de passar.

4. Em algum momento entre o segundo e o terceiro ano de vida, os Anjos Ágeis são substituídos pelos Anjos Pessoais. Esses guardiões procuram ficar perto de quem tem o mesmo jeitão deles. Gostam de supervisionar temperamentos parecidos. Mais interativos, eles inspiram as idéias, despertam as curiosidades, acompanham as primeiras aventuras. E protegem, claro. Nunca esquecem de ser anjos.

5. É bom deixar claro: apesar do nome, nenhum anjo é exclusivo -- nada a ver com os "personal" issos e aquilos. Mais: o mesmo Anjo Pessoal fica de olho em muitas pessoas durante a vida inteira. À distância, mas sempre conectado.

(Silvana Tavano)
Postar um comentário