30 de jan de 2009

Um lugar pra chamar de meu (3º postículo)

Irritado com os zumbis, o fantasma resolve sair do cemitério e se arriscar pela cidade em busca do tal "lugar pra chamar de seu". Mas o sonho romântico de encontrar um lar como os de seus antepassados desmorona rapidinho -- sem nenhum castelo à vista, logo percebe que vai ter que batalhar por um espaço muito menos nobre: os melhores pontos dos metrôs já foram ocupados por vampiros e, nas ruas mais sombrias, as bruxas estão soltas. O pobre já está bem desanimado quando entra num shopping:

-- Você tem senha?
-- Senha?
-- É, senha! Ou você acha que é só chegar e ir entrando?
-- Bom, é que...
-- Você não sabe que essas salas de cinema são as mais disputadas da cidade? É claro que tem fila, e a fila é grande!
-- Sei...
-- Sessões malditas à meia-noite, festivais-cult com os melhores filmes de terror, quem tá lá dentro não sai, entende?
-- Claro.
-- A espera é bem menor nas garagens. Naturalmente os cantos mais úmidos e escuros são bem disputados, mas dizem que a rotatividade é grande entre a turma que assombra por lá.
-- Não, obrigado, acho que é muito movimento pra mim! Estou à procura de um lugar sossegado.
-- Bem, não sei se é o seu estilo, mas... Você já esteve num sebo?
-- Um sebo? Não tinha pensado nisso!
-- Então: aquela poeirinha no ar, centenas de livros amarelados nas estantes, quem sabe até com uma ou outra teia de aranha pelos cantos! Com sorte, você se instala perto da parede de Edgar Allan Poe ou gruda no clima de terror de Bram Stoker, imaginou? Quanta inspiração! E se o sebo for mais moderninho, tem até Neil Gaiman...
-- Ah!

Pensei que o terceiro ia ser o último postículo da mininovela, mas a história acabou esticando. Ou será que terminou?

(Silvana Tavano)
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