22 de fev de 2012

Tesouros

Aproveitei o feriadão para enfrentar uma tarefa que venho adiando há muito tempo: abrir uma pilha de pastas cheias de papéis que, um dia, foram importantes. Passei horas rasgando exames médicos, notas fiscais e garantias de coisas que já nem existem, e um monte de isso e aquilos que foram direto para o lixo com suas respectivas pastas. A única que voltou para o armário foi a pasta com os textos que escrevi dos 18 aos 20 anos -- contos que releio e agradeço aos deuses por não ter conseguido publicar nada naquela época. Só que, no meio dessa papelada, encontrei dois escritos muito especiais: num deles, a letra da escritora Lygia Fagundes Telles entre as linhas da minha Olivetti, com anotações e sugestões sobre um conto que havia sido premiado num concurso e que, durante uma entrevista, tive a coragem de pedir que ela lesse. No outro, a letra do poeta Carlos Drummond de Andrade, tão generoso quanto Lygia, respondendo à carta que eu enviara junto com um original que pretendia publicar, contendo um texto dele. Mais do que permitir a reprodução do poema, ele aconselhou: "...Apenas lhe pondero que se trata de um texto bastante longo. Não acha que seria mais próprio transcrever um trecho -- digamos, os 15 últimos dísticos (estrofes de dois versos) para tornar mais leve a citação?"
Não tive chance de citar o poema de Drummond porque o tal "romance" nunca saiu da gaveta. E o primeiro livro que publiquei, 24 anos depois, já não tinha nada a ver com aqueles textos. Ainda assim, não tenho coragem de me desfazer desses papéis: como a carta do poeta e o conto revisado por Lygia, esses primeiros escritos me contam uma outra história: a de um sonho -- o de ser escritora -- que ficou adormecido durante tantos anos dentro de uma pasta.

7 comentários:

Clau disse...

Que achado hein?com certeza algo para se guardar com todo carinho.Abraços.

Anônimo disse...

Ah, o Drummond e a Lygia te mandaram bênçãos! Para guardar para sempre, querida. E adorei o seu texto -- especialmente a parte daquelas garantias das coisas que nem existem mais.... beijos.

Mariana disse...

O que escreveu entre os 18 e 20 anos faz parte de você. É sua história. Parabéns.

Soraia Moraes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Soraia Moraes disse...

Que bom compartilhar do seu lindo sonho! obrigada!
Soraia

Maria Jose disse...

Muito bacana. Esses tesouros fazem mesmo parte de sua história.
Beijonhos

Lucas . disse...

Também tenho aqui algumas pastas com meus 1os versinhos. São como um raio X do que a gente era antigamente, né?