16 de dez de 2009

Aula de português

De vez em quando visito Zanzinzum pra aprender alguma coisa de zanzinzunês. Não é longe, dá pra ir a qualquer hora -- é só embarcar num dicionário cinco estrelas e fazer a viagem numa poltrona macia, com tempo pra xeretar entre as fronteiras que vão de A a Z. Antes pedir informação, tento me virar lendo as placas em voz alta pra ver se o som me diz alguma coisa, mas erro em 99% das vezes. Encontro a palavra sujigola e penso imediatamente num babador manchado de mingau, uma espécie de gola que a gente pode sujar sem culpa. Mas logo descubro que esse é o nome do freio que passa debaixo do queixo do cavalo, aquela correia que prende o animal. Nada a ver com a liberdade que um babador pode significar diante de um prato de macarrão com molho de tomate! Depois encontro a palavra aralha e erro de novo, imaginando um pássaro exótico e não uma novilha que, mesmo sendo pequenininha, já pode puxar o arado. E empaco de vez em patripotestal. Lembro de pátria, pedestal, fico repetindo a palavra em voz alta e sem querer começo a cantar que moro num país tropical. Moro mesmo, mas nunca usei essa palavra pra dizer que o poder familiar se concentra na figura paterna. Faço nova escala, agora na enigmática descimbrar. Acho bonito o jeitão desse verbo que me faz pensar em aventura, grandes descobertas: "O marujo Simbad descimbrou-se pelos mares...". Não combina? Mas não é nada disso: descimbrar é retirar os cimbres de um arco depois da construção. Pena, acho que nunca vou ter ocasião pra usar uma palavra tão sonora. Na última parada do percurso traduzo recovo como esconderijo e, surpresa, descubro que essa é a posição em que estou enquanto leio: recostada no cotovelo. Difícil essa língua, não?

(ST)
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