23 de mai de 2011

O meu Lobato

Não sei dizer quantos anos eu tinha quando visitei o sítio do Picapau Amarelo pela primeira vez. Só lembro que gostei tanto daquela turma que voltei muitas vezes à estante do meu primo, onde esses livros moravam. Pra minha sorte, esse primo não prestava muita atenção e, às vezes, certos volumes não voltavam pra casa -- "O Minotauro", por exemplo, se perdeu no labirinto do meu quarto pra sempre. Mas isso é outra história.
Só vim a ser proprietária da coleção completa muito tempo depois, numa época em que a curiosidade já me levava pra outros sítios; dos 20 aos 30 e muitos não voltei a visitar Lobato, mas era bom saber que aqueles livros estavam ali e podiam me levar de volta à infância na hora em que sentisse vontade. Isso aconteceu quando comecei a escrever para crianças: foi com grande prazer que reli "As Reinações de Narizinho" e sigo relendo todos os outros. Há pouco tempo, um trabalho me conduziu à "Emília no País da Gramática" que, mesmo sem ser emocionante, é inventivo e continua sendo genial.
Resolvi falar de Lobato depois de ler a reportagem da revista Bravo, com as cartas que expõem com todas as letras a intolerância racial do autor. Não quero entrar na discussão sobre a necessidade de se fazer correções ou de acrescentar explicações aos seus textos infantis, mas fiquei com vontade de dizer que, pra mim, o que ficou marcado não foi o ranço do seu racismo, mas a mágica da sua fantasia. Da tia Nastácia, guardei uma imagem carinhosa -- a de alguém me esperando sempre com bolinhos saindo do forno; a personagem que transformou um sabugo seco no sábio Visconde e que costurou os sonhos da Narizinho na boneca Emília. Por tudo isso, torço pra que esse "desvio" do autor não desvie futuros leitores dos caminhos do Sítio.
Por coincidência, ontem esbarrei nesse texto de Clarice Lispector, de 1968: "Quanto a mim, continuo a ler Monteiro Lobato. Ele deu iluminação de alegria a muita infância infeliz. Nos momentos difíceis de agora, sinto um desamparo infantil, e Monteiro Lobato me traz luz". Assim como a minha tia Nastácia ainda traz cheiro de bolo gostoso.

(ST)    

2 comentários:

Agnes Alencar disse...

Silvana, concordo plenamente contigo. Não tenho posição ainda de quais deveriam ser as medidas tomadas diante do dito racismo do autor presente em sua obra, porém, fato é que uma desvalorização de seus escritos - por mais politicamente correto que possa ser - não me parece o caminho mais sábio.

Drika disse...

Olá Silvana!
O 'senhor' Lobato também invadiu minha infância com o seu inesquecível e maravilhoso Sítio, junto com toda turma simpática de lá. Eu era apaixonada pelas aventuras lá vividas e sempre me sentia parte daquilo tudo... um dia ainda quero visitar a cidade e o sítio onde ele viveu..=)

Deixo um abraço... cheio de sdds desse tempo.