30 de abr de 2009

Uma ideia (continuação)

A história de outro dia poderia continuar assim:

Meu nome é Luesse. De verdade é Luisa, mas desde sempre fomos duas na classe: a Fagundes, que vem antes na lista, continuou sendo Luisa, e eu virei Lu Sampaio, a Luesse. Até penso em mudar meu registro um dia. Não sei se posso fazer isso de verdade, só sei que vou ser Luesse a vida inteira. Luisa é um nome que não me chama. Na escola, ninguém tem dúvida. Na família, sou Lu pra quase todo mundo. É um diminutivo boboca, mas não me incomoda. A única pessoa que insiste com o Luisa é minha mãe. Ela chega a dizer que não tem ninguém com esse nome quando ligam em casa perguntando por Luesse. Minhas amigas levam na brincadeira, mas eu sei que a coisa é séria. Minha mãe não sabe mesmo quem é Luesse.

Hoje o dia é puxado. Quatro aulas de manhã e mais duas de tarde, almoço a jato na cantina antes da reunião no grêmio. O pai do Edu está apressado, mal estaciona. Quase não dá tempo de fechar a porta, e o carro já está em movimento. Percebo uma sombra por trás das lentes dos óculos do Edu. Não falo nada, mas fico do lado dele, bem perto. Cruzamos o portão e seguimos juntos para a classe, em silêncio.


(Silvana Tavano)

29 de abr de 2009

Livro novo


Não sei se o tempo de trás passa mais devagar do que o tempo da frente, só sinto que o relógio do coração varia e do tempo também depende.

Ele bate mansinho, com saudade de um tempo bom que já passou, e dispara acelerado se a gente imagina coisas de um tempo que ainda não chegou.

Fui juntando lé com cré até finalmente entender: é só por causa do que a gente sente que o tempo parece diferente.

Depois de uma notícia boa, mais outra: "O Mistério do Tempo", meu segundo livro pela Callis, ilustrado pela mexicana Cecília Rébora, já está indo pra gráfica. Oba!

28 de abr de 2009

Altamente recomendável

Acabo de receber a notícia de que o "Como Começa" ganhou o Premio Altamente Recomendável FNLIJ/2009, na categoria Criança. De-lí-cia!

(Silvana Tavano)

Viva!

O "Como Começa" foi incluído no 46º catálogo da Feira de Bolonha, uma seleção organizada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), na categoria ficção para crianças. Ai, que chique!

27 de abr de 2009

Faz de conta que é verdade

Na escola-castelo dá pra ser princesa todos os dias
Brancas de Neve e Cinderelas trocando fantasias


Não deu pra resistir à cena que eu estava vendo da minha janela ainda agora: dei um zoom e entrei no recreio das pequenas alunas do Rainha da Paz.

(Silvana Tavano)

Responde Visconde

...
responde Visconde, responde pra mim
qual é a fórmula
do pó de pirlimpimpim

responde Visconde, responde Visconde
responde pra gente
como é que uma simples espiga de milho
pode ser tão inteligente?


A música faz parte do cd "Pra Marte", disco novo e ótimo do Maurício Pereira.

24 de abr de 2009

Livro coreografado

O meu "Como Começa" inspirou o espetáculo infantil "Começar e Cutucar - Vamos Ver Onde Dá", produzido pela Cia. Dançaberta, e vai ser encenado nesse final de semana, lá no Teatro de Dança, que fica no subsolo do edifício Itália (av. Ipiranga, 344, sábado e domingo, às 16h). Delícia.

(ST)

Drama


Peixinho vermelho e o gato mau: "Que olhos grandes você tem..."
Foto: Cydney Conger

23 de abr de 2009

Uma ideia

Entro no carro e resmungo um bom dia sonolento. A boca preguiçosa da Dani não abre, só entorta um pouquinho. Esse é o jeito que ela sorri às 6 e meia da manhã. Alguma coisa parecida com um oi sai junto com o bocejo da Sofia. O Edu está procurando alguma coisa na mochila, parece nervoso, e o pai deles, “seu” Zé Carlos, está mal humorado, como sempre, às terças. O trajeto até a escola é mais animado às quartas e sextas, a mãe da Dani não consegue não falar. Sempre pergunta alguma coisa pra um de nós. Ela é ok, mas, às vezes, acho que ela força um pouco. O pai também. Sempre penso neles como uma daquelas famílias-margarina de comercial de televisão. Desconfio. Mas isso tem a ver comigo. Sou desconfiada.
Segundas e quintas sempre vamos com minha mãe. Antes de ligar o carro, ela checa o batom no espelhinho, acende um cigarro e engata, acelerada, já fazendo as recomendações do dia entre uma tragada e outra. Ela vive querendo parar de fumar. Quer dizer, vive dizendo que quer parar de fumar. Eu me acostumei a ver minha mãe através da fumaça.


