18 de abr de 2012

Um lugar

Ainda faltam algumas marteladas até que o trio do barulho -- seu Luis e seus dois simpáticos assistentes -- termine a obra aqui em casa. Enquanto isso, vou tentando me ajeitar ora na copa ora na única poltrona disponível, na sala, com o laptop no colo e a cabeça nas nuvens, flutuando em busca de um lugar imaginário, onde seria possível escrever. Não vejo a hora de ter meu sossego de volta, mas, quando a reforma acabar, acho que não vou recomeçar a rotina imediatamente: vou sair por aí, tomar um café, sem pressa, só pra ter o prazer de voltar e reencontrar o meu lugar. Pensando nisso, lembrei do conto "Felicidade Clandestina” em que Clarice Lispector descreve o sofrimento de uma menina que passa dias e dias à espera de um livro que a coleguinha promete emprestar. Com requintes de crueldade, a amiga, que é filha do dono da livraria, inventa todo tipo de desculpa esfarrapada pra adiar o empréstimo e saboreia cada minuto da angústia da menina, exercendo um prazer perverso de quem tem total controle da situação. Quando finalmente recebe o livro tão desejado, com permissão pra ficar com ele quanto tempo quiser, a garota não vai direto ao pote. Antes de matar a sede, numa espécie de agonia às avessas, vai adiando o momento de abrir o livro, finge que esquece que ele está ali, disponível só pra ela, até o dia em que deita numa rede e mergulha, em êxtase, nas “Reinações de Narizinho". Eu também, cada vez mais perto da última martelada, vou estendendo a minha rede imaginária e já me sinto clandestinamente feliz.

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