3 de set de 2015

trecho

… de uma longa história:

(…) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.
Meus primos e eu ficamos na casa de uma vizinha da tia Helô. Não nos levaram ao velório nem ao enterro. Melhor que lembrássemos da nonna como ela era, disseram, e em algum momento, quando já estávamos prontos pra dormir, lembrei do bolo, ainda pela metade, deixado sobre a mesa, junto com as xícaras e os restos do café da manhã, interrompido às pressas, enquanto minha mãe andava pela casa, desnorteada, depois de desligar o telefone. A dor explodiu de repente, sacudindo meu corpo com um choro surdo e assustador, uma agonia que ainda não sabia ser lágrima, gritando por dentro, em cada canto, como se precisasse juntar forças pra passar pela garganta, estrangulada, a boca aberta enquanto minha barriga chorava, meus braços choravam, todos os fios dos cabelos choravam. Num impulso, talvez porque não soubessem o que fazer, meus primos me abraçaram com força, e o que em mim tentavam conter aos poucos foi se espalhando pelos três em forma de espasmos, soluços, líquidos, o mesmo sangue de três netos circulando num único corpo que finalmente chorava.
A morte da minha avó foi uma notícia, a máscara de dor no rosto da minha mãe e um buraco pra onde, por muito tempo, eu olhava, indignada, sem compreender como ela tinha partido sem se despedir.

(…) 

2 comentários:

Lucas Grosso disse...

Uma tia minha, uma com exigências especiais, foi assim, aos 46 anos mais ou menos. Vi ela no natal de 2013 e ela, que não sabia falar com as palavras, não se despediu...

Ana Paula Mira disse...

Oh...senti uma saudade imensa de Vô Eulina...