14 de jan de 2010

Formigas

Elas estão sempre por aqui, e não deveriam estar. As verdadeiras operárias vivem nos campos, nas praças ou, sei lá, nas calçadas, ao ar livre, carregando folhinhas e vivendo suas vidas de formigas na natureza em vez de tentar fazer parte do ecossistema da uma cozinha. Mas essas são muito diferentes. Minúsculas e loiras, ou quase – algumas têm certo reflexo arruivado. Observo nelas a mesma determinação de seus pares quando estão em ação, alinhadas como um exército em marcha rumo ao menor resquício de qualquer coisa que sobre na pia, no chão, na mesa, na dispensa. Fico imaginando como poderiam carregar um farelo de pão do quinto andar até o formigueiro, mas não é o caso. Essas são formigas modernas: trabalham e comem fora todos os dias, mal param na casa, que deve ser um ninho cinco estrelas instalado em algum ponto das fundações do prédio. Tudo bem, tem a violência das ruas e tal, até dá pra entender -- como tribos urbanas, preferem a segurança dos condomínios e a comodidade de ir e vir pelos andares de um shopping cheio de fogões-praças de alimentação, com menus variados. O que mais me intriga é a esperteza. Farejam qualquer tentativa de extermínio e rapidamente mudam os horários de ataque e o trajeto. Recolhem-se durante alguns dias e, de repente, reaparecem, desfilando por novas trilhas, com ar de superioridade. Simplesmente ignoram a hostilidade da vizinhança. Só dão folga no inverno -- daí passam longas temporadas sem aparecer. Talvez viajem pra alguma colônia de férias. Nos dias quentes, em compensação, ficam pra lá e pra cá no maior agito. E andam doidas com esse calorão – tem umas que, de tanta excitação, acabam atropelando as companheiras, desorganizam toda a fila. Essas formigas loiras são mesmo muito, muito estranhas.

(ST)
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