3 de abr de 2017

escrever

debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música. a gente sempre pode esbarrar numa ideia querendo se contar.

6 de mar de 2017

tempo

Às vezes acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse dentro de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, aliso os cabelos longos e logo adormecemos, as duas, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

10 de jan de 2017

janeiro

a calma do dia
atravessa o pensamento
caminho pelas ruas
sem sombra de nuvem
sem arranhão de vento
e penso:
que bom seria
se assim fosse o ano inteiro
esse tempo quente
e quieto e mais lento
dos dias de janeiro