Depois de tanto banho de sol e de chuva, a placa "vende-se" amarelou. A outra, que dizia "aluga-se", sumiu atrás do emaranhado de folhas feias de um jardim que envelheceu rabugento e solitário, sem visita de passarinho. Ainda dá pra ver a casa, lá no fundo: não tem mistério nem fantasma, parece que só a tristeza ficou morando lá.
(ST)
24/11/2009
A casa triste
23/11/2009
Grego
Programão
19/11/2009
Dez minutos -- um exercício
O "tempo" virou o assunto dos últimos posts e apareceu de novo na oficina de escrita que estou fazendo com a Noemi Jaffe. O exercício: escrever sobre ter que escrever em dez minutos.
Dez minutos bastam pra tomar banho. Um bom banho. Até sobra tempo pra ficar debaixo do chuveiro, à toa, sem a obrigação do sabonete. Dez minutos também é tempo mais que suficiente pra desempatar um jogo, ler um poema e sentir vontade de cantar, ir de bicicleta até a banca da pracinha, arrumar uma gaveta, tomar café com bolo, convencer alguém de alguma coisa, ligar a televisão, zapear por uns trinta canais, não achar nada interessante e desligar a televisão. Ou pra ter uma ideia genial e escrever um texto supimpa. Pena que, justamente agora, falta a ideia e sobra tempo.
(ST)
18/11/2009
Depois do corre-corre
Tic-preguiça-tac-travesseiro
o tempo fica mais cheio de tempo
no relógio de janeiro
(ST)
17/11/2009
A jato
E O Mistério do Tempo me fez pensar que não vou conseguir terminar tudo o que ainda preciso fazer antes que o ano termine. A partir de agora as horas vão ficando cada vez mais apressadas, não é assim?
(ST)
16/11/2009
Livro novo, oba!
13/11/2009
O plano -- um miniconto
Mãe, deix’eu falar! É que aconteceu uma coisa...
Não, desse jeito tá ruim.
Oi, mãe, tudo bom? Foi legal o seu dia hoje...?
Hum. Piorou.
Então, mãe, eu saí correndo do meu quarto porque a campainha tocou e eu tava esperando o Dani, e aí tinha o vaso...
Não, não, não. Isso vem depois. Na hora da explicação.
Sei lá de que jeito eu conto. Tanto faz, ela vai ficar brava mesmo. Muito brava. Vai ser uma bronca do tipo 8 ou 9, bronca máxima, bronca com castigo na certa. O pior é que ela gosta desse vaso. Quer dizer, gostava. Nem sei por que, um vaso tão feio! Esquisito, finiiiiiiiinho. Nem serve pra por flor! Tomara que não seja caro. Vai que ela resolve descontar da minha mesada! Bem agora que eu ia pedir um extra pro álbum... Que azar!
E se eu tentar colar? Vou pedir pra Maria me ajudar, ela sempre cola as coisas, minha mãe demora um tempão pra perceber. Hum. Pensando bem, acho que vai ser difícil montar esse troço de novo. E o que eu faço com essas partes que viraram pozinho? Quebrou muito quebrado. Se fosse estampado dava pra disfarçar tanto remendo, mas transparente desse jeito! Ela vai ver o desastre na hora. O vaso é a primeira coisa que a gente vê quando abre a porta... Isso é o pior de tudo: o não-vaso é a primeira coisa que ela vai ver quando chegar do escritório. Tomara que ela não chegue mal humorada por causa daquela pessoa chata lá do trabalho dela... Daí, nem sei o que pode acontecer.
Acho que é melhor não estar por perto na hora H. Já sei! Vou limpar a mesa, o chão e jogar tudo no lixo. Depois, me tranco no banheiro e espero. Na hora que ela abrir a porta e olhar pro não-vaso e gritar: O QUE ACONTECEU COM O MEU VASO? eu abro o chuveiro e fico lá tomando banho. Pelo menos escapo do grito de trovão-furioso número 1. Os que vem depois vão saindo com menos raios... Mas não posso demorar demais, senão ela vai começar a brigar com a Maria, coitada. Bom, sei lá. Essa parte do plano eu resolvo na hora. Em todo caso, vou levar o travesseiro.
