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de uma história que está começando:
(...) Aos poucos, as coisas foram clareando, para o bem e para o mal. Livre do tampão e com a ajuda das grossas lentes dos óculos que comecei a usar logo em seguida, finalmente comecei a enxergar. De repente, contornos firmes, cores fortes, todas as imagens nítidas e de novo eu: fora de foco, deslocada, sem conseguir me encaixar nas situações, nas conversas, nos lugares. A sensação de rejeição não era exatamente uma novidade, a diferença é que, agora, eu não tinha como não ver. Então me refugiava num outro mundo, o que descobri bem antes de meus olhos voltarem a ser quase paralelos, um canto só meu, cheio de visões e imaginação, a casa pra onde continuo indo sempre que fica difícil encarar as coisas como elas são.
Dentro dos meus desenhos, é lá que quero morar.
30 de mai. de 2015
23 de mai. de 2015
ninho
passarinho, abrigo, leite em pó
casa na árvore, carinho, colo de avó
gravetos e ramos entrelaçados num grande nó
abraço e amor misturados numa coisa só
casa na árvore, carinho, colo de avó
gravetos e ramos entrelaçados num grande nó
abraço e amor misturados numa coisa só
20 de mai. de 2015
12 de mai. de 2015
do verbo sonhar
e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.
9 de mai. de 2015
mãe
o anel de pérola
o bilhete com a letra dela
uma foto-binóculo
o lenço de rendinha
e a saudade
dentro da caixinha
5 de mai. de 2015
raça
e porque ela sempre latia e rosnava por força (e certa vaidade) de seu pedigree nervoso, ninguém imaginava o quanto a mini-poodle tinha detestado o cheiro do xampu, o corte esquisito e aqueles horríveis lacinhos vermelhos.
27 de abr. de 2015
paisagem
a casa se plantou ao lado da árvore
e pintou a sombra de amarelo-alegria
abriu uma grande janela na frente
feliz de ter vizinho-passarinho
cantando bom dia
depois de um tempo de estranhamento
a árvore fez amizade com o cimento
foi-se enraizando pelo chão da casa
e hoje seu braço mais alto vive apoiado
na curva suave do telhado
quem vê as duas assim entrelaçadas
não sabe dizer quem nasceu antes
mas isso não é nada importante diante
de uma casa e uma árvore
vivendo abraçadas
e pintou a sombra de amarelo-alegria
abriu uma grande janela na frente
feliz de ter vizinho-passarinho
cantando bom dia
depois de um tempo de estranhamento
a árvore fez amizade com o cimento
foi-se enraizando pelo chão da casa
e hoje seu braço mais alto vive apoiado
na curva suave do telhado
quem vê as duas assim entrelaçadas
não sabe dizer quem nasceu antes
mas isso não é nada importante diante
de uma casa e uma árvore
vivendo abraçadas
21 de abr. de 2015
14 de abr. de 2015
saudade
Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava pra escola. A saudade me dá bom dia e diz: tudo parece ontem, mas ontem é outro tempo. Novo susto e agora choro do lado do fogão, enquanto a saudade vai se espalhando pela casa, misturada com o cheiro do café fresquinho.
7 de abr. de 2015
tímida
A menina: palavras contidas entre parênteses, sorriso apertado entre aspas, e os olhos, quase sempre baixos, pra não se relevar nas entrelinhas.
1 de abr. de 2015
mentiras sinceras
"Bem sei que é nas memórias que os homens mentem mais (...) Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura."
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)
28 de mar. de 2015
23 de mar. de 2015
quer saber um segredo?
o segredo da menina é precioso como uma pérola
e vive escondido dentro de uma concha que é só dela
o segredo do menino é valioso como ouro
e fica trancado num baú como se fosse um tesouro
mas, às vezes, o assunto é complicado
e já não consegue continuar trancafiado
daí começa a aparecer feito assombração
e faz de tudo para tentar sair da sua prisão
de repente, tenta escapar, mas fica sem voz
e para na garganta, engasgado num monte de nós
a menina morde os lábios e o menino se cala
mas não adianta: de outros jeitos, o segredo fala
feito vento invisível que movimenta tudo
o silêncio diz muito, mesmo se fingindo de mudo
e a lágrima vira palavra de letra transparente
que os olhos escrevem de um jeito urgente
quando um segredo teima em se contar
é melhor ter alguém com quem conversar
não se engane: ele vai continuar mandando recado
como um velho ranzinza e bem magoado
a concha abre devagarzinho: o menino presta atenção
a ponta do baú aparece: a menina tropeça na emoção
e então eles descobrem outro tesouro
mais precioso do que mil pérolas e todo o ouro
um lugar seguro, onde todos os segredos cabem
como um grande cofre que não precisa de chave
por lá, os segredos circulam à vontade
protegidos por um laço chamado amizade
17 de mar. de 2015
uma noite, um gato

Lá fora tem um mundo tão grande!
Quantas coisas pra descobrir...
Ao mesmo tempo, é bom estar aqui
No meu mundo de silêncio e contemplação
Lá fora tem o escuro da noite, as ruas desconhecidas
Mas... Quantas aventuras podem acontecer?
Será tão bom quanto me espreguiçar à vontade
E dormir profundamente num lugar quentinho?
Quando adormeço, visito outros mundos
Às vezes, sou outro gato em outra vida
Passeio lá fora aqui dentro
Pela janela vejo a vida em movimento
E ronrono: lá fora, aqui dentro
Tudo é sonho
15 de mar. de 2015
9 de mar. de 2015
trecho
(...) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.
6 de mar. de 2015
28 de fev. de 2015
as horas
estica
o tempo
altera
a lógica
do relógio
suspende
o agora
e brinca:
tic
enquanto
tac
ainda
20 de fev. de 2015
livro novo, oba!
vai e vem, levando folha, papel e pensamento
vem e vai, imprevisível a cada momento
faz a gente ficar arrepiada, alegre e também triste
faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem
17 de fev. de 2015
carnaval
O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.
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