2 de nov de 2015

(a)ventura

Fascínio e vertigem.
Há em mim um lugar que é porta entreaberta.
Pelas frestas, luzes: tantos tons e intensidades. Às vezes, é um clarão que ilumina com brilho o sempre dos dias. Em outros momentos, é só um lume discreto, chama de lanterna, esperança nas noites mais escuras.
Pelas frestas, oxigênio: corrente de ar vivo, sopro do mundo.
Nos dias de ventania, a porta escancara, empurrada pela força da 5ª Sinfonia de Mahler, pela poesia de Szymborska, pela palavra inaugural de Manoel de Barros, pela imaginação assombrosa de Calvino, pela tempestade nas telas de Turner ou pela simples visão do mar em ondas inquietas que reverberam leveza e profundidade.
Mas a porta também se abre com suavidade quando é outono e parece que vejo o sol se por pela primeira vez. Ou quando as nuvens se transformam em alfabeto para contar histórias em movimento.
Muitas vezes a porta se abre inesperadamente e me conduz a outros mundos pelas páginas de um livro. Tantos livros - através do espelho de Alice ou descortinando uma espécie de felicidade clandestina, eu, de repente, na mesma rede da menina do conto de Clarice.
Fascínio: por trás dessa porta, o sentido de tudo: coisas que me chamam porque também são minhas de tanto que as conheço. Nelas, me reconheço.
Vertigem: avanço devagar, toco as divindades que me visitam em momentos de suspensão; com sorte, por instantes, experimento o gozo do voo.
E volto. Preciso voltar. Tanto quanto preciso manter essa porta sempre entreaberta.

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