(ST)
12/11/2009
Diários da bicicleta
11/11/2009
Na noite mais escura
A bruxa, o monstro e a assombração
Não acharam a menor graça no apagão
Todo mundo aproveitou e foi dormir mais cedo
Só eles ficaram acordados, morrendo de medo
(ST)
10/11/2009
Já!
Mãe, não enrola
Eu quero sorvete
agoragoragora!
Vontade não tem hora
Deixa eu tomar meu sorvete
agoragoragora?
Para o meu querido Manuel.
09/11/2009
Os nomes das coisas
A palavra cisne não seria muito mais cysne desse jeito? "Visualmente, essa grafia representa melhor os elegantes traços da ave". Quem diz é o escritor português José Luis Peixoto, no Caderno 2 de hoje. Li só um livro dele, o "Nenhum Olhar", e gostei muito. Também gosto desse modo de pensar as palavras e lembrei de um diálogo entre pai e filha que escrevi em "As Namoradas do Meu Pai":
Quando eu era menor, a gente passava um tempão inventando e desinventando palavras.
-- Eu acho que não tem coisa mais lua do que a lua. É uma palavrinha redonda, branca, quem batizou a lua de lua teve uma inspiração. E aposto que foi numa noite de lua cheia!
-- Sol também, né, pai? Tem um redondo na palavra!
Às vezes, ele vinha com um desafio:
-- Diga um nome que não tem nada a ver com a coisa nomeada!
-- Hum.Já sei: chuva! Acho que chuva devia ser o nome do vento por causa do U, que combina com o som do vento-uuuuuuuuu-ventando. Fica estranho chamar o vento de chuvo?
-- Até que não. Mas também podia ser vuonto. Acho que combina mais. Dá até pra enxergar o vuonto fazendo as coisas girarem por onde passa. E ventania passaria a ser vuontania. O que você acha?
-- E como devia ser o nome da chuva?
-- Bom, tinha que ser uma palavra assim mais molhada. Como... Pingada! Que tal? Se o pingo é um plim molhado, pingada é o nome ideal para um monte de pingos!
06/11/2009
No parque
Hoje o vento soprou uma ideia dentro de um saquinho plástico. Depois ventou bem forte pra ajudá-lo a voar, feito fantasminha encapuzado, brincando de assustar os passarinhos.
(ST)
05/11/2009
Inveja
04/11/2009
Aventura
...
"Era muito mais agradável lá em casa", pensou a pobre Alice, "lá não se ficava sempre crescendo e diminuindo, e recebendo ordens aqui e acolá de camundongos e coelhos. Chego quase a desejar não ter descido por aquela toca de coelho... no entanto... no entanto... é bastante interessante este tipo de vida!"
...
A imagem veio do blog de Jennifer Khoshbin.
03/11/2009
Das invenções
Quando eu crescer vou ser inventor. Sempre penso numas coisas muito importantes que ainda não foram inventadas. O medidor de amor, por exemplo. O amorzômetro podia resolver um monte de problemas: em vez de ficar perguntando pra minha mãe se ela gosta mais de mim do que do chato do meu irmão, era só colocar o aparelho em cima do coração dela e tirar a dúvida na hora.
Eu também quero inventar um jeito de conversar com os animais. É que de vez em quando os olhões do meu cachorro ficam cheios de pensamentos. Dá pra ver, mas não dá pra entender. A gente fica naquela comunicação básica: um latido = oi; dois = vamos dar uma volta?; três = você demorou pra chegar; muitos latidos juntos = estou muito feliz ou muito bravo (depende do tom). Mas é difícil descobrir quando ele só olha e não late. Daí não tem como trocar uma ideia.
Também acho que devia existir um jeito da gente escolher o que vai sonhar. Podia ser uma fórmula tipo xarope com cardápio de sonhos: sabor viagem espacial, sabor sonho-maluco, até xarope sem sabor, com direito a sonho-surpresa. Claro que tinha que acertar bem a dose pro sonho não virar pesadelo. Vai ver é por isso que não tem nada desse tipo na farmácia... Mas, e um escorregador com marcha-a-ré automática -- como é que ninguém inventou um desses ainda?
...
Tem umas invenções novas nesse miniconto, que foi publicado na Folhinha em 2007.
