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8 de dez. de 2016

verão

O frescor da manhã dura pouco. O dia avança com o sol de verão se impondo sem nuances e talvez por isso seja tão difícil escrever: é como se a vida só acontecesse lá fora, elétrica, radiante feito alegria de cigarras, o mundo pulsando, ansioso, chamando pra festa: vem!
No calor das horas, todas as coisas se expõem sem pudor -- ruas, árvores, corpos e humores adquirem contornos exatos ao meio-dia. Mas as palavras se dissolvem, preguiçosas, e adormecem sobre nuvens tênues. Só despertam quando o vento sopra forte anunciando a chegada de nuvens densas, que se concentram, carregadas de energia, trovejando histórias e tempestades.

3 de set. de 2016

bichos

A pressa é como um pernilongo, a agitação ao redor, o zum-zum-zum irritante, querendo sugar uns goles do nosso tempo-sangue. Já a preocupação é o mosquito que ronda, incômodo, persistente; e a desconfiança sempre é a pulga instalada atrás da orelha. Uma dor forte é como uma picada de abelha: vai fundo e direto ao ponto; só passa se conseguirmos extrair seu ferrão. Mas a tristeza é a aranha silenciosa que tece sua teia invisível, um emaranhado de nós que prendem a garganta e apertam o peito da gente.

14 de jun. de 2016

casa

Um jardim de tecido estampado com florzinhas delicadas convida: entra! Então abro o caderno, devagar, e vou passeando pelas linhas; sigo nessa direção, encontro o fio da história e com ele amarro as palavras que começam a chegar -- uma, duas, muitas --, querendo morar nesse lugar.

7 de jun. de 2016

esperança

é a caixinha de fósforos que a gente mantém sempre por perto, na gaveta do criado mudo ou na cozinha, para conseguir acender uma vela quando a luz acaba de repente -- a certeza de uma chama que pode nos guiar na escuridão.

30 de abr. de 2016

casa

Os dias passam enquanto percorro os corredores do supermercado, espero a vez no posto de gasolina, na fila do banco, no balcão da farmácia, e a reunião marcada para as 2 começa às 3 e só engata no assunto às 4. No meio disso tudo, cruzo com tantas distrações, acenando, convidativas, vem, vamos tomar um café, e se a gente fosse ao cinema, é o último dia daquela exposição, só um giro pelo facebook, que mal tem? Dias assim me levam para longe, nem sempre consigo voltar.
Estou em casa quando tudo é silêncio: então ouço a campainha, abro a porta e me acomodo para receber as palavras que vem me visitar.

11 de fev. de 2016

calma

Às vezes, ela entra pelos olhos, aproveitando o momento em que eles se fixam no céu para acompanhar um desfile de nuvens, ou então grudam num livro, encantados pelas palavras. Também acontece de ela penetrar pelo nariz e se esparramar, espaçosa, preenchendo todos os cantos com ar de férias -- um ar sem pressa, mais pleno de ar. Quando ela chega, o giro dos pensamentos entra em câmera lenta, o peito alarga e o coração espreguiça, batendo no compasso de uma felicidade quieta, que se anuncia sem disparos. Calma é assim: uma música silenciosa que muda o ritmo de tudo dentro da gente.

27 de jan. de 2016

saudade

Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava para a escola. A saudade me dá bom dia e diz: hoje também é ontem. Então a convido para ficar, ofereço café fresquinho e espalho lembranças de manteiga nas fatias de um tempo que nunca acaba.

24 de dez. de 2015

hoje

natal é saudade de uma noite antiga, as crianças de olhos arregalados procurando papai noel entre as estrelas que brilhavam muito mais sobre a cidade do interior, o céu exuberante iluminando os sonhos dos grandes e dos pequenos; de repente, gritos de alegria, a excitação saltando entre nós que víamos, num relance, a nuvem-trenó, olha, olha, ele está chegando!, e logo apareciam os pacotes coloridos, a árvore generosa presenteando a inocência dos nossos desejos e plantando -- eu ainda não sabia -- a saudade de uma noite antiga.

