4 de mai de 2009

Linda Lygia

No final de semana comprei a nova edição de "As Meninas", um dos títulos de Lygia Fagundes Telles, relançado em grande estilo pela Companhia das Letras. Cheguei em casa e fui procurar o meu exemplar, uma nona edição da Livraria José Olympio, de 1978, que a autora autografou dois anos depois, quando nos conhecemos. Recém-formada e começando no meu primeiro emprego, na revista Desfile, propus uma entrevista com a escritora. Minha editora topou, Lygia também, e lá fui eu para o seu apartamento, na rua da Consolação, ansiosa e apavorada: tinha que dar conta de fazer uma boa matéria e me controlar diante de um ídolo -- tinha lido todos os livros dela, e a sua influência era óbvia nos contos que eu tentava escrever naquela época. Tinha acabado de ser premiada num concurso e mesmo achando que não teria chance de mostrar, levei o continho datilografado comigo. Pra resumir a história: Lygia foi encantadora e me acolheu com tanto carinho que me senti à vontade pra mostrar o tal conto premiado quando terminamos a entrevista. Ela leu com atenção e, de lápis na mão, fez correções, chamou minha atenção por causa da pontuação e do exagero no uso de reticências -- mais ou menos nove em cada dez frases acabavam com os três pontinhos. Me deu conselhos e estímulo, e depois de posar para o fotógrafo Mituo Shiguihara, fez essa foto comigo, uma recordação que guardei durante todos esses anos como um tesouro. Isso tudo aconteceu em 1980. Eu tinha 23 anos, e ela, 57.
Depois disso, a carreira de jornalista tomou fôlego. Acabei engavetando os contos e o sonho de ser escritora. Só muito tempo depois, comecei a escrever histórias pra crianças e finalmente publiquei meu primeiro livro. Por um desses acasos incríveis, nessa mesma época surgiu uma oportunidade de fazer uma entrevista com ela. Voltei ao mesmo apartamento em 2005 -- agora eu tinha 48 anos, e ela, 82. No lugar do conto datilografado, levei um exemplar da "Creuza em Crise" e também a nossa foto de tantos anos antes. Fizemos uma nova entrevista, desta vez para a revista Marie Claire, bebemos um dedinho de vinho do Porto e no final o fotógrafo Eduardo Simões registrou o encontro: como dá pra ver, ela continuava linda, e eu tinha aprendido a disfarçar o nervosismo.
É claro que vou levar meu novo "As Meninas" pra ela autografar no próximo dia 13, no Sesc Vila Mariana.

(Silvana Tavano)
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