22 de ago de 2016

infância

Como hoje, era uma manhã escura, e eu, pequena, tinha medo que a noite nunca terminasse. Então me escondia debaixo da coberta, encolhida no meu quarto de filha única, quieta, à espera do bom dia dos pratos e talheres acordando na cozinha, e do perfume forte passando pelo corredor -- mãe e pai: minhas certezas a cada amanhecer.

15 de ago de 2016

pai

espuma de barba
beijo branco
na pele macia

molho de tomate
carinho e cachimbo
no domingo

a montanha mais alta
força e abrigo
na ventania

9 de ago de 2016

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

29 de jul de 2016

nanda

Uma, duas, mil montanhas recortando o céu. Nenhum sol sorridente pairando sobre uma casinha. Nada que se pareça com uma criança de mãos dadas aos garranchos de uma mãe e um pai. Meus primeiros desenhos. É incrível... Já estava tudo ali. Já era eu, uma sementinha de Nanda, as mesmas imagens na cabeça. Por que minha mãe guardou esses desenhos e não outros, eu não sei. Talvez não tivesse outros. Será? Eu não me lembro. Nem disso nem de nada dos meus primeiros anos. Só não é escuridão total por causa das fotografias. Estou lá: um bebê no colo da minha mãe, com 1 ano, 2, depois 3, eu, cercada de brinquedos, pendurada no cangote do meu pai, com todos os avós, uma menininha simpática, cachinhos castanhos, boca, nariz, dois olhos azuis. Tudo no lugar. Pena não lembrar de nada dessa época, aparentemente estava dando tudo certo. As coisas entortaram um pouco antes do meu quarto aniversário (…).

início da história de Nanda, uma das personagens de "E no Fim... Tudo Recomeça de Outro Jeito", livro novo chegando logo, logo, com ilustrações lindas de Nobru, com o selo Moderna.

19 de jul de 2016

sofia


(…) Não acontece mais. Antigamente, eu olhava pro céu e via a Lu brincando no meio das nuvens, fugindo de um grande dinossauro que se aproximava, descansando em cima de uma nuvem-rede, às vezes até fazendo careta pra mim. Era lindo, chegava a doer de tão lindo e de tanta saudade. Agora é diferente. É só um vazio. Uma saudade triste, como uma nuvem cinza com vontade de chorar. Descobri que o tempo tem esse poder meio mágico de decantar as coisas; é como se aquela dor tão pesada tivesse descido devagarinho até se acomodar e adormecer no fundo do coração. De vez em quando, a dor acorda. Nesses dias, olho pro céu, procuro por ela, mas não acontece mais. Mesmo assim, eu sei que a Lu tá lá, escondida atrás de uma nuvem gigantesca, desmanchando aos poucos, disfarçada entre uma, duas, mil montanhas recortando o céu.

trecho da história de Sofia, uma das personagens de "E no Fim... Tudo Recomeça de Outro Jeito", livro novo chegando logo, logo, com ilustrações lindas de Nobru, com o selo Moderna.

15 de jul de 2016

simulacro

rosa de pano, maçã de cera, joia de vidro
-- e certos sorrisos:
tantas coisas iludem
o olhar distraído

4 de jul de 2016

martin

(...) "Às vezes penso que, um dia desses, saindo do mar, eu encontro a Maira na praia, sentadinha, me esperando, e tudo volta a ser como antes. A gente vai se abraçar e nada mais vai doer em mim. Ainda dói. Toda vez que piso em terra firme, ela me pega, a dor. Então vou pro mar porque o mar é meu chão, cara. De vez em quando as coisas também ficam escuras dentro do tubo, mas o céu azul tá lá, sempre tá, a gente tem que acreditar, concentrar no equilíbrio pra descer numa onda gigantesca e seguir com ela até que tudo se desmanche. É isso, cara. Em todas as coisas, tem que ir até o fim". 

trecho da história de Martin, um dos personagens de "E no Fim... Tudo Recomeça de Outro Jeito", livro novo chegando logo, logo, com ilustrações lindas de Nobru, com o selo Moderna.

21 de jun de 2016

inverno

é como um toque de recolher: os dias vão embora mais cedo, encolhidos de frio, e a vida lá fora se aquieta para que a gente escute as palavras de dentro.

14 de jun de 2016

casa

Um jardim de tecido estampado com florzinhas delicadas convida: entra! Então abro o caderno, devagar, e vou passeando pelas linhas; sigo nessa direção, encontro o fio da história e com ele amarro as palavras que começam a chegar -- uma, duas, muitas --, querendo morar nesse lugar.

7 de jun de 2016

esperança

é a caixinha de fósforos que a gente mantém sempre por perto, na gaveta do criado mudo ou na cozinha, para conseguir acender uma vela quando a luz acaba de repente -- a certeza de uma chama que pode nos guiar na escuridão.

