22 de abr de 2009

Bruxas e bruxas

Ainda não sabia ler quando ganhei um disquinho (33 rotações!) com a história de João e Maria de um lado, e a da Branca de Neve, do outro. E ainda lembro do impacto que essa história provocava em mim, de como eu chorava quando os passarinhos comiam os pedacinhos de pão que o menino usava pra tentar marcar o caminho da floresta. Não sei quantas vezes ouvi aquele disco, mesmo sabendo que ia sofrer e chorar toda vez na hora em que os pais planejavam abandonar as crianças só com um pãozinho no bolso. E ainda tinha o medo da bruxa que, na minha imaginação, tinha essa cara terrível da ilustração de Arthur Rackham, que vi muitos anos depois, num livro dos Irmãos Grimm. Apesar dessa memória, não acho que a gente deva evitar temas tristes ou difíceis pras crianças. Como todo mundo, elas também precisam dessas histórias pra elaborar suas fantasias, angústias e medos -- foi com esse argumento que finalmente consegui convencer um editor a bancar uma história que fala de ausência e morte. Não é um tema fácil, assim como a história de João e Maria que eu não cansava de escutar, mesmo sabendo que ia acabar chorando. Por outro lado, também dá pra falar de muitas coisas importantes com humor e acho que foi por isso que acabei inventando uma bruxa simpática como a Creuza: comer criancinhas não passa pela cabeça dela nem nos piores momentos.

(Silvana Tavano)
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