Diários da bicicleta: ainda não sei onde essa história vai me levar, nem se isso vai virar uma história. Mas quase sempre é assim que escrevo e gosto dessa sensação de que é a história que vai me escrevendo.

(Silvana Tavano)

22 de abr de 2009

Bruxas e bruxas

Ainda não sabia ler quando ganhei um disquinho (33 rotações!) com a história de João e Maria de um lado, e a da Branca de Neve, do outro. E ainda lembro do impacto que essa história provocava em mim, de como eu chorava quando os passarinhos comiam os pedacinhos de pão que o menino usava pra tentar marcar o caminho da floresta. Não sei quantas vezes ouvi aquele disco, mesmo sabendo que ia sofrer e chorar toda vez na hora em que os pais planejavam abandonar as crianças só com um pãozinho no bolso. E ainda tinha o medo da bruxa que, na minha imaginação, tinha essa cara terrível da ilustração de Arthur Rackham, que vi muitos anos depois, num livro dos Irmãos Grimm. Apesar dessa memória, não acho que a gente deva evitar temas tristes ou difíceis pras crianças. Como todo mundo, elas também precisam dessas histórias pra elaborar suas fantasias, angústias e medos -- foi com esse argumento que finalmente consegui convencer um editor a bancar uma história que fala de ausência e morte. Não é um tema fácil, assim como a história de João e Maria que eu não cansava de escutar, mesmo sabendo que ia acabar chorando. Por outro lado, também dá pra falar de muitas coisas importantes com humor e acho que foi por isso que acabei inventando uma bruxa simpática como a Creuza: comer criancinhas não passa pela cabeça dela nem nos piores momentos.

(Silvana Tavano)

21 de abr de 2009

Lição de casa

Pra não distrair um leitor interessado
Corte palavras sem dó e com um olhar afiado
O que fica ganha força e significado
É assim que o texto dá o seu melhor recado

(Silvana Tavano)

20 de abr de 2009

Lembrei da Cecília Meireles

...
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Hoje o sol já apareceu e sumiu nem sei quantas vezes, indeciso como tudo o mais nesse dia "útil" com jeito de feriado -- um dia em que a gente tem que decidir se quer trabalhar ou passear. Dificil!

(Silvana Tavano)

O pinguim, o gorila e o guarda chato

19 de abr de 2009

A primeira Narizinho


Ilustração de Jean G. Villin para "Reinações de Narizinho" (1931), publicada no caderno Prosa&Verso de ontem.

17 de abr de 2009

O dia

- A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. (...) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? – perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

("Memórias da Emília")
...
Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. (...) O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas, lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura, está almoçado ou jantado.
("A Reforma da Natureza")

Emília tem toda razão: livro bom a gente devora, e com muito prazer. "Memórias da Emília" foi um dos primeiros livros que devorei, e isso faz muito tempo. Faz ainda mais tempo que Lobato escreveu -- a primeira edição saiu em 1936 -- mas o tempo não arranhou a graça e o frescor de trechos como esse. Não sou muito fã de efemérides, mas é claro que o aniversário de Monteiro Lobato, 18 de abril, tinha que virar o Dia Nacional do Livro Infantil.

(ST)

Planos pro feriado


Adoro essa foto da Mariana Newlands. Tem passeio melhor?

(Silvana Tavano)

15 de abr de 2009

Alegria, alegria

Já está no ar o "Prova dos 9", um espaço pra lá de original, construído a partir da colaboração criativa dos usuários. Editado por Letícia Genesini e Noemi Jaffe, o novo site convida todo mundo a postar suas referências, imagens, afetos, citações ou desabafos dentro de um tema que vai mudar a cada mês -- a "alegria" é o assunto de estreia e fica em cartaz até o final de abril. A brincadeira é postar ou comentar os posts espalhados por oito links: palavra, objeto, ideia, som, imagem, corpo, câmera e etc. Também dá pra executar uma tarefa, completar uma lista ou preencher os passos um manual coletivo. Eu já me cadastrei -- vai .

(Silvana Tavano)

14 de abr de 2009

Um peixinho


Baseado num conto do escritor chinês Jimmy Liao, "A Fish With a Smile" ganhou a 56ª edição do Festival de Berlim como melhor curta de animação.

(ST)

13 de abr de 2009

Mãe

Frito os bolinhos de chuva na panela
Depois mergulho um a um no mar de açúcar e canela
É doce a saudade que eu sinto dela

(Silvana Tavano)

12 de abr de 2009

Era uma vez o outono


De outro jeito: o artista dinamarquês Peter Callesen conta histórias cortando o papel. Tem muitas outras no site dele, vai .

(ST)

8 de abr de 2009

Flores, balinhas e malabares de folga

"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Com essa frase na ponta de língua, o editor Rodrigo Ratier, da revista Nova Escola, saiu pelas ruas de São Paulo para fazer uma experiência: oferecer um livro toda vez que alguém pedisse dinheiro no semáforo. A ideia era dar o presente e depois voltar pra conferir a sequência da história. Ele e o fotógrafo Rogério Albuquerque viram muitas cenas como essa -- crianças e adultos sentados no meio-fio, folheando o livro que tinham acabado de ganhar.

