21 de mar de 2011

Voar

Adoro viajar, mas não gosto nadinha de aviões. Não por causa do desconforto, a poltrona apertada não é problema pra mim. Dureza é o aperto do peito e a vontade de sair correndo na hora em que a porta fecha. Disfarço bem, só alguém muito atento vai perceber que estou em pânico, mas é exatamente assim que me sinto durante todo o tempo de voo -- um tempo suspenso em que fico literalmente em suspense. Leio cinco vezes a mesma página do livro, tento acompanhar o filme, com sorte até tiro um cochilo, mas estremeço ao menor chacoalhinho, chamo a aeromoça se percebo um ruído estranho. O drama só termina quando o avião finalmente pousa.  
Anos atrás, por conta de uma reportagem para a revista Exame, fiz um curso para executivos que tinham medo de avião. Aprendi um monte de coisas sobre correntes de ar e turbulências, e até escrevi uma matéria encorajadora, mas, na prática, segui embarcando com todos os meus temores. Muitos anos depois, esses temores inspiraram a primeira história infantil que escrevi, a da bruxa Creuza em pânico dentro de um avião, na época em que trabalhava na revista Marie Claire e estava prestes a ser despachada para a Espanha. De lá pra cá, venho aprendendo a voar a bordo das palavras e gosto cada vez mais dessas viagens. É por isso que, a dois dias de encarar mais um avião rumo a Milão e Bolonha, peço emprestada a vassoura da Creuza e também releio a história de Wolf Erlbruch -- dessa vez, vou sentar perto da janela pra tentar ver a senhora Meier voando com seu melro.


(ST)
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