8 de nov de 2014

despedida

Miúda Felina é uma gata longeva. Dizem que seus quinze anos equivalem a setenta e tantos dos nossos, mais de oitenta dependendo da raça. Seja quanto for, é muito, mas até a semana passada eu não pensava nisso, ou preferia não pensar. É verdade que já faz tempo que ela deixou de ser ranzinza e temperamental como a Araci, a gata da bruxa Creuza; há muito parou de se meter em encrencas como a Princesa, do “Fala, Bicho!”, e também já não é tão saliente como a Sorte, companheira da protagonista do “As Namoradas do Meu Pai”. Com os anos, ficou mais dócil, silenciosa, quase não mia, dorme muito, mas continua inspirando os personagens felinos das minhas histórias.
Dias atrás, Miúda ficou doente pela primeira vez. Correria, pronto-socorro, exames e um diagnóstico previsível – o problema é sério e crônico como a própria velhice.
Enquanto escrevo, ela tira uma soneca, acomodada sobre o roteador quentinho. De vez em quando abre os olhos e fica piscando pra mim -- o oi mais azul que recebo todos os dias --, como se quisesse dizer: tá tudo bem. Depois muda de ideia, chega perto e, com toda a intimidade dos nossos quinze anos juntas, pula no meu colo. Antes de voltar a dormir, olha pra mim como se soubesse que estou escrevendo sobre ela. Sobre a saudade que já estou sentindo de você, minha Miúda Felina.

(*) mais trabalhos do artista plástico Endre Penovác aqui.
Postar um comentário