31 de mai de 2009

O brinquedo (2)

Na sexta-feira, escrevi sobre a mesa-bailarina, um brinquedo imaginário da infância que volta e meia aparece na minha cabeça. E hoje, visitando a exposição do escultor Saint Clair Cemin, no Instituto Tomie Ohtake, dei de cara a obra "Witness" -- mas não é uma cadeira-bailarina?

(ST)

29 de mai de 2009

Um brinquedo

Na casa da minha vó tinha uma mesa-bailarina que vivia na pontinha dos pés. Ela era loira e ficava sempre sozinha, meio triste, num canto escuro do quartinho de cima, o asilo dos móveis velhinhos onde minha vó guardava um monte de coisas encantadas. Era dia de festa pra ela e pra mim quando a gente se encontrava. Às vezes, a visita era rápida, minha mãe estava com pressa e nem dava tempo de conversar. Mas a conversa não fazia falta. A gente gostava mesmo era de rodopiar pela sala e até no quintal, seis pernas fininhas e cumpridas ensaiando um grande espetáculo.

(Silvana Tavano)

Do mesmo tamanho

28 de mai de 2009

Instruções

...Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro.
Com certeza, não é fácil encontrar a posição ideal para ler ( )... Pois bem, o que está esperando? Estique as pernas, acomode os pés numa almofada, ou talvez em duas, nos braços do sofá, no encosto da poltrona, na mesinha de chá, na escrivaninha, no piano, num globo terrestre. Antes, porém, tire os sapatos se quiser manter os pés erguidos; do contrário, calce-os novamente. Mas não fique em suspenso, com os sapatos numa das mãos e o livro na outra.


("Se um Viajante Numa Noite de Inverno", Ítalo Calvino)

27 de mai de 2009

Loiras, ruivas, morenas e etc.

Loiras famosas: Rapunzel, Alice, a Gata Borralheira e a Bela Adormecida. Ruivas charmosas: Ariel e Pippi Meialonga. Lindas morenas: Branca de Neve e Yasmin com seu Aladin. No tom etcétera, lembrei da simpática Madame Min. Alguém mais?

26 de mai de 2009

Pequenos notáveis












Pra chegar a um final feliz, os personagens principais sempre contam com a ajuda de importantes coadjuvantes: pássaros e ratinhas-costureiras, fadas fiéis e um grilo falante que dá ótimos conselhos. Esqueci de algum "grande pequeno"?
(ST)

25 de mai de 2009

Aprender a olhar

A jornalista e fotógrafa Inês Correa reúne grupos de crianças de 7 a 12 anos com uma máquina digital na mão e muitas ideias na cabeça -- como o céu de Maria Clara, de 8 anos. Pra ver outras fotos e saber das oficinas fotográficas que vão rolar em junho e junho, passe lá no Três Olhares.

(ST)

Outro jeito de voar


Tem muitas outras ilustrações bacanas de Mark A. Hicks lá na Discovery Education's Clip Art Gallery.

22 de mai de 2009

Outra tabuada

2 X 1 = 2
A professora vai pedir pra
Repetirepetirepetir

2 X 2 = 4
E se eu começar a tossir?
Repetirepetirepetir

2 X 3 = 6
Agora deu vontade de rir
Repetirepetirepetir

2 X 4 = 8
É melhor disfarçar e fingir
Repetirepetirepetir

2 X 5 = 10
Ai, que vontade de dormir
Repetirepetirepetir

(Silvana Tavano)

Um modo de usar

20 de mai de 2009

Sempre uma maravilha


"Gatinho de Cheshire", começou, bem timidamente, pois não tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas sorriu um pouco mais. "Acho que ele gostou", pensou Alice, e continuou. "O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?"
"Isso depende muito de para onde você quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importo muito para onde...", retrucou Alice.
"Então não importa o caminho que você escolha", disse o Gato.
"...contanto que dê em algum lugar", Alice completou.
"Oh, você pode ter certeza que vai chegar", disse o Gato, "se você caminhar bastante."

16 de mai de 2009

Um dia assim

De tão gelado, o vento fez o sol se encolher
Encabulaaaaaaaaaaaaado
Como se tivesse aparecido sem ser convidado
No céu azul e frio de sábado

(ST)

15 de mai de 2009

Onde é Longe?

A foto veio do blog da ilustradora Mariana Newlands, que assina "Longe" comigo, livro novo que sai logo, logo, pela Globo. O trabalho dela ficou lindo e a foto revela como ela viajou no texto -- o que pode ser melhor para um autor?

(Silvana Tavano)

14 de mai de 2009

Uma ideia (4)

Mais um trechinho da história de Luesse. Pra ler o que veio antes, clique aqui, aqui e aqui.

