1 de abr de 2013

1º de abril

Sinto saudade da minha mãe todos os dias. Hoje não é mais aquela saudade dolorida, porque o tempo tem esse poder meio mágico de decantar as coisas: é como se a dor fosse calando até ficar quietinha, acomodada no fundo do coração. É só não remexer muito e ela apenas vai ficando por lá, sem se misturar com outras lembranças. Bom é que recordar já não dói e cenas gostosas se tornam cada vez mais cristalinas. É como se a falta virasse presença e, de alguma forma, ela sempre estivesse por perto.
Mas a saudade também vive no tempo do calendário, e não esquece de fazer visita especial nos aniversários, nas datas disso e daquilo, e no dia 1º de abril. Minha mãe começava a pensar na peça que ia pregar na gente uma semana antes e logo cedinho ligava pra contar a "novidade". Era sempre uma bobagem, um boato, uma mentirinha qualquer, mas toda vez eu caía na conversa e depois ficava me sentindo a mais boboca das bobocas quando ela vinha com a história do "1º de abril". E tinha um trote diferente pra minha irmã, outros para os netos; nesse dia, ela parecia mais criança do que todos eles juntos.
...
Lembrei deste texto, publicado aqui em 2010, porque, hoje cedo, a minha saudade acordou com a locutora da rádio CBN "brincando" com o dia da mentira. Por um instante, quase ouvi a voz da minha mãe mandando notícias pelo rádio.

2 comentários:

Tiane disse...

Bah! Tu falaste tudo...a dor vai se acomodando lá no fundo! É bem assim que me sinto com relação aos meus avós, apesar de volta e meia ainda chorar quando lembro do vó Yole. Mas não é um choro triste, acho que é uma mistura de tristeza e alegria. Tristeza por ela não estar mais aqui, e alegria pelas boas lembranças, como a tua com o 1o. de abril. Queria ter o dom da escrita como tu tens, para transformar os pensamentos em poesia, como tu fazes. Bom final de semana!

Silvana Tavano disse...

Tiane, e eu queria saber escrever com esse acento gaúcho delicioso!!!!
bom final de semana pra você!