21 de ago de 2018

das palavras perdidas (3)

(...)

Quem até aparece de vez em quando é o Supimpa!
E sempre acompanhado pelo seu companheiro de exclamação.
Supimpa é excelente, tem um jeito só seu de dizer que tudo está ótimo.
(chato é que quase ninguém entende o que ele fala...)

12 de jul de 2018

ver o mundo

eu vi o sol adormecendo no mais azul dos mares e andei pelas ruas estreitas de ilhas antigas, filhas de vulcões adormecidos como os deuses que moram lá. 
vi o passado pelas frestas das monumentais colunas do Parthenon, esbarrei nas sombras dos fantasmas que se escondem em cavernas, ouvi o silêncio das catedrais, e segui muitos gatos -- quantos! --, senhores absolutos do território. 
trouxe comigo o sabor das azeitonas, uma pedra branca que encontrei numa praia rochosa e a sensação do vento me envolvendo, num fim de tarde, os olhos no horizonte azul do Mediterrâneo. 
ver o mundo é tão bom. voltar é tão bom.

12 de mai de 2018

escrever

Às vezes começo colocando um sofá no meio da sala. De vez em quando, os primeiros móveis vão direto para o quarto, e é lá que fico morando um tempão, meio fechada, sem pensar na mobília do resto da casa. Cada vez acontece de um jeito, mas escrever pode ser exatamente assim, e as histórias só terminam quando a casa está toda equipada, com roupas dentro do armário, cheiro de bolo na cozinha, portarretratos e objetos espalhando lembranças por todos os cantos.
Enquanto moro nesse lugar, muitas vezes mudo a decoração, hospedo pessoas que vão e vem, aprendo a conviver com quem acaba ficando. No final, quase sempre é difícil abandonar essa morada – depois de um tempo a gente se apega, tudo em volta já se tornou querido e familiar demais. Com certa tristeza, me preparo pra ir embora, mas enquanto checo todas as coisas pela última vez também fico satisfeita vendo que a casa está montada, em ordem e pronta pra receber visitantes. Então passo um tempo perambulando pela cidade, me atrevo por bairros desconhecidos, descubro ruas simpáticas e, em algum momento, me interesso por outro endereço. Nos primeiros dias estranho tudo: os barulhos da vizinhança, a cara do jornaleiro, a distância até a padaria. Mesmo assim, decido ficar porque, depois de pintar as paredes de branco e passear sem pressa pelos espaços ainda vazios, sinto o perfume de uma história novinha em folha misturado ao cheiro da tinta fresca.

13 de abr de 2018

mil


(...)
   Durante muito tempo era apenas o Um. 
   Certo dia, alguém apareceu com o Dois, o siamês ensimesmado que olhou pra mim de um jeito azul pedindo pra ficar. Ficou. 
   Um não tinha a majestade e a beleza felina de Dois, mas era lindo o seu afeto mamífero, a vira-latice que não escolhia hora pra me lamber de beijos, e com essa mesma doçura acolheu Dois, de peito aberto, mostrando logo que queria virar par. No começo, Um se fez de difícil, mas com o passar dos dias, tudo foi se encaixando numa sequência lógica. Até... a chegada de Três. O cachorrão levou algum tempo para conquistar a confiança da dupla, mas com meiguice de proporções equivalentes ao seu tamanho (além da determinação ímpar!), Três acabou provando que não era demais. Um foi o primeiro a ceder ao convite do rabo brincalhão; e Dois se acostumou a dormir, macio, no quentinho da barriga de Três, golden feito de mel, no mesmo tom de caramelo dos seus pelos e dos seus instintos grudentos.
(...)

25 de mar de 2018

ninho

passarinho, abrigo, leite em pó
casa na árvore, carinho, colo de avó

gravetos e ramos entrelaçados num grande nó
abraço e amor misturados numa coisa só

7 de fev de 2018

palavras perdidas (2)

(...)

Quem pensa em perguntar pro Bulhufas vai dar com os burros n’água.
Ele e sua irmã Patavina nunca souberam de nada!
Também é bobagem imaginar que Xongas teria alguma pista.
E, aliás, alguém tem ideia do paradeiro desses três?

(...)

4 de jan de 2018

das palavras perdidas

(...)
Borocoxô sempre foi triste. Por natureza. Mas, mesmo triste, costumava andar por aí.
Vira e mexe a gente ouvia alguém falando dele. E hoje, por onde andará o pobre Borocoxô?
(...)

fresquinho como 2018: trecho do "Livro das Palavras Perdidas".

23 de dez de 2017

14 de dez de 2017

quinta-feira

Ainda é noite quando os primeiros carros começam a estacionar na rua ao lado do prédio. O zum-zum-zum de palavras indecifráveis e de barracas sendo armadas entra pela fresta da janela, se espalha, abafado, pelo quarto, e me leva, em vigília, para um quase sonho. De repente estou numa rua antiga, outra feira, minha avó mordendo o perfume vermelho das maçãs, e eu, tão pequena, experimentando a felicidade com gosto de maria-mole.