Falo pouco, às vezes até me sinto meio invisível. Não chego nem perto da Dani em matemática, pra mim ela é um gênio. Também não brilho em português, todos os As ficam pro Edu. Mas também não sou um desastre, fico sempre na média em tudo. Não sou alta nem baixa. Não dá pra dizer que sou gorda, mas também não sou maaaaaaaaaagra. Meu cabelo bate nos ombros e até a cor fica no meio do caminho, é um castanho médio, do mesmo tom dos olhos. Às vezes me sinto meio desengonçada, mas acredito na minha irmã – acredito em tudo o que ela me diz! E ela sempre me garante que as coisas vão se encaixar. Ser assim, normal, não é um problema pra mim. Nunca fiz questão de ser a principal, a primeira, a mais qualquer coisa, mas é claro que quero ser importante de algum jeito. Do meu jeito. Sou a segunda filha, nasci oito anos depois da Rafaela, minha 'irmãe' querida, e na escola, sempre fui a segunda Luisa da lista, depois da Fagundes. Por isso, escolhi ser Luesse.

13 de mai de 2009

Não vai dar pra enrolar...

Que saudade do tempo em que dava pra cabular uma aulinha ou outra ou, antes ainda, quando a folga dependia de uma "permissão". Com tanto trabalho me esperando na mesa, só consegui pensar num post assim:

Já fiz toda lição
Posso brincar lá fora?
Agoragoragoragora

(ST)

12 de mai de 2009

O patinho culpado -- um exercício

Tarefa do (ótimo) curso da professora Noemi Jaffe: recontar uma história infantil conhecida a partir do ponto de vista de um personagem que seja insignificante na trama, sem usar a palavra "não" e com três palavras pouco usuais, garimpadas no dicionário. Segue o texto:

Nascemos todos juntos, eu e meus irmãos. Acho que fui um dos primeiros a quebrar a casca e colocar minha cabeça pelada pra fora. Mamãe logo percebeu a nossa movimentação, deu um pulo e ficou ali, toda orgulhosa, soltando quacs de alegria cada vez que um de nós aparecia. Ele foi um dos últimos da ninhada, mas quando finalmente surgiu, mamãe abriu as asas, assustada, e deu um passo para trás – era um patinho pequeno e escuro, completamente diferente da gente. Preciso reconhecer: desde o primeiro momento, tive problemas para aceitar aquele pato esquisito como irmão. Era um disparate, uma verdadeira fósmea*! Como boa mãe, a nossa tratou de disfarçar o choque e imediatamente saiu chamando as amigas pra que viessem nos conhecer. Todas, sem exceção, perdiam a fala ao ver aquele estranho no ninho, confirmando a minha percepção de que havia alguma coisa muito errada com ele.

Nossos primeiros dias de vida transcorreram sem incidentes, as coisas foram acontecendo como deveriam: com mais ou menos dificuldade, todos nós começamos a circular, ensaiando nossos primeiros passos. Ele bem que tentava se enturmar, mas, acho que era mais forte que nós, ninguém o convidava para ciscar ou passear em volta do lago. Isolou-se, ou nós o isolamos, desde sempre.
No primeiro dia na água, seguimos mamãe, orgulhosos, e fomos, um a um, flutuando naturalmente. Em pouco tempo, formávamos um eito* perfeito, mas nossa harmonia sempre ficava bastante comprometida com aquela presença desengonçada. Invariavelmente, o patinho feio ficava no final da fila, esquecido e ignorado. Marroaz*, ele persistia, tentando a todo custo seguir a família que o rejeitava.
De tanto sofrer, o pobrezinho um dia finalmente decidiu partir. Nem se despediu -- sabia que nenhum de nós sentiria a sua falta. De fato, acho que mamãe ficou aliviada. Fazer o quê? Assim é a natureza.

Mas partir foi a sua sorte. Soubemos que depois de vagar sabe-se lá por quanto tempo, um dia parou para beber água onde uma família de cisnes brincava alegremente. Viu seu reflexo na água e, surpreso, olhou para os pequenos cisnes que vinham se aproximando dele. Sem acreditar, olhou novamente, e mais uma vez, até ter certeza do que estava vendo. Que grande ventura: descobriu-se cisne e foi adotado por aquela família no mesmo dia.

Saber disso tudo aliviou a minha culpa. Dizem que hoje em dia vive muito feliz, belo entre os cisnes. E até onde sei, não guardou mágoa dos patos.

*fósmea: ideia confusa e disparatada; indefinível.
*eito: sequência ou série de coisas que estão na mesma direção ou linha
*marroaz: teimoso, obstinado

Silvana Tavano

11 de mai de 2009

Do que a gente nunca esquece


A revista Carta Fundamental me convidou para escrever sobre o meu "primeiro livro", aquele especial, inesquecível e que acabou me transformando em leitora pelo resto da vida. Topei a proposta de cara, e desde então não parei mais de pensar no assunto: "Os Doze Trabalhos de Hércules" foi meu primeiro Lobato, a porta de entrada naquele sítio onde eu passava horas, esquecida de tudo. Mas, poxa, lembrei de tantos outros! Ainda não escolhi um título, mas cheguei à conclusão que vai ter que ser um livro que me emocionou, me fez rir e chorar e que li exatamente como nessa ilustração de Raquel Marin que encontrei sem querer no Donde Viven Los Monstros. Não é assim que uma história conquista a gente?

