18 de jan de 2016

um, dois, três: assim começa uma história

No começo e durante muito tempo era apenas o Um.
Certo dia, alguém trouxe o Dois, um siamês ensimesmado -- ou talvez fosse melhor dizer com todas as letras: convencido de sua suposta superioridade – olhando com ares azuis para tudo e todos. O que não tinha em majestade e beleza felinas, Um compensava com um afeto mamífero irresistível, sempre pronto para retribuir cafunés com longas sessões de massagem, duas patas alternando toques de carinho no ritmo de um ronronar enérgico. Diferente de Dois, a vira-latice de Um o predispunha a se agrupar com uma docilidade realmente única: por isso, recebeu o novo companheiro de peito aberto, mostrando logo o quanto queria formar um par com Dois. Com a convivência, Dois encontrou seu lugar e a vida se encaixou em sua sequência lógica até a chegada de Três. Enorme em tamanho e afetividade, o cachorrão levou algum tempo para conquistar a confiança dos gatos, mas ao cabo de algumas semanas, sua determinação ímpar venceu todas as barreiras – sob o olhar incrédulo de Dois, Um não demorou a se entregar às lambidas de Três, macho com aptidões maternais, golden feito de mel, no mesmo tom caramelo dos seus pelos e dos seus instintos grudentos.
A dona da casa gostava dos bichos e, mais ainda, dos números -- esse era o seu alfabeto, um jeito de ler o mundo do zero ao infinito. Por isso, há muito tempo, deixara de ser Camila para se tornar Mil, um nome-número com som de estrada longa, gosto de fartura e vocação para grandes sonhos.
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