2 de ago de 2012

O sabor das palavras

Framboesa: a frutinha é linda, e a palavra que a nomeia também é. Mas o sabor quase sempre me decepciona, como se o visual e a sonoridade do nome prometessem muito mais. Acontece o mesmo com a exótica carambola -- fico com água na boca, seduzida por essa palavra tão gostosa de se falar e acabo me frustrando com o sabor (geralmente) sem graça da fruta.
Dias atrás, uma amiga confirmou minha teoria lembrando da famosa sobremesa que a avó húngara preparava quando ela era pequena. O doce de carambola nem era bom, ela me diz, mas fazia o maior sucesso porque ficava lindo dentro do pote e tinha um nome delicioso: "compota de estrelas".
O sabor de certas palavras é mesmo irresistível.   

3 comentários:

Margarida disse...

Pois é! Também já me tinha ocorrido esse pensamento com alguns alimentos. E como é bom encontrar alguém que sabe pôr em palavras isso mesmo. Beijo.

MCris disse...

Oi, Silvana!
A relação entre palavra e paladar é mesmo complicada. Lembrei com carinho de um trecho do texto Sobre palavras e redes, que está no livro Conversas com quem gosta de ensinar, do Rubem Alves:
“Lembro-me de um cavalheiro, educado num mundo de hábitos alimentares marcados pelos tabus religiosos, e que aprendera a detestar miolo. Foi jantar em uma casa em que foi servida couve-flor empanada. Deliciosa. Após o jantar dirigiu um elogio à anfitriã:
─ Divina, a couve-flor...
─ Couve-flor? Miolo empanado...
E sem que houvesse uma única alteração nos componentes físico-químicos da situação, a linguagem que envolvia o corpo se encrespou, e a polidez transformou-se no embaraço da saída apressada da mesa para vomitar... Vomitar o quê? Miolo? Absolutamente. Vômito de palavras, rótulos, etiquetas (...)”
:P
Um abraço!

Silvana Tavano disse...

Cris, não conhecia esse texto, que ótimo!
beijo