(ST)
02/11/2009
30/10/2009
As novas amigas da Creuza
Giorgia e Giulia moram no Arraial d'Ajuda, entre Porto Seguro e Trancoso, na Bahia, e conheceram a bruxa Creuza há pouco tempo, durante uma visita da tia-jornalista Rosaly Senra, que levou os livros e também um questionário-entrevista, que a Giorgia respondeu tintim por tintim (clique em cima pra ampliar), incluindo um pedido especial.
A propósito, aí vai um recado da bruxa: sobre o feitiço pra transformar uma pessoa "chata" em sapo, bom, a Creuza vai pensar no assunto -- não é toda hora que a gente pode sair por aí fazendo esse tipo de coisa, e talvez ela encontre um jeito menos radical de resolver o problema com a diretora da escola... Aguarde notícias, Giorgia! Enquanto a solução não chega, vamos treinando outras mágicas -- amanhã é um ótimo dia pra isso: as feiticeiras estarão circulando por todos os cantos. A Creuza já está na vassoura, prontinha pra decolar, levando até a câmera pra registrar os melhores momentos da festa. Eu também vou passear, até terça-feira!
(ST)
28/10/2009
Ausência

Longe é um lugar onde eu ainda não posso ir.
Fica depois do fim do mar, atrás de umas montanhas muito altas que vão até o céu do cartão postal.
Não sei bem como meu pai chegou lá.
Uma vez minha mãe disse que foi de navio.
Mas outro dia perguntei de novo, e ela falou que foi de avião.
Fiquei pensando: acho que primeiro ele viajou de navio e depois tomou um avião.
De tão longe que Longe deve ser.
...
Trecho de "Longe", ilustrado por Mariana Newlands.
(ST)
27/10/2009
26/10/2009
Meninas...

-- Eu não vou mais brincar com você.
-- Por que?
-- Porque você disse pra Ju que eu acho ela chata.
-- Eu não disse!
-- Disse, sim!
-- Quem disse que eu disse?
-- A Lu. E agora ela é a minha melhor amiga.
-- Mas ela é amiga da Ju!
-- E daí?
-- Daí que você disse que ela era chata!
-- Eu disse que "achava". Não acho mais.
A foto linda veio do blog da Rosane Queiroz, e essa conversa eu ouvi um dia desses, entre duas garotinhas de uns cinco anos. Depois disso, cada uma foi prum lado, emburrada, tristes de jeitos diferentes. Quem já foi menina um dia sabe como é duro ficar de mal pra sempre, mesmo que seja só por uns dias.
(ST)
23/10/2009
22/10/2009
Cena colorida
Dentro da caixa de lápis coloridos
Começa a história dos chinelos perdidos.
Diz o amarelo:
-- Era uma vez um chinelo...
E o verde continua:
-- ...que resolve sair andando pela rua...
Nervoso, o vermelho quer saber:
-- E se o coitado se perder?
O azul não bota fé:
-- Desde quando um chinelo anda sem pé?
É hora do roxo dizer:
-- É mesmo perigoso, tudo pode acontecer.
Mas o laranja interrompe:
-- Ele deve estar procurando o seu par.
Sempre calmo, o branco fala:
-- O chinelo conhece os passos, ele vai se virar.
Então o marrom exclama:
-- Surpresa: os dois estão debaixo da cama!
Claro que é o rosa quem diz:
-- E juntinhos pra sempre... Que final feliz!
Se você estiver achando que já leu isso em algum lugar, achou certo. Essa brincadeira já apareceu aqui com outras cores e outro título: "Varinhas de Condão".
(Silvana Tavano)
21/10/2009
Catapora e poesia
"Lição de Casa" é um dos finalistas do Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo da Fliporto 2009, um trabalho lindo da Analu Andrigueti com uma equipe pra lá de talentosa: Fernando Muylaert (direção), Emiliano Castro (trilha sonora), Andre Caccia Bava (gravação), Eduardo Muylaert e Helô Mello (fotografia).
(ST)
20/10/2009
Bonecas do Vietnã
A gente abre uma caixinha e dá de cara com essas três meninas e um manual de instruções da brincadeira, que diz: "quando você tiver um problema, fale com a sua boneca". Essa antiga tradição do Vietnã ensina a tirar a boneca-confidente da caixa e contar tudo pra ela, antes de dormir. Durante a noite, enquanto a gente descansa, ela vai tentar resolver a questão. E como são só três bonecas, é permitido ter no máximo três problemas por dia.
