11 de nov de 2008

No divã

Sempre me senti desajeitada nas aulas de educação física. Eu era um desastre, o tipo de aluna que desanima qualquer professor. Mas não tinha inveja das meninas que faziam aquelas estrelas e conseguiam saltar pra lá e pra cá com graça e leveza. Até porque eu também tinha os meus grandes momentos nas aulas de português, e mais ainda nos dias de prova, quando eu fazia muitas redações, a minha e de mais um monte de gente.
Outras coisas que não me chatearam: nunca ter conseguido mergulhar de cabeça (afinal, qual o problema de cair na água de pé?)nem ter ido muito longe nas aulas de piano.
Mas tenho, sim, uma frustração que carrego calada desde pequena. Aliás, literalmente calada. Não sei assobiar. Nem um fiu-fiu. E olha que eu tentei. Diziam: faz um biquinho assim. Eu fazia e nada. Põe a língua no céu da boca. Eu me enrolava inteira, engasgava, mas som que é bom, zero. Vibra a bochecha, puxa o ar pra dentro, fecha os olhos, coloca os dedos assim assado. Silêncio. Bom, às vezes até saía um "arzinho musical", uma espécie de sopro desafinado, mas nada que lembrasse um assobio, nem de longe.
O pior nem é não conseguir -- duro mesmo é fazer com que as pessoas acreditem que você não consegue. Como se assobiar fosse algo tão banal quanto piscar os olhos, pular amarelinha, essas coisas. Não, não é. Diferente de ter dotes pra ginástica olímpica ou talento musical, não conseguir assobiar é um problema. Sei lá, um tipo de defeito de fabricação. Soube disso no dia em que descobri que minha mãe não assobiava. Anos depois, outra revelação: minha irmã também não conseguia. Nunca falamos muito sobre isso lá em casa, simplesmente sabiamos. E tinha o Jeremias, que viveu mais de dez anos com a gente, preenchendo esse vazio com seus trinados caprichados.
...
Meu filho também não assobia, mas nunca se queixou dessa herança. Com ele aprendi que a gente canta e pronto. Nem sempre sai afinado, mas e daí? Já ouvi tanta gente assobiando fora do tom... Em compensação, quando a pessoa tem jeito pra coisa, nossa, é sensacional! Enquanto escrevo esse post, ouço o assobio estereofônico da Cícera vindo lá da sala: um som forte e cheio de bossa, uma beleza de assobio. Aí dá inveja, fazer o quê?

(Silvana Tavano)

7 comentários:

Janette disse...

Sil,
Não só eu, mas nenhum dos 3 sabe assobiar aqui em casa. Somos a família dos "desassobiados"!!
Mas, sabe, eu nunca senti falta. Pelo contrário, sempre achei até meio esquisito ver uma pessoa assobiando, fazendo biquinho! Coisa de passarinho mesmo!
Bjs
Pi

Silvana Tavano disse...

Ah, os meninos também não assobiam? Eu não sabia... Que coisa, né?
De todo modo, adorei a nossa família "dos desassobiados".

beijo

may disse...

Lendo o post, não resisti:fiz mais uma tentativa,biquinho, bicão, etc.Há tanto tempo eu não tentava, quem sabe? Infelizmente, também não foi desta vez...
E aquelas meninas fazendo estrelas no pátio da escola? Loucas,malucas, todas elas! Não é possivel que elas não soubessem que o tombo era quase certo,que suas cabeças rachariam ao meio como cocos verdes despencados do coqueiro.Elas sobreviveram por sorte, sei muito bem.

Silvana Tavano disse...

Oba, May! Bem-vinda ao clube dos desassobiados!!! Já notou como a gente não para de descobrir coisas em comum?

Luciene Vieira disse...

Também não consigo assobiar. Contei isso ao meu único namorado mais jovem do que eu, um doce aspirante a escritor de quem não lembro mais o nome inteiro, dos tempos da faculdade. Ele se inspirou e escreveu uma crônica fantástica (dela não me esqueço!)intitulada "O pianista que não sabia assobiar". Após ler o texto rompi com ele: além de assobiar, o cara escrevia melhor do que eu! (É tudo verdade! Foi há uns vinte anos e só lembrei disso por seu "desassobiamento"!)

P@ulinh@ disse...

Slvana,
Também sou "desassobiada", porém sou "estrelada".
Paulinha

http://paulinha.akkari.zip.net

MALU, SIMPLES ASSIM disse...

Hahahaha... eu também não sei assobiar, apesar de papi e mami sempre terem assobiado muito, acredita? Lá em casa, quando a gente era criança, era até um jeito carinhoso de nos chamarem. Mas não guardo esse trauma, sei lá por quê!
Bjs.