26 de mai de 2016

inverno

noite escura
céu deserto
ninguém na rua

 de repente
entre nuvens
      luz

crescente lua
     se insinua

15 de mai de 2016

aconteceu na escola

7h12. Entro no carro e emendo o bom-dia com um desculpe por causa do meu atraso de uns dois minutos. Nem assim o pai do Edu vira o rosto pra dar um olá. Tem dias em que ele está muito mal humorado e, pelo visto, hoje é um desses dias. Então sento no cantinho e tento me ajeitar com a cabeça da Dani já no meu ombro. É incrível como ela consegue dormir em qualquer lugar e posição! A irmãzinha do Edu boceja um oi sonolento, e ele resmunga outro, com a cara enfiada na mochila. Parece que está procurando alguma coisa importante. O carro segue em silêncio pelo caminho de todos os dias rumo à escola. Esse programa é mais animado quando vamos com a mãe da Dani. Ela fala o tempo todo, fica perguntando coisas, às vezes até canta junto com o rádio. É uma alegria. Mas, às vezes, olho pra ela e vejo uma daquelas mães-margarina de comercial de televisão. Desconfio. Bom, isso tem a ver comigo. Sou desconfiada. 
Segundas e quintas vamos com a minha mãe. Antes de ligar o carro, ela checa o batom no espelhinho, depois acende um cigarro e engata, com o celular na mão. Ela vive querendo parar de fumar. Quer dizer, vive dizendo que quer parar. Pra mim, tanto faz. Já me acostumei a ver minha mãe através da fumaça.
(…)
trecho do conto "Sexta-Feira", em "Aconteceu na Escola", projeto tive a felicidade de participar ao lado de uma turma incrível: Blandina, Gilles Eduar, Índigo e Maria Amália Camargo.

6 de mai de 2016

mãe

a fivela-pente, o anel de pérola
o bloquinho de notas com a letra dela
uma foto-binóculo, a carteira de identidade
abro a caixinha, encontro a saudade

30 de abr de 2016

casa

Os dias passam enquanto percorro os corredores do supermercado, espero a vez no posto de gasolina, na fila do banco, no balcão da farmácia, e a reunião marcada para as 2 começa às 3 e só engata no assunto às 4. No meio disso tudo, cruzo com tantas distrações, acenando, convidativas, vem, vamos tomar um café, e se a gente fosse ao cinema, é o último dia daquela exposição, só um giro pelo facebook, que mal tem? Dias assim me levam para longe, nem sempre consigo voltar.
Estou em casa quando tudo é silêncio: então ouço a campainha, abro a porta e me acomodo para receber as palavras que vem me visitar.

28 de abr de 2016

preocupação

é uma nuvem que encobre o pensamento em sombras, ameaçando tempestades que nem sempre acontecem.

4 de abr de 2016

memória

Às vezes é uma frase, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Certa música, um cheiro inesperado, coisas que acontecem e imediatamente me colocam em outro lugar, como se eu estivesse sentada na cabine de um trem que me leva em alta velocidade rumo aos meus sete, oito anos. Na primeira estação, uma menina acena da plataforma, sorri pra mim e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado, repetindo a frase ou trazendo de volta o perfume que agora viaja comigo. A viagem prossegue e ela se acomoda no meu colo; pouco a pouco adormece dentro de mim, ninada pelo sacolejo rápido do trem, sonhando num tempo que nunca envelhece.

13 de mar de 2016

dani vai dançar

(…) Tenho onze anos e sempre dou um jeito de ficar doente ou inventar uma desculpa pra não participar das aulas de educação física. Mas hoje o professor não me dispensou e depois do aquecimento me convoca pra fazer parte de um dos times de vôlei. Não tenho chance de dizer que não sei jogar, minha boca trava, a voz desaparece pra sempre. Então ele me chama, do centro da quadra, apontando a posição que devo ocupar, e chama de novo porque não me mexo, na inútil esperança de que alguém se ofereça e me salve do desastre. Enquanto caminho em direção à quadra percebo um grupinho de meninas cochichando e rindo, na mesma hora tenho certeza de que estão falando de mim, por isso abaixo a cabeça e sigo, devagar, suando dentro do uniforme, desconfortável, desajustada, sempre eu. O jogo começa, a bola passa voando por cima da minha cabeça, uma vez, duas, e de novo, o time vai trocando passes como se eu não existisse, e de repente algo acontece, uma coisa por dentro, forte, uma espécie de raiva que me lança pro alto, é só um impulso mas me deixo levar e subo: meu corpo ultrapassa o limite da rede, o braço esticado e minha mão lá em cima, alcançando a bola antes das outras mãos com um toque certeiro, delicado, inesperado: marco um ponto para o time, todos comemoram. Pela primeira vez, aplausos.
trecho de "Dani Vai Dançar, meu conto em "A Vida é Logo Aqui", coletânea organizada por Nelson de Oliveira, pela editora Sesi-SP

7 de mar de 2016

relicário


No começo, era só um vaso de barro não muito grande, duas mudas magrinhas, promessas de felicidade e fortuna enraizadas na mesma terra. Cresceram devagar sobre as pedras que iam chegando de tantos lugares, plantando ali histórias de rios, montanhas e dias de sol. Hoje as árvores tocam o teto da sala, abraçadas dentro de um vaso largo e amarelo, junto com os cristais transparentes, o buda da sorte, a corujinha de pedra-sabão da mãe, o enfeite que o filho fez numa noite de um natal distante. Gosto de rezar assim: regando a minha planta.