27 de nov. de 2015

vazio


no quarto não há móveis, só marcas de pôsteres que, um dia, cobriram as paredes, e algumas revistas espalhadas sobre o piso frio, como gravetos de um ninho que se desmanchou.

18 de nov. de 2015

trecho

de coisas que ando escrevendo...

(…) Pra mim, essa história de conexão entre gêmeos é puro folclore. A baboseira de que um sente o que o outro tá sentindo e tudo o mais. E sempre tem alguém contando dos irmãos separados na maternidade, adotados por pais diferentes, morando cada um num país, e morrendo no mesmo dia, do mesmo jeito. As pessoas exageram, mistificam tudo. Como se ter um gêmeo fosse uma coisa meio mágica unindo duas pessoas em tudo pra sempre. Isso é totalmente bizarro. A vida de cada um é única e o que tem dentro da gente só a gente sabe. A gente e as pessoas com quem a gente se conecta de verdade. Ela... Pensei que era de verdade. Mas como ela pode ter achado que ele era eu? Quer dizer que todas as vezes em que olhei nos olhos dela, foi só isso que ela viu, a mesma cara do Júlio?

7 de nov. de 2015

inquietação

é como o vento despenteando árvores e o fogo que se lambuza na madeira seca fazendo tudo crepitar dentro da gente.

2 de nov. de 2015

(a)ventura

Fascínio e vertigem.
Há em mim um lugar que é porta entreaberta.
Pelas frestas, luzes: tantos tons e intensidades. Às vezes, é um clarão que ilumina com brilho o sempre dos dias. Em outros momentos, é só um lume discreto, chama de lanterna, esperança nas noites mais escuras.
Pelas frestas, oxigênio: corrente de ar vivo, sopro do mundo.
Nos dias de ventania, a porta escancara, empurrada pela força da 5ª Sinfonia de Mahler, pela poesia de Szymborska, pela palavra inaugural de Manoel de Barros, pela imaginação assombrosa de Calvino, pela tempestade nas telas de Turner ou pela simples visão do mar em ondas inquietas que reverberam leveza e profundidade.
Mas a porta também se abre com suavidade quando é outono e parece que vejo o sol se por pela primeira vez. Ou quando as nuvens se transformam em alfabeto para contar histórias em movimento.
Muitas vezes a porta se abre inesperadamente e me conduz a outros mundos pelas páginas de um livro. Tantos livros - através do espelho de Alice ou descortinando uma espécie de felicidade clandestina, eu, de repente, na mesma rede da menina do conto de Clarice.
Fascínio: por trás dessa porta, o sentido de tudo: coisas que me chamam porque também são minhas de tanto que as conheço. Nelas, me reconheço.
Vertigem: avanço devagar, toco as divindades que me visitam em momentos de suspensão; com sorte, por instantes, experimento o gozo do voo.
E volto. Preciso voltar. Tanto quanto preciso manter essa porta sempre entreaberta.

18 de out. de 2015

casas

Pedro mora na casa amarela da rua cinza de uma cidade muito grande. Julia vive com a cabeça nas nuvens, no último andar de um prédio que arranha o céu. Caio vive pra lá e pra cá: sua casa é onde seus brinquedos estão. Cris mora dentro do seu diário e lá escreve cartas que acaba não enviando pra João, que mora em outro país, numa casa que ela não conhece. Clara ainda está morando dentro da barriga da sua mãe. João sempre diz que sua casa é duas, a do pai e a da mãe. Às vezes, Tati se imagina morando lá longe, na casa-estrela de onde sua avó manda beijos brilhantes.

15 de set. de 2015

sonho

Éramos nós três na foto, eu, no colo do meu pai, e a minha mãe. De repente, a foto entrou dentro do carro e minha mãe estava dirigindo. Ela sorria, olhando pra frente. Estávamos numa estrada, indo pra praia. Agora eu tinha sete anos e viajava quietinha no banco de trás. Todos estavam felizes dentro do carro, como se fosse o primeiro dia de férias. No momento seguinte, éramos só nós dois, eu, bebê de novo, no colo do meu pai, passeando num jardim. Não tinha ninguém por perto e nós dois estávamos nus. Não acontecia nada e dentro do sonho sonhei que achava estranho não acontecer nada. Mas era gostoso sentir o sol na pele.