Depois de posar pra foto, as bonecas voltaram pra caixinha e o presente da querida Claudia Berkhout foi direto pro meu criado-mudo. Tenho uns assuntos pra conversar com elas, mas achei que não precisava ser logo na primeira noite. Já é bem bom saber que elas que elas sempre vão estar por perto.
(ST)
19/10/2009
Aniversário
Abraço com laço de fita, amigos e amores bem perto
Tem melhor do que ter tudo o que importa no lugar certo?
(ST)
O martelo virou personagem

Meu filho Caio fez uma versão HQ do meu "Drama com Final Feliz" -- até que fazemos uma boa dupla, não?
16/10/2009
Sobre as nuvens
Às vezes eu vejo os pensamentos. E não tem nada a ver com adivinhação! Isso é pra quem tem aqueles dons especiais. Ou também acontece quando a gente conhece alguém muuuuuuuuito bem. É assim com a minha mãe: tem horas que só de olhar já sei que ela vai me mandar tomar banho, por exemplo.
Mas aí é outra coisa. Estou falando de ver o pensamento sendo pensado. A gente consegue enxergar uma espécie de nuvem que vai aparecendo, geralmente no alto da cabeça da pessoa. Nessa hora, tem gente que olha pra cima e fica revirando os olhos, tentando descobrir o que tem lá dentro. Também tem uns que mordem a boca, bem no cantinho -- daí os olhos disfarçam, fingindo que estão olhando pra outra coisa e que não tem nuvem nenhuma ali. Mas ela está lá e fica perturbando. Não desmancha enquanto a pessoa não der atenção.
Quando o pensamento é triste, os olhos descem, quase fecham. Claro que a pessoa não quer ver! Mas com esse tipo eu ainda me confundo porque o pensamento preocupado também é meio assim, olhando pra baixo. Só que nesse a pessoa sempre pisca mais porque a nuvem pesa, fica incomodando.
É muito legal ver o pensamento-vulcão se formando. Esse tipo de nuvem até embaça o ar de tão quente que é. Se a pessoa fica vermelha, o pensamento é de raiva. Mas quando o rosto acende, é porque lá dentro tem alguma ideia muito boa.
Quando o pensamento é muito interessante ou preocupante, a nuvem cresce e a pessoa não presta atenção em mais nada. Todo mundo já viu gente assim, com a “a cabeça nas nuvens”, é ou não é?
De vez em quando também vejo umas nuvens pretas. Não sei o que tem dentro, nem gosto de olhar muito.
Ver todas essas nuvens é legal, mas não não ver nada também é, porque pensamento gostoso quase nunca forma nuvem. Daí a cabeça tá sempre limpinha que nem céu azul.
...
Andei mexendo em textos antigos, como esse, de 2007. Mudei uns issos e aquilos. É o mesmo, mas ficou diferente.
(ST)
15/10/2009
14/10/2009
Técnica da paixão

Meu filho se apaixonou por Estudos Sociais na 8ª série. Mudou de escola, mas o interesse pelo assunto foi junto e continua crescendo. Vira e mexe, vai visitar o professor-cupido, o jovem Uirá Fernandes, da Escola Vera Cruz. Torço pra que ele cruze com muitos outros mestres inspiradores e inesquecíveis pois, como bem disse Adélia Prado, "quem não teve um professor com quem se emocionar, não teve um professor". Lembrei disso por causa do dia do professor, mas também por conta de uma pergunta que me fizeram na segunda-feira, sobre "técnicas" pra fazer com que as crianças gostem de ler. Não soube dar uma resposta-manual: é claro que um bom professor tem que dominar sua matéria e certamente passa melhor o conhecimento quando é didático. Mas só os apaixonados dominam a "técnica" de flechar corações. Não é assim?
(ST)
13/10/2009
Rebelde com causa
10/10/2009
09/10/2009
Em boa companhia
A jornalista Inês de Castro conversou sobre livros e o Dia das Crianças comigo, Tatiana Belinky, Rubens Alves e Ilan Brenman -- as entrevistas vão entrar na programação da BandNews FM neste sábado, domingo e segunda-feira.
E no dia 12, que agora também é o Dia Nacional da Leitura, eu e Maria Amália Camargo vamos participar de um encontro na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Pra saber tudo o que vai acontecer lá, clique aqui.