(Silvana Tavano)

8 de mai de 2009

Uma ideia (3)

A história de Luesse talvez continue mais ou menos assim. Pra seguir o fio dessa meada, clique aqui, e depois aqui.
...
Tem dias em que fico meio agitada. Hoje é um desses dias. Ninguém percebe, eu acho. De repente, dá uma vontade de sair correndo da classe. Agora mesmo, não consigo prestar nenhuma atenção no que o professor de filosofia está dizendo. Ele anda de um lado para o outro, percorre os corredores entre as carteiras, vejo a boca dele mexendo sem parar, só por isso sei que ele está falando. Cada vez que ele vira de costas pra mim, olho o relógio em cima da porta e me impressiono porque os ponteiros continuam praticamente no mesmo lugar. Então penso: quem sabe eu começo a correr e o tempo acorda? O olhar de um menino que senta perto da porta me tira do transe – de repente, me dou conta que ele pode achar que estou olhando pra ele. Só faltava essa! Vão começar a falar. Respiro pela boca, puxo o ar pra tentar voltar, quero me concentrar na aula. Gosto de filosofia, e o professor é genial. Será que ele tem filhos? Deve ser bom ter um pai filósofo, que fala sobre coisas interessantes na hora do jantar... Lá em casa não tem jantar.
Desde que meus pais se separaram, minha mãe instituiu o lanche como refeição noturna, um misto de café da manhã com sobras do almoço. Ela acha isso prático porque nossos horários são diferentes. Eu lancho às 7 da noite, ela costuma estar em casa entre 9 e 10 ou até mais tarde, depende do trabalho, e minha irmã só chega à meia-noite, depois da faculdade.
Não sei se essa falta que sinto é de uma comida fresquinha com conversa gostosa ou de um pai.

(Silvana Tavano)

7 de mai de 2009

Uma tirinha


Tem muitas outras lá no Depósito do Calvin.

É isso aí

"Quando a história nos envolve sentimos ser o personagem principal. A literatura nos possibilita viver essa aventura".
Bacana o comentário que a leitora Helen Tatiane Pereira Santos deixou na página do conto que publiquei na revista Nova Escola. Não é exatamente assim?

(Silvana Tavano)

5 de mai de 2009

Aula de física


"Viver é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio é preciso continuar em movimento." (Albert Einstein)

4 de mai de 2009

Linda Lygia

No final de semana comprei a nova edição de "As Meninas", um dos títulos de Lygia Fagundes Telles, relançado em grande estilo pela Companhia das Letras. Cheguei em casa e fui procurar o meu exemplar, uma nona edição da Livraria José Olympio, de 1978, que a autora autografou dois anos depois, quando nos conhecemos. Recém-formada e começando no meu primeiro emprego, na revista Desfile, propus uma entrevista com a escritora. Minha editora topou, Lygia também, e lá fui eu para o seu apartamento, na rua da Consolação, ansiosa e apavorada: tinha que dar conta de fazer uma boa matéria e me controlar diante de um ídolo -- tinha lido todos os livros dela, e a sua influência era óbvia nos contos que eu tentava escrever naquela época. Tinha acabado de ser premiada num concurso e mesmo achando que não teria chance de mostrar, levei o continho datilografado comigo. Pra resumir a história: Lygia foi encantadora e me acolheu com tanto carinho que me senti à vontade pra mostrar o tal conto premiado quando terminamos a entrevista. Ela leu com atenção e, de lápis na mão, fez correções, chamou minha atenção por causa da pontuação e do exagero no uso de reticências -- mais ou menos nove em cada dez frases acabavam com os três pontinhos. Me deu conselhos e estímulo, e depois de posar para o fotógrafo Mituo Shiguihara, fez essa foto comigo, uma recordação que guardei durante todos esses anos como um tesouro. Isso tudo aconteceu em 1980. Eu tinha 23 anos, e ela, 57.
Depois disso, a carreira de jornalista tomou fôlego. Acabei engavetando os contos e o sonho de ser escritora. Só muito tempo depois, comecei a escrever histórias pra crianças e finalmente publiquei meu primeiro livro. Por um desses acasos incríveis, nessa mesma época surgiu uma oportunidade de fazer uma entrevista com ela. Voltei ao mesmo apartamento em 2005 -- agora eu tinha 48 anos, e ela, 82. No lugar do conto datilografado, levei um exemplar da "Creuza em Crise" e também a nossa foto de tantos anos antes. Fizemos uma nova entrevista, desta vez para a revista Marie Claire, bebemos um dedinho de vinho do Porto e no final o fotógrafo Eduardo Simões registrou o encontro: como dá pra ver, ela continuava linda, e eu tinha aprendido a disfarçar o nervosismo.
É claro que vou levar meu novo "As Meninas" pra ela autografar no próximo dia 13, no Sesc Vila Mariana.

(Silvana Tavano)

1 de mai de 2009

Já nas bancas

Sandro Castelli ilustrou "O Grande Encontro", um miniconto meu publicado na revista Nova Escola de maio. Pra ler a versão online, clique aqui.
(Silvana Tavano)