27 de ago. de 2015

inverno

é como um toque de recolher: os dias vão embora mais cedo, encolhidos de frio, e a vida lá fora fica mais quieta pedindo pra gente escutar as palavras de dentro.

24 de ago. de 2015

trecho

… de uma nova história:


(…) Ah, preciso te contar o sonho! Hoje acordei com uma vontade louca de comer brigadeiro por causa desse sonho. Lembra quando a gente ficava enrolando brigadeiro a tarde toda? Então, sonhei com aqueles soldados-bolinhas enfileirados na mesa da cozinha, lembra? Você inventava que a mesa era o pátio do quartel e daí contava a história do exército de brigadeiros. Era uma história sem pé nem cabeça: você dizia que eu não podia comer todos os soldados de uma vez porque o batalhão tinha que ocupar o território inteirinho, e o território era o prato! Que maldade enganar uma criancinha desse jeito, como você tinha coragem? Daí pulei da cama com desejo de brigadeiro e com tanta saudade daquela época... Sinto saudade de você, sabia?

16 de jul. de 2015

trecho

de uma nova história:

(...) às vezes penso que, um dia desses, saindo do mar, eu encontro a Maira na praia, sentadinha, me esperando, e tudo volta a ser como antes. A gente vai se abraçar e nada mais vai doer em mim. Ainda dói. Toda vez que piso em terra firme, dói. Então vou pro mar porque o mar é meu chão, cara. De vez em quando as coisas também ficam escuras dentro do tubo, mas o céu azul tá lá, sempre tá, a gente tem que acreditar, concentrar no equilíbrio pra descer numa onda gigantesca e seguir com ela até que tudo se desmanche (...)

8 de jun. de 2015

Péricles somos nós


um trechinho da história do gato Péricles:

Virei Péricles-da-Sílvia por conta da teimosia da própria. Estou me referindo à Sílvia, claro. Lá estava eu, desiludido de todas as minhas vidas quando ela me achou, faminto e chateado, perambulando pelas ruas. Foi assim que minha sexta vida acabou cruzando com a primeira do jovem Péricles, um siamês vesguinho e muito simpático que já morava na casa há alguns meses. Vocês sabem, sou temperamental e meio arisco, mas andava tão carente naquela época que não resisti ao chamego dela e entrei no carro sem miar, mesmo desconfiando daquela história de “meu Péricles”. Deduzi que ela tinha me confundido com outro gato e me fiz de desentendido, sonhando com uma refeição farta num canto quentinho, antes que ela percebesse o possível engano. Mas não era nada disso. Descobri tudo logo que chegamos em casa: o que a Sílvia queria mesmo era um gato pra chamar de seu, e de Péricles! Até hoje não sei se foi falta de imaginação ou pura birra, mas ela tanto fez e teimou que teimou e bateu o pé até dar no que deu: dois Péricles, eu e o da Julia, vivendo sob o mesmo teto e sobre os mesmos telhados.
A coisa toda era confusa, mas com o tempo aprendemos a reconhecer quem estava sendo chamado a cada momento, eu ou o Péricles-da-Júlia. De todo modo, foi uma época gostosa, com rações miauvilhosas pra cada um de nós, servidas em tigelinhas separadas. A minha, felizmente, não era estampada com florzinhas e gatinhos ridículos, como a do meu xará. Mas ele não parecia se importar com isso. Também tínhamos banheiros privativos, cada qual com a sua bandeja, e cestinhas aconchegantes pra dormir confortavelmente sempre que desse vontade.
Vira e mexe penso nele, o pequeno Péricles... Será que ele teve a mesma sorte que eu?

12 de mai. de 2015

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

5 de mai. de 2015

raça

e porque ela sempre latia e rosnava por força (e certa vaidade) de seu pedigree nervoso, ninguém imaginava o quanto a mini-poodle tinha detestado o cheiro do xampu, o corte esquisito e aqueles horríveis lacinhos vermelhos.