10 de jan de 2008

A monstra do amor

Quando eu era bem pequeno achava que minha mãe era duas (ainda não desvendei esse mistério, mas um dia descubro tudo). Explico: tem a minha mãe, de cabelo comprido e bem preto. Ela vive correndo e às vezes fica brava por causa de bagunça.
E tem aquela outra, que é parecida com a minha mãe. Mas só parecida. Porque, de verdade, ela é uma espécie de monstra. Não dessas do mal. É que ela tem um jeito meio assustador, mas só pra quem não conhece.

Quando ela aparece, é sempre uma surpresa-susto. E toda vez começa do mesmo jeito. Vejo aqueles olhinhos piscantes me olhando no canto da porta. E logo vai aparecendo também a boca, meio torta. Antes eu ficava em dúvida, achando que podia ser minha mãe fazendo careta de monstra. Mas a dúvida virava certeza ao contrário na hora em que eu via o corpo inteiro. A monstra tem um corpo tipo maçã, toda redonda, e minha mãe é de um estilo mais banana. Mas a maior diferença mesmo é que a monstra só quer bagunçar, nem pensa em arrumação. Completamente diferente da minha mãe.

Tem época que a monstra vem quase todo dia. Mas de vez em quando ela some. Nunca perguntei porquê. Perguntar como? A gente não conversa, nunca dá tempo de trocar uma idéia. É que não é bem uma visita que ela faz, parece mais uma ataque! Na hora, sinto medo. Quer dizer, não é bem meeeeeeeeeedo, é uma aflição misturada com confusão. Até hoje não sei como ela entra aqui, mas deve ser com algum poder de monstra. Vai revirando aqueles olhinhos engraçados e torcendo a boca toda desencontrada do torcido das sobrancelhas.

Daí ela avança pra cima de mim e começa a correria, que dizer, quando consigo correr. Tem vez que ela me pega logo de saída! Quando isso acontece, fecho os olhos e espero. Não tem mesmo jeito de me defender, ela é muito maior e mais forte e mais monstra. Então eu me rendo e pronto.
A monstra mexe aquelas mãos tão rápido que não dá mesmo pra tentar escapar. As mãos pulam do meu pescoço pra barriga pro buraquinho atrás do joelho pro dentro da orelha e de novo pra caverna do umbigo e depois prum lugarzinho embaixo do braço onde até arde de tanta cócega que faz! No meio disso tudo, ela belisca minha bunda, faz nó no meu cabelo e bufa e cantarola uma música esquisita e solta ar (ou será fumaça...?).

Eu sinto tanta cócega que sempre penso que vou morrer de rir e de chorar na mesma hora. Quando fica insuportável eu imploro um intervalinho pra respirar. Quase sempre funciona. Ela me larga e fica dançando e pulando na minha cama e enquanto ela se distraí comemorando, eu me recupero e fujo. Toda vez mudo o lugar do esconderijo -- ela levou um tempão pra me achar dentro do box do banheiro da minha mãe. Enquanto me procura, ela bufa e fica sacundindo a cabeça, e os cabelos dela, que já são desgrenhados por natureza, ficam arrepiados pra cima. Essa é a hora que ela parece mais monstra do que nunca.

E quando ela chega perto, quase me achando, não aguento de nervoso: dou um grito que não acaba nunca e saio voando, sem olhar pra trás, escapo daqueles dedos elétricos (são muitos, pelo menos uns vinte dedos).
Todas essas coisas não mudam muito, mas na hora que está acontecendo eu esqueço que é sempre igual e o medo volta novinho em folha. Ela sempre acaba me encurralando em algum canto. É quando vem a segunda parte, a do ataque beijante. São uns beijos barulhentos e estalados que também fazem um pouco de cócega, mas não daquele tipo que faz a gente prometer qualquer coisa pra se livrar.

Ultimamente a monstra anda meio sumida. Às vezes penso que ela nunca mais vai voltar. Só que também acho que isso pode ser parte de um plano. Quem sabe ela está esperando pra reaparecer quando eu quase tiver esquecido que ela existe?
Tomara.

Minha mãe nunca responde quando pergunto se ela é ela.
Até hoje, tem vezes que eu acho que é, e tem hora que juro como não é.

Caio desenhou a monstra quando tinha 6 anos, em 2000. O miniconto foi escrito um ano depois (ST)
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