11 de dez de 2017

dezembro

tempo dos verbos
trocar [presentes]
celebrar [encontros]
lembrar [dos ausentes]

noites de festa
e rituais [natais]
de novo [ano novo]

mês que rima
alegria e melancolia:
no avesso do final
um recomeço

é assim
[desde que me lembro]:
a saudade mora
em dezembro

13 de nov de 2017

metrô

o menino fala sem parar, gestos largos, o corpo inquieto no banco. 
a menina escuta com olhos encantados, as mãos apertando um caderno contra o peito.
dão risada, depois silenciam: ele esfrega as mãos nas pernas de jeans, ela enrola um dedo no cabelo. 
enquanto se apaixonam, levantam juntos e desembarcam na estação paraíso.

6 de out de 2017

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

18 de set de 2017

calma

às vezes ela passa pelos olhos, aproveitando o momento em que eles param para acompanhar um desfile de nuvens no céu, ou quando grudam num livro, esquecidos de outras paisagens, encantados pelas palavras. mas é pelo nariz que ela entra e se espalha, espaçosa, preenchendo todos os cantos com um ar mais cheio de ar. os pensamentos então giram em câmera lenta, o peito alarga e o coração espreguiça, batendo no compasso de uma felicidade quieta, que se anuncia sem disparos.
calma é assim: uma música silenciosa que muda o ritmo de tudo dentro da gente.

21 de ago de 2017

nuvens

Às vezes eu consigo ver um pensamento sendo pensado.
É só prestar atenção: as nuvens aparecem no alto da cabeça da pessoa.
Tem gente que olha pra cima e fica revirando os olhos, tentando ler o que está dentro da nuvem. Também tem quem morda a boca, no cantinho, e daí os olhos disfarçam, fingindo que estão olhando pra outra coisa e que não tem nuvem nenhuma ali.
É difícil adivinhar o quê o pensamento está pensando, mas dá pra saber o tipo. Quero dizer, quando ele é triste, a nuvem faz sombra, os olhos ficam apagadinhos, sabe? De vez em quando me confundo, porque o pensamento-preocupado também faz o maior nevoeiro. A diferença é que, nesses casos, os olhos piscam muito.
E tem o pensamento raivoso. Dá até medo quando vejo aquelas ondas da nuvem-tornado se formando. Dependendo do tamanho da raiva, a cabeça até treme. Se a nuvem é escura, sai de perto, a pessoa pode virar tempestade de uma hora pra outra.
Ah, também tem nuvem levinha, quase transparente. Esse tipo vive em volta da cabeça de quem não é desligadão. E também aparece quando a pessoa não tá prestando atenção em nada. A professora sempre diz isso, que eu vivo com a cabeça nas nuvens. Taí a prova, ela também vê pensamentos!
Pra dizer a verdade, acho difícil não ver nuvem nenhuma. Fico até admirado quando vejo uma cabeça limpinha que nem céu azul.   

12 de jun de 2017

personagens

(…) Sou o brinco conversando com a orelha, o gato que narra sua vida dentro de um apartamento, a menina que observa tudo no primeiro dia de aula, tentando encaixar a franja no rosto do novo professor de química; também sou o adolescente apaixonado pela garota mais popular da escola, e a mulher que chora a morte do pai. Pode ser só uma emoção, a mesma idade, um gesto, uma lembrança ou até um detalhe banal, como a cor dos cabelos. Ainda que nada identifique o autor, sempre há, em cada personagem, algo que o reflete, nem que seja o seu avesso, ou apenas o desejo de ser, viver ou pensar de um modo totalmente diferente do seu".

*trecho do texto que escrevi a convite da crítica e ensaísta Beth Brait, para seu livro "A Personagem"(Editora Contexto), pensando sobre "De Onde Vêm Esses Seres?", ao lado de tantos escritores que admiro. 

20 de mai de 2017

talvez comece assim

Luís, prestenção! Tem que virar a cabeça na braçada!

Para o professor de natação, esse era o seu nome, Luís.

Desde a primeira aula. Naquele dia, depois de um instante de hesitação, percebendo que o professor estava falando com ele e que, por algum motivo (que ele nunca se interessou em saber) ele era o tal Luís, ficou sendo.

Luís, Zezinho, Salomão, não fazia a menor diferença. Se arrastava pela piscina só estava lá pra parar de ouvir a mãe repetir que ele tinha que praticar um esporte. Vencido pela falta de autonomia dos seus sete anos, lá estava ele, fazendo o que não queria. Mas ali era outro, e secretamente saboreava o seu pequeno ato de rebeldia.

9 de mai de 2017

portal


(…) Como se entrasse em um templo a céu aberto, ela mergulha nas trilhas sombreadas do parque em busca de silêncio, o silêncio possível dentro da cidade, o som dos carros que passam na via expressa chegando abafados pela cortina de árvores. Enquanto lá fora a vida segue em trânsito, Beatriz entra em outro ritmo, num tempo marcado pelo tique-taque das cigarras, a conversa dos pássaros, o rumor do vento, a eletricidade calma dos insetos. E o que, antes, era uma parada eventual no meio de seu percurso, agora é o lugar-santuário onde ela se recolhe, envolvida pelo perfume verde das cabreúvas, figueiras, tipuanas, jatobás e paineiras, os troncos tatuados com tantos nomes, iniciais e símbolos de amores que talvez já não existam (…*)

(*trecho de uma história que estou escrevendo)


3 de abr de 2017

escrever

debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música. a gente sempre pode esbarrar numa ideia querendo se contar.

6 de mar de 2017

tempo

Às vezes acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse dentro de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, aliso os cabelos longos e logo adormecemos, as duas, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.