(ST)
08/10/2009
07/10/2009
Mãe
A fivela-pente, o anel de pérola
O bloquinho de notas com a letra dela
Uma foto-binóculo, o lenço de rendinha
Quanta saudade cabe numa caixinha
(ST)
06/10/2009
Adolescentes de manhã
"Minha vida mudou depois que descobri que os vikings não usavam chapéu com chifres... Como o professor diz isso assim, de repente?!?"
...
Às vezes é uma dureza acordar cedinho, mas ganho o dia quando um dos adolescentes que levo pra escola entra no carro e começa a conversa desse jeito.
(ST)
05/10/2009
Meus 15 minutos de fama
Acabo de ver o "Como Começa" na lista do "mais vendidos" da Livraria da Vila.
De-lí-cia.
(ST)
Era uma vez já
Mãe, conta uma história!
agoragoragoragora
Começa logo, não demora
agoragoragoragora
Senão eu durmo na melhor hora...
agoragoragoragora
(ST)
02/10/2009
Das ideias
Hoje cedo, andando no parque (finalmente uma manhã ensolarada!) fui invadida por uma ideia-chiclete, daquele tipo que gruda e fica ali, incomodando. Quando a ideia é boa, tudo bem -- vale a pena colar no assunto porque logo começam a aparecer outras ideias. O problema é que a ideia-colante pode ser uma bobagem qualquer, e fica dentro da cabeça do mesmo jeito, chateando. Como o chiclete que perde o gosto, mas a gente continua mascando porque não tem onde jogar...
A tal ideia-colante-idiota me fez pensar que também existe a ideia-algodão-doce: essa é uma lindeza, mas geralmente é enganadora. No começo, aquela nuvem branca e fininha se formando do nada em torno de um palitinho parece tão apetitosa, um sonho! Mas ela é tênue demais e excessivamente melada. Não tem conteúdo e desmancha rapidinho.
As ideias-iô-iô têm mais chance. Essas vão e vem, vão e vem. Às vezes, demora pra gente pegar o jeito da coisa e a ideia cai solta, fica um tempo pendurada, balançando na ponta do barbante. Mas se o nozinho estiver firme e no dedo certo, é só enrolar a ideia de novo e reiniciar o vaivém. Em certo momento, essa ideia começa a rolar com firmeza. Daí vai longe, volta forte e encaixa.
(Silvana Tavano)
01/10/2009
Nós e as ilhas
Depois de conhecer Fernando de Noronha, Ilha de Páscoa, Canárias e muitos outros pedaços de terra cercados de água por todos os lados, minha querida amiga Lucia Herrera inventou um blog-álbum-temático, o Mundo das Ilhas, pra registrar as impressões e as imagens que ela traz de todas essas viagens. O aristogatinho-ilhado da foto vive em Reykjavik, capital da gelada Islândia que, segundo ela, é paradisíaca de um outro jeito, com uma paisagem lunar, glaciares, geisers, praias de areia escura, vulcões e muitas histórias.
A da jovem ilha Surtsey, que nasceu da erupção de um desses vulcões há pouco mais de 40 anos, me fez ficar pensando: às vezes a gente também ferve, entra em erupção e depois vira ilha. Só por um tempo, mas vira, não é assim?
(ST)
30/09/2009
Três jeitos de assoprar
Com alegria: as velinhas e a bolha de sabão
Com cuidado: a sopa quente e o machucado
Com força: o apito e a assombração
(ST)
29/09/2009
Prato do dia
O arroz é branquinho
Quando está sozinho
Mas muda de gosto e de cor
Com qualquer caldinho
A palavra é como o arroz
Quando está só, diz uma coisa
Mas pode dizer outras
Depende do que vem depois
Porque as palavras se temperam
Mudam de gosto, engordam
E abrem o apetite da gente
Contando sempre uma história diferente
(Silvana Tavano)
28/09/2009
Classificados
Sapo brejeiro procura bruxas experientes para futuro compromisso profissional.
Fantasma-fashion compra correntes (novas ou usadas) com grife.
Princesa-vende-tudo! Vestidos de baile seminovos, ótimo estado de conservação, preços convidativos. Estoque limitado.
