2 de mai de 2008

No mundo das nuvens







Escocesas, peruanas, iraquianas, inglesas, gregas, italianas, francesas, brasileiras, do mundo todo. Ora suaves ora soturnas, melancólicas ou poéticas, incrivelmente infantis ou terrivelmente ameaçadoras, mas sempre belas. Difícil é selecionar as fotos mais bonitas na galeria da Sociedade de Obervadores de Nuvens, uma insólita organização fundada em 2004 pelo designer inglês Gavin Pretor-Pinney, com esse único objetivo. "Sempre adorei ficar olhando as nuvens. Não há nada igual na natureza no que diz respeito à sua variedade e carga dramática. Nada se compara a sua beleza efêmera, sublime", diz ele, na introdução do livro "Guia do Observador de Nuvens", lançado recentemente pela editora Intrínseca.

Antes de terminar de ler a orelha, já estava decidida a comprar o livro. O guia explica detalhadamente por que as nuvens têm formatos tão diferentes, fala de sua influência no clima, sobre como elas ajudam a controlar a temperatura do planeta e de que forma podem ser fundamentais na previsão de terremotos. Mas o que me encantou de verdade no livro foi o entusiasmo do autor pelas nuvens: "São a poesia da natureza e sua contemplação é benéfica para a alma. Deveríamos aplaudir sua beleza efêmera... No entanto, a maioria das pessoas mal parece reparar nas nuvens... Para muitas, não existe nada mais deprimente do que uma nuvem no horizonte". Indignado com esse estado de coisas, Pretor-Pinney resolveu sair em defesa das nuvens e fundou a tal sociedade -- "The Cloud Appreciation Society"-- num festival literário na Cornualha. Para sua alegria e surpresa, a palestra foi um sucesso e acabou virando um site que, hoje, reúne mais de 12 mil associados -- gente do mundo todo, de metereologistas e físicos a simples admiradores que escrevem, fotografam, pintam nuvens, ou apenas discutem tudo o que possa ter a ver com o tema.
As nuvens são passageiras, mas parece que o assunto veio pra ficar na vida desse inglês. Depois do site, ele inventou o livro-guia para explicar tudo sobre cumulus, cirrus, stratus e companhia. Apesar disso, o autor não recomenda a leitura para quem está interessado em informações científicas: "Não proponho [o livro] como texto metereológico, já que existem outros, fantásticos, sobre isso... Trata-se de uma celebração do passatempo descontraído, sem nenhuma finalidade prática e infinitamente alto-astral que constitui a observação das nuvens", explica.

Essa história toda me fez lembrar do Hermes. Pra quem não conhece, Hermes é um dos melhores amigos da bruxa Creuza, mago genial e respeitadíssimo. Um pouco excêntrico, é verdade, mas, indiscutivelmente, um dos cérebros mágicos mais brilhantes de todos os tempos. E uma de suas criações mais famosas é justamente o feitiço das nuvens falantes. Reproduzo aqui uma descrição desse incrível feitiço, publicada no livro "Encrencas da Creuza": "Falantes são nuvens mágicas que se misturam às comuns e giram em torno da Terra transportando mensagens e sinais especiais, entendidos apenas por outros elementos da natureza, como montanhas, árvores e animais, além de bruxos, naturalmente. Espertas, essas nuvens se desmancham assim que percebem que estão chamando a atenção de gente comum -- alguns humanos especiais, que costumam olhar muito para o céu".
Gente como Pretor-Pinney e sua turma, sem dúvida.
Depois de tudo, fiquei pensando: será que o feitiço do Hermes dá conta de despistar esses experientes observadores de nuvens? Sei não. Talvez isso seja difícil até para um bruxo experiente como ele porque tudo leva a crer que algumas nuvens falantes já foram fotografadas antes de desmanchar. Alguém tem dúvida depois de ver essas aí embaixo?


(Silvana Tavano)
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