4 de nov de 2008

Crescer

E agora -- abro ou não abro?
Melhor esperar. Minha mãe vai ficar chateada. Ela repetiu umas cem vezes: “VAMOS VER JUNTOS!”.
Nem é por isso... É que... Nem sei direito o que quero encontrar aí dentro.
Às vezes fico pensando que vai ser legal mudar. Uma escola maior, gente nova, outros professores... Mas, de repente, sei lá, tudo se inverte na minha cabeça, e começo a achar que essa escola é grande demais, tem muita gente e os professores nem devem conseguir saber quem é quem! Pior é quando penso que não vou encontrar meus amigos todos os dias. Se é que eles vão continuar sendo meus amigos!
Cinco e quinze. E ela só chega lá pelas sete -- não vai dar, acho que não agüento esperar!
E se eu ligar? É! Por que não? Claro, também é um jeito de “ver” junto!
Caixa postal. Ah, mãe! Cadê você? Quer saber: vou abrir e ler de uma vez. Chega de suspense!
E o Pedrão, será que ele também recebeu a carta? A Lu deve ter passado, tenho certeza!
Mas, e eu?
Cena um: não fui aprovado. Daí é como meu pai disse: “O destino decidiu por você”. É isso. Continuo na minha escola e pronto. Mas... Sei lá, acho que vou ficar meio mal... Mais ainda se todo mundo tiver passado no teste!
Cena dois: meu nome está aí. Isso também vai ser difícil porque então vou ter que escolher! Daí posso me arrepender de ir, e me arrepender de ficar.
É como dizem: se ficar o bicho pega, se correr, o bicho come.
Acho que eles vão me apoiar de todo jeito. Mas, no fundo, no fundo, sei que eles estão torcendo pelo final feliz “filho-aprovado-no-teste-muda-para-a-escola-onde-nós-estudamos”.
Só não tenho certeza de que esse é o melhor final pra mim. Quer dizer, nem é “final”, é começo, e o próximo capítulo da história – da minha história!-- está dentro desse envelope...
E agora – abro ou não abro?


(Silvana Tavano)

6 comentários:

Roberto Àlvaro disse...

Ótimo texto, Silvana Tavano.A partir de uma circunstância tão específica, tão particular, você consegue falar de sentimentos universais como as angústias e incertezas de um momento de transformação tão marcante como a adolescencia.Literatura é isso, não?
abraços
Roberto

Elena sem H disse...

Ai, ai! Ainda bem que nesse meio tempo já deu 19h e "mãe" já chegou.
E ai?
Abriu?
No que deu??
Incrível conseguir ficar assim, ansiosa junto... por um assunto que nem sei se é verídico. Hahaha. Êta, ser humnao...

carla caruso disse...

Que delícia de conto. Um suspense tão sutil mas envolve tanto a gente aqui...

E???

Um beijo, Carla

Silvana Tavano disse...

Poxa, que bom vocês terem gostado... Esse miniconto foi recusado por uma revista e até fiquei até meio assim de publicar aqui no blog.
Eu já estava insegura porque não acho nada fácil escrever sobre o mundo e a cabeça da garotada de 14 anos. O "gongo" só me fez acreditar que o conto era ruim mesmo!

E Elena: é tudo verdade mesmo!!!! A única parte da história que não bate é a "dos pais terem estudado" nessa tal escola pra qual o garoto fez o teste. Ah, e de que estou em casa às 19h -- nunca chego antes das 20h30 (rsrsr).
Enfim, foi exatamente assim. O Caio ficou nessa ansiedade, "lemos" a carta juntos por telefone e, sim, ele foi aprovado. Agora preciso escrever a parte dois:"vou ou não vou... e se isso e se aquilo?"

beijos

Anônimo disse...

Não fiz nenhum exame pra mudar de escola,mesmo assim essa história me fez lembrar de como era difícil ser adolescente!Tantas dúvidas...
beijinho
Trudy

may shuravel disse...

Hei, Silvana, qualé, mana?
Tá certo, ninguém fica feliz com uma recusa mas, daí a concluir que o conto é ruim...faça-me o favor,companheira,logo você, publicando um livro após o outro!
beijão
May