4 de jan de 2008

Minientrevista

Fomos colegas de redação há muitos anos, na sucursal de uma editora que fechou faz tempo, a Bloch Editores. Da Olivetti de Ricardo Soares saíam reportagens e textos literários, mundos paralelos que ele continuou freqüentando pela vida afora. Ricardo passou por muitas revistas, como a Trip, jornais, como o Estado de São Paulo, e também televisão --lembram dele no Metrópolis, da TV Cultura? Publicou "Cinevertigem", pela Record, e muitos infanto-juvenis, como "O Brasil é feito por nós ?" (Atual Editora), que está na 18a. edição. Seu último livro, "Falta de Ar", acaba de sair, pela Letras Brasileiras, de Florianópolis, e também é dedicado a esse leitor. Antes de terminar o livro, bati um papo com meu amigo-autor:

A história é narrada pela Celeste, uma garota de 15 anos. Você teve dificuldade para escrever a partir do ponto de vista de uma menina?
O livro foi escrito em 1999 e ficou muitos anos na gaveta. Mas, hoje, relendo, acho que não fiz feio. Foi um belo desafio escrever uma história sob a ótica de uma menina, nunca tinha tentado.

Você faz algum tipo de pesquisa ou entrevista adolescentes quando escreve para esse público?
Não. Parto mesmo da observação do menino que eu fui e que continuo a ser nos meus avançados 48 anos e meio. Como Fernando Sabino, acredito que o menino é o pai do homem e acho que tudo o que observei e vivi na infância de alguma forma me acompanha.
Mas sou atento a tudo que meninos e meninas de hoje prestam atenção, o que de alguma forma me recicla. Quanto à preocupação com o texto em si, ao escrever pra esse público só procuro não ser enfadonho e dar um certo ritmo à história. Busco diálogos naturais, não quero forçar a mão pra parecer "da turma"... Ao mesmo tempo, é preciso tomar cuidado com os diálogos datados --não quero parecer um tiozão tutelando e induzindo o raciocínio dos meninos. Visto que alguns dos livros já estão há anos em catálogo creio que, de certa forma, consegui dar meu recado. Escrever para a moçada não exige um texto diferente, mas um texto fácil, desenrolado, de bom fluxo. Isso não quer dizer que devamos subestimar a inteligência deles, usando palavras "simplezinhas". Citando Fernando Sabino de novo: o difícil é escrever fácil. Eu tento.

Você acha que os garotos e garotas de hoje sentem as emoções (ah, aquela falta de ar!) da mesma forma que você sentiu?
Acho que sim. Como diz um poeta uruguaio chamado El Sabalero, que escreveu sobre as muitas "primeiras vezes" de nossas vidas --o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira transa, tantos primeiros momentos importantes em que a gente sentiu e sente a mesma "falta de ar".

(Silvana Tavano)
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