7 de out de 2007

Miniconto do dia

Sobre as nuvens
Às vezes dá pra gente ver o pensamento dos outros.
Ver com os olhos, não ler! Porque pra ler meeeesmo e até adivinhar tudo o que a pessoa está pensando tem que ter uns dons especiais. Ou conhecer muito a pessoa. Tem horas que só de olhar pra minha mãe já sei que ela vai me mandar tomar banho, por exemplo. Mas isso é outra coisa. O que eu consigo é ver o pensamento sendo pensado. É fácil, é só prestar atenção e dá pra enxergar a nuvem que forma geralmente no alto da cabeça da pessoa. Nessa hora, tem gente que olha pra cima e fica revirando os olhos, acho que tentando ver o que está dentro da nuvem. Também tem quem morda a boca, no cantinho, e daí os olhos disfarçam, fingindo que estão olhando pra outra coisa e que não tem nuvem nenhuma ali.
Quando o pensamento é triste, os olhos descem, quase fecham. É claro: a pessoa não quer ver! Mas com esse tipo eu ainda me confundo porque o pensamento preocupado também é meio assim, olhando pra baixo. Só que nesse a pessoa sempre pisca mais.
É muito legal ver o que eu chamo de pensamento-vulcão se formando. Esse tipo de nuvem até embaça o ar, de tão quente. Tem gente que fica vermelha, principalmente quando a nuvem-pensamento é de raiva. Esse tipo só não vê quem não quer, porque a cabeça pode até tremer, e tem gente que ainda solta uns grunhidos, um som que sai da garganta pelo nariz.
Ah, e também tem nuvem constante. Sabe aquelas pessoas que não prestam atenção quando alguém está falando? Na minha classe tem um menino desse tipo. A professora sempre diz que ele vive “com a cabeça nas nuvens” –isso prova que não sou o único que vê as nuvens, né?
De vez em quando também vejo as nuvens pretas. Sabe como é, a pessoa passou debaixo de uma escada ou cruzou um gato preto e daí fica achando que alguma coisa azarada vai acontecer. Pensa tanto que, pronto, a nuvem escurece e o azar aparece! Bom mesmo é quando não tem nuvem nenhuma: a gente olha e a cabeça está limpinha que nem céu azul, tem melhor?
(Silvana Tavano)

4 comentários:

janette disse...

Meus filhos vivem com as cabeças nas nuvens. Um voa até as nuvens de Marte, de tão longe que ele vai.
O outro fica nas nuvens dos livros de Stephen King e o terceiro pula de nuvem em nuvem, fazendo a maior bagunça no céu!
Bjs.

Anônimo disse...

Oi Sil, entrei hoje só pra dar uma olhadinha e encontro esse conto delicioso. Fiquei pensando no seus olhos brilhando, enquanto pescava nas suas nuvens a idéia de escrev^-lo.
beijo grande
Tanya

Carla Caruso disse...

Oi, Silvana,

seu conto é muito delicado. As imagens surpreendem. Adorei o pensamento-vulcão!

Um beijo, Carla

déborah disse...

Querida Silvana, eu tenho certeza absoluta de que você é que consegue ver um pensamento sendo pensado!
Você sabe o que se passa nas nuvens, bela!
adorei seu blog, a-do-rei.
beijos,
Déborah