(ST)
25/09/2009
Bicho do mar no jardim
Nunca tinha reparado nessa "Serpente Marinha" que o escultor recifense Francisco Brennand mergulhou no jardim do Sesc Pinheiros. Minha foto não ficou grande coisa, mas o bicho é muito simpático, não tem pinta de monstro e, o melhor, faz a gente lembrar que dá pra ser feliz em qualquer lugar -- quem disse que serpente marinha só se dá bem vivendo no mar?
(ST)
24/09/2009
23/09/2009
Acordar

O dia cinza esqueceu de olhar o calendário, mas a primavera começa hoje.
Não é linda a imagem da Mariana Newlands?
(ST)
22/09/2009
Estátua!
Outro dia fiquei um tempão observando essa moça-estátua que faz sua performance na av. Paulista, na frente do Conjunto Nacional. Ela tem um controle impressionante: fica estática, durinha, não dá pra notar nem a respiração. De vez em quando até bate um ventinho na saia dela, mas nada se mexe no rosto, nas mãos, na postura. Longos minutos assim, estátua mesmo.
Ela "acorda" quando alguém coloca uma moeda na latinha. Daí a estátua espreguiça e agradece com uma mímica cheia de graça. Mas isso às vezes demora um tempão: a maioria das pessoas passa sem prestar atenção, e também tem muita gente que vê mas não dá a menor bola. E ela lá, firme.
Parece que ela só não é invisível pros pequenos. Nem todos têm chance de entrar na brincadeira, porque a mãe ou o pai segue andando, indiferente ao pescoço que a criança continua entortando até sumir na esquina. Mas todos os que passaram enquanto fiquei por lá olharam pra ela. Valeu esperar pra ver essa menininha: foi ela quem virou estátua quando a moça abaixou pra dar um presente tirado de um saquinho.
(ST)
21/09/2009
Golpe
mãe, tô me sentindo meio estranho, não abre a janela, não, por favor, acho que não vai dar pra levantar porque tá doendo... é... tá doendo... humm... é meu dente que tá doendo. o que? dentista, não, não, quer dizer, acho que não é o dente, é na boca, mas não é dente, é lá dentro, parece que é no céu da boca a dor, esquisiiiiiiiiiiiiito. se é a garganta? é, pode ser, agora que você falou... hã-hã, tá vendo? é isso mesmo, a garganta tá pegando... deve ser isso a dor. então, acho que é melhor ficar em casa hoje, né, mãe? amanhã eu explico pra professora, ela até achou que eu tava meio assim ontem. meio mole, sabe? esqueci de contar, mas ela disse que eu tava um pouco quente, não muito, acho que era aquela febre que não é febre mas vai ser. eu tô mesmo sentindo isso, mãe, daqui a pouco vai ser febre, então é bom eu dormir mais um pouquinho, você sempre diz que a gente precisa descansar quando tá gripando... deve ser gripe esse sono. então. é só descansar e daí eu fico bem ótimo, e nem vai precisar de remédio, não é bom?
(ST)
18/09/2009
Na Eslováquia

O "Como Começa" foi parar na 22ª Bienal de Ilustração da Bratislava -- parabéns pra Elma e para todos os ilustradores brasileiros que foram selecionados: Alcy, Ana Terra, Cris Eich, Cristina Biazetto, Ellen Pestili, Guto Lins, Mário Bag, Maurício Negro, Salmo Dansa, Silvia Amstalden e Thais Linhares.
17/09/2009
Um drama com final feliz
Finalmente resolvi pendurar um monte de coisas -- fotos, gravuras e objetos que estavam empilhados há um tempão no chão do meu escritório --, o que me fez lembrar desse texto:
O prego olha pro martelo
Com um sorrisinho amarelo
- Sou forte, posso aguentar
Mas, por favor, bate devagar!
A parede novinha fica assustada
- Dói muito? É minha primeira martelada...
Nessa hora, o martelo quase desiste
Mas o quadro quer ser pendurado e insiste
- Vamos logo com isso, coragem!
Você vai ficar linda com a minha paisagem
Tum-tum-tum, o martelo começa
Não demora e o prego geme à beça
Enquanto a parede solta uma lágrima-pozinho
Como se fosse um choro fininho
Mas a dor de todo mundo logo passa
E não é que o quadro fica uma graça?