7 de abr de 2009

Auto-ajuda

É verdade que a conversa era chata. Bem chata. Mas eu não conseguia pensar num jeito de sair dali sem parecer indelicada. Era uma daquelas situações em que a gente tem que dar um tempo, fingir algum interesse fazendo uma ou outra perguntinha antes de finalmente poder se despedir, lamentando pela falta de tempo e tal. E lá estava eu, dando o melhor de mim, quando bato os olhos nessa figura: sentado no sofá do meu lado, aparentemente conformado de ter que pagar aquele mico, meu filho rabiscava esse torpedo-SOS. Não sei se foi a expressão angustiada do personagem ou o toque urgente e ligeiramente ameaçador do ponto de exclamação que me fez levantar sem dar chance de ser convidada pra mais um cafezinho. Foi meio abrupto, mas acho que a pessoa nem notou. Continuou falando e falando -- ai, que pena, mas já? -- e tudo bem. Ela estava ótima, nós é que não aguentávamos mais.
Guardei o papelzinho e até hoje, quando percebo que estou virando refém de uma dessas conversas chatas, lembro do desenho. É o meu sinal pra dizer "fui".

(ST)

6 de abr de 2009

Cardápio de sonhos

E se desse pra gente escolher o sonho de cada noite? Alguma coisa que garantisse o enredo, mesmo depois de um dia chato ou de um filme de terror. Um xarope, por exemplo. Podia ter fórmulas diferentes pra todas as idades e gostos: sabor aventura, sabor romance, sabor mistério e até sem sabor, com direito a sonho-surpresa. Mais: pra não ter pesadelo nunca, era só acertar na dose e pronto. Não seria genial?

(ST)

5 de abr de 2009

Uma aula


Sem mocinho, sem bandido, sem música e sem lição de moral. Está tudo lá -- "Entre os Muros da Escola" é um filme brilhante, tem que ver.

(Silvana Tavano)

Ai, que vontade!


A foto é do Tiago Macambira. Pra ver o álbum completo, clique aqui.

3 de abr de 2009

Todas as vezes

Era uma vez a história de sempre
O príncipe casa com a princesa
E nada surpreende a gente

Era outra vez uma história parecida
Só que o príncipe fica em dúvida
E a bela continua adormecida

Era a primeira vez e a história muda um pouco
De tanto fazer serenata
O príncipe fica completamente rouco

Era a segunda vez com mais novidade na história
O príncipe perde a voz de vez
Porque a princesa, imaginem, perdeu a memória!

Era a última vez dessa história sem cabeça nem pé
Tudo parece muito esquisito
Um príncipe mudo e uma princesa lelé?

Mas, quem sabe, era uma vez nova e diferente
Sem príncipe e princesa
Felizes para sempre

Era a vez de inventar uma história interessante
Em que todo mundo descobre que pode voar
Isso não parece bem mais emocionante?

(Silvana Tavano)

2 de abr de 2009

Das coisas difíceis

Comer só um pedaço de chocolate, esperar todos aqueles minutos pra entrar na piscina depois de almoçar, ir só uma vez na montanha-russa. Essas coisas são difíceis, mas a gente consegue. É um difícil-médio.
Também tem o difícil dificílimo: espirrar sem fechar os olhos. Impossível não é. Mas acontece que espirro é o tipo de coisa que sempre vem de repente e aí, pronto, quando o espirro sai, o olho já fechou. Com bocejo é igual. É muuuuuito difícil ficar de boca fechada se alguém está bocejando do lado. Já tentou?
O difícil que pega a gente desprevenido é o pior. Teste-surpresa no meio da aula, por exemplo. Se for de matemática, a palavra DIFÍCIL até pisca, com todas as letras enormes.
E tem o difícil-quem-sabe: pedir gibi ou joguinho de computador pra mãe um dia depois do aniversário. Dá pra arriscar, mas vai ser bem difícil ganhar outro presente tão rápido...
Cada difícil tem o seu grau de dificuldade. Outro dia descobri que também existe o difícil-fácil. De verdade é um fácil disfarçado de difícil. Amarrar o tênis é o fácil com mais pinta de difícil que eu conheço, mas tem um monte de coisas assim: andar de bicicleta, pular corda cruzada, ler um livro de trocentas páginas. É só pegar o jeito. Daí vira uma moleza.

Esse miniconto foi publicado na Folhinha, em 2007. Continuo gostando dele.

(Silvana Tavano)

1 de abr de 2009

Nas ondas do rádio

Bati um papo gostoso com Oscar D'Ambrosio no programa Perfil Literário, da Rádio Unesp. Pra ouvir a entrevista, clique aqui, e aqui para acessar outras entrevistas bacanas do programa.

(Silvana Tavano)

Simples não é fácil (2)