3 de jul de 2008

Ai, que medo!

Minha gata --Miúda Felina-- só sai de casa muito de vez em quando pra ir ao pet-shop tomar banho, e sempre dentro da sua casinha. Mas vira e mexe a bichana me segue e acaba entrando no elevador comigo. Ela sabe o que vai acontecer e acho que se arrepende no mesmo instante em que a porta fecha. É sempre igual: quando começamos a descer, a pobrezinha me olha aflita, pula no colo, mia desesperada dizendo que quer sair correndo daquele espaço apertado e desconhecido. O elevador balança e Miúda treme no meu colo, com os fios do bigodão espetados e o coraçãozinho batendo tum-tum-tum, tadinha, nem parece aquela felina metida que desliza feito rainha por todos os cantos do apartamento. Piora quando chegamos ao subsolo e abro a porta do elevador. Atônita, ela olha em volta e gruda, cravando as patas na minha roupa.
A viagem de elevador não é uma experiência fácil pra Miúda. Do ponto de vista dela, imagino que seja algo parecido com entrar numa nave espacial e chegar misteriosamente ao escuro planeta-garagem. Como é que a mesma porta se abre e lá fora tudo está diferente? Não é pra menos que a gatinha fica desentendida...
Pra mim, o avião é uma espécie de elevador gigante. Depois de embarcar, controlo todos os meus instintos pra não sair correndo quando pressinto que a porta vai fechar. E assim que a nave começa a se mover na pista, se preparando pra subir e, inexplicavelmente, voar, fecho os olhos e revivo a agonia da minha gata --minutos intermináveis de pura aflição (que, dependendo das condições do vôo, podem se transformar em horas de pânico). Quando a aeromoça me olha, compadecida (devo ficar num estado lastimável, porque isso sempre acontece) bom, nessa hora sempre tenho vontade de gritar: SEI QUE AVIÕES SÃO SEGUROS E QUE A SENHORA PASSA A VIDA SUBINDO E DESCENDO, MAS EU ESTOU A-PA-VO-RA-DA E QUERO VOLTAR PRA MINHA CASA! SOCORRO.
Viajar de avião definitivamente não é uma experiência fácil pra mim. Como a minha gata, já sei o que vai acontecer e, a cada decolagem, juro que será a última vez. Só que, diferente dela, quando o avião pousa e a porta abre fico eufórica. Desço aquela escadinha quase saltitando de alegria, louca pra ver as novidades. Assim que piso em terra firme, esqueço de todo sofrimento, nem lembro do medo que senti.
E é por isso que, apesar de tudo, lá vou eu, de novo.
(Silvana Tavano)
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