Orgulhoso, o prego agora segura firme
E a parede nem lembra da ferida
Feliz, o martelo volta pra sua caixa
Com mais uma missão cumprida!
(ST)
16/09/2009
15/09/2009
Tantas palavras
Comecei a pedalar por aí em setembro de 2007. Não sou muito chegada em efemérides, mas fiquei com vontade de comemorar o aniversário do blog, festejar tantas palavras que saem da cartola todos os dias e agradecer os amigos que sempre aparecem. Viva!
Abracadabra, um, dois, três
Não vai sair coelho dessa vez?
Abracadabra, toc, toc, toc
Essa mágica precisa de retoque!
Abracadabra, tum, tum, tum
Nada de coelho -- nem ao menos um?
Abracadabra, ora, ora, ora
É uma letra saindo da cartola?
Abrapalavra, um, dois, três
Aparecem as, bês e cês!
Abrapalavra, toc, toc, toc
Mil palavras e mais mil no estoque!
Abrapalavra, ora, ora, ora
Tantas palavras contam uma história!
Abracadabra, abrapalavra, salabim
Que delícia é fazer mágica assim!
(Silvana Tavano)
14/09/2009
...
"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" (Mario Quintana)
Com 20 e poucos anos eu abusava das reticências. Meus primeiros contos eram cheios de frases assim, terminando sem terminar. Os três pontinhos sempre deixavam "alguma coisa" no ar -- acho que a intenção era criar certo mistério, ou, sei lá, sugerir significados mais "profundos". Quando releio um ou outro desses textos, alguns até premiados em concursos de contos daquela época, vejo que o que todas aquelas reticências pontuavam era a minha falta de coragem (e também de repertório) pra dizer as coisas até o fim. Os textos é que eram reticentes. Não dá pra exagerar: os três pontinhos só contam alguma história quando a gente usa com economia, e na hora certa.
Gosto de pensar nas reticências como Quintana definiu, mas, hoje em dia raramente me permito usar essa pontuação. Meu esforço é pra que o pensamento continue por conta própria o seu caminho mesmo depois do ponto final.
(ST)
12/09/2009
Pipoca
As fadas da minha querida amiga May Shuravel estão em cartaz em setembro: o curta "As Fadas da Areia", dirigido por João Batista Melo, foi incluído no 12th Auburn International Film Festival for Children and Young Adults, e será exibido na Austrália no dias 24 e 25. Também está na programação do 7º Festival Internacional de Cinema Infantil que começa hoje -- aqui em São Paulo, duas sessões-pipoca: dia 19, às 11h30, no Cinemark do Shopping Eldorado, e dia 20, às 10h30, no Cinemark Santa Cruz.
11/09/2009
O ensaio
Meu filho e os amigos também estão planejando formar uma banda. Só espero que os ensaios não sejam aqui em casa.
(ST)
10/09/2009
Depois da chuva

Dias atrás, xeretando a lojinha do Instituto Moreira Salles no Conjunto Nacional, comprei uma série de postais de Haruo Ohara, um fotógrafo japonês que emigrou com a família para o Paraná em 1927, onde passou a vida trabalhando na agricultura e registrando a natureza e o dia-a-dia das pessoas do lugar. A foto "Crianças apreciando o arco-íris" foi feita em 1950, na Chácara Arara, em Londrina -- não é um registro do verdadeiro encontro do arco-íris com o pote de ouro?
(Silvana Tavano)
09/09/2009
Tempestade
Nuvens mal humoradas, vento furioso, gritos de trovão. E a chuva chora sem parar enquanto a briga não termina.
(ST)
08/09/2009
Aquele abraço
Dias atrás anotei uma ideia pra desenvolver em algum momento: uma menina que se apaixona no primeiro abraço -- é um abraço diferente, como ela nunca tinha experimentado, e que acontece bem antes do primeiro beijo. Porque tem abraço que é mais do que acolhedor. Daquele tipo que enlaça a gente, íntimo. Quando é de verdade, o abraço é um encontro.
Por coincidência, ontem recebi um abraço gostoso da querida Claudia Berkhout. Veio em forma de poesia, por e-mail: o texto anda circulando na internet e vem assinado por Mário Quintana, informação que ainda vou checar. De todo jeito, é bonito e amarrou a minha ideia de abraço com laço de fita.
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
(ST)

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