27 de nov de 2008

Lobato e sua "Emilia" sem acento

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"– Perdão, Sr. Lobato, disse Mendes interrompendo-o. Nós queremos uma entrevista séria, biográfica, com a enumeração das suas obras...
– E queremos também a sua opinião sobre a ortografia, observou Gorenstein. Nós já somos meninos quase ginasiais, científicos. Que nos diz da ortografia? Qual prefere?
– Prefiro a minha, respondeu Lobato.
– É alguma especial?
– É e não é. Não é porque é a da Academia de Letras; e é especial porque suprimi os acentos. Acho a maior burrice do mundo estar acentuando palavras que até aqui viveram perfeitamente sem essas bolostroquinhas irritantes dos acentos. A palavra Emilia, por exemplo. Os acentistas escrevem Emília. Mas o acento só é admissível para evitar confusão como em “e” e “é”. Ora, Emilia sem acento não dá lugar a confusão nenhuma; logo, acentuar essa palavra, que até aqui viveu muito bem sem acento, é besteira. Goreinstein corou ao ouvir essa palavra tão “imprópria” numa conversa de cerimônia. Monteiro Lobato fingiu que não viu e continuou:
– Só uso o acento quando necessário, como só uso o lenço quando preciso dele. Vocês sabem porque a França se atrasou dos países anglo-saxônios?
Por causa dos acentos excessivos da língua francesa. Enquanto o francês perdia tempo botando as inumeráveis bolostroquinhas com que enfeitam as palavras, os ingleses tomaram conta da melhor parte do mundo. Já reparou que na língua inglesa não existe um só acento?
– É verdade! disse Mendes arregalando o olho.
– E no entanto é mais rica de todas as Línguas modernas, a de maior número de palavras (mais de meio milhão) e a que mais se presta as mais complicadas manifestações do pensamento."...


Já foi anunciado: a partir de 1º de janeiro de 2009, os acentos de palavras como "idéia", "jóia" e "enjôo" vão sumir dos textos publicados nos jornais do grupo Estado e nas revistas da editora onde trabalho -- lá, a partir da próxima semana, vamos ter palestra-aula pra desaprender o aprendido. Não sei o que Monteiro Lobato diria sobre o fim dos tremas e dos novos tira-e-põe hífen, mas gostei da lógica que ele usa pra acabar com os acentos nessa delícia de entrevista, uma colaboração da amiga e jornalista Patrícia Cerqueira (que, até ontem, continuava digitando esse "agudinho" bem no meio do próprio nome... Será mesmo que precisa?)

Silvana Tavano

3 comentários:

Anônimo disse...

Oi Sil,
Tão desligada que sou! Nem havia percebido a bolostrinha que o próprio Lobato aboliu da Emilia. A vida no piloto automático fica bem desinteressante!
Beijos

Patricia (agora sem agudo)

A saber: a Editora Abril também entra 2009 com todas as revistas sob as novas regras da ortografia. E os livros didáticos, minha irmã que é professora informa, também estão fazendo pela reforma ortográfica.

Silvana Tavano disse...

É isso. E não só os didáticos -- os títulos de ficção também estão sendo revisados a partir das novas regras. Todas as "ideias" já estão sem acento no texto do meu "As Namoradas do Meu Pai" (que ia ser lançando em novembro e foi adiado para 2009).

beijos

Anônimo disse...

Ah, cada um é cada um.Gosto de acentos, de hifens,tenho carinho especial pelo trema.Mas que "bolostroquinhas" é uma linda palavra,isso é...
may