O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.
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17 de fev. de 2015
23 de mar. de 2014
festa no formigueiro
A irmã da cigarra, a mesma formiga e uma nova história lá no "Quintal" da revista Crescer.
23 de abr. de 2012
As reflexões do espelho
E nos bastidores da história...
Xi, lá vem ela. Não falha um dia, é impressionante!
Era uma vez a história de sempre, então tenho que aguentar e dizer: ok, você é bonitona mesmo, a mais-mais tudo e blábláblá. Fazer o quê? Sou um espelho mágico, é verdade, mesmo assim sou obrigado a seguir o roteiro. Acontece que paciência tem limite até no mundo da fantasia: confesso que toda vez que a lenga-lenga recomeça fico contando os minutos até o momento em que finalmente posso dar um choque de realidade nessa bruxa. Mas, aí, ah... É uma delícia! Não sei se o pessoal percebe, mas vibro tanto que chego a ficar com medo de trincar.
A ilustração é da Maria Eugenia.
6 de mar. de 2012
Sorvete
Às vezes, a menina que eu fui acorda antes de mim, pula da cama, escolhe a roupa que vou vestir e passa o dia comigo, agitada, pedindo atenção e sorvete de chocolate.
3 de ago. de 2011
O inventor --um miniconto
Quando eu crescer, acho que vou ser inventor.
É que existem umas coisas muito importantes que ainda não foram inventadas. Por exemplo: um medidor de amor. Se dá pra medir febre, por que não dá pra medir amor? Já tenho até o nome -- "amorzômetro". Daí é só colocar em cima do coração da pessoa e pronto: vermelho = máximo; laranja = médio; amarelo = baixo; branco = zero. Se já tivesse um desses hoje em dia eu não precisava ficar perguntando pra minha mãe se ela gosta mais de mim do que do chato do meu irmão.
Também vou inventar um aparelho pra ver os pensamentos dos animais. Bom, pelo menos de alguns. Tem que servir pra cachorros. E talvez pra gatos também. Não tenho muita certeza se o mesmo aparelho vai funcionar pra jacarés, galinhas e outros bichos, mas isso pode ficar pra depois. O principal é o leitor de pensamentos caninos, e também já pensei num nome: iDOG. Tenho certeza que muita gente ia querer ter um desses porque não é só o meu cachorro que pensa um monte de coisas e não consegue me dizer. A gente não passa muito do básico: um latido = "oi"; dois = "vamos dar uma volta"; três = "você demorou pra chegar"; muitos latidos juntos = "estou muito feliz" (ou "muito chateado", depende do tom). Mas não é fácil descobrir o que ele acha das coisas que eu conto todo dia. Eu falo, falo e ele só fica me olhando, pensativo.
Quanta coisa falta inventar nesse mundo!
É que existem umas coisas muito importantes que ainda não foram inventadas. Por exemplo: um medidor de amor. Se dá pra medir febre, por que não dá pra medir amor? Já tenho até o nome -- "amorzômetro". Daí é só colocar em cima do coração da pessoa e pronto: vermelho = máximo; laranja = médio; amarelo = baixo; branco = zero. Se já tivesse um desses hoje em dia eu não precisava ficar perguntando pra minha mãe se ela gosta mais de mim do que do chato do meu irmão.
Também vou inventar um aparelho pra ver os pensamentos dos animais. Bom, pelo menos de alguns. Tem que servir pra cachorros. E talvez pra gatos também. Não tenho muita certeza se o mesmo aparelho vai funcionar pra jacarés, galinhas e outros bichos, mas isso pode ficar pra depois. O principal é o leitor de pensamentos caninos, e também já pensei num nome: iDOG. Tenho certeza que muita gente ia querer ter um desses porque não é só o meu cachorro que pensa um monte de coisas e não consegue me dizer. A gente não passa muito do básico: um latido = "oi"; dois = "vamos dar uma volta"; três = "você demorou pra chegar"; muitos latidos juntos = "estou muito feliz" (ou "muito chateado", depende do tom). Mas não é fácil descobrir o que ele acha das coisas que eu conto todo dia. Eu falo, falo e ele só fica me olhando, pensativo.
Quanta coisa falta inventar nesse mundo!
26 de abr. de 2011
Tarde demais
É como um gol que acontece depois do juiz apitar o final da partida -- já não há o que comemorar. Às vezes a gente torce tanto e espera muito pra que certas coisas aconteçam, mas o encontro que poderia mudar tudo ou a palavra que talvez virasse o jogo perdem a hora de acontecer.
Tarde demais é quando o futuro chega atrasado.
(ST)
Tarde demais é quando o futuro chega atrasado.
(ST)
9 de fev. de 2011
As reflexões do espelho
E nos bastidores da história...
Xi, lá vem ela.
Não falha um dia, é impressionante!
Será que não cansa de ouvir que é a mais bela, a mais isso e aquilo?
Todo dia a mesma perguntinha irritante: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais.... E blábláblá!”
Fala sério. Não posso mentir, meu reflexo mostra a formosura da pele, o brilho dos cabelos, a harmonia dos traços. Ok, você é bonitona mesmo. Mas será que não se manca que tamanha vaidade não é digna da verdadeira essência da beleza? Sou um espelho mágico, é verdade. Apesar disso, não dá pra levar esse papo a fundo. Sabe como é, tenho as minhas limitações dentro do roteiro. É por isso que não vejo a hora dessa história andar: só então vou poder falar da outra, a mais-mais bela!
Vai ser um drama daqueles, mas, convenhamos, essa bruxa anda precisando de um choque de realidade. Paciência tem limite até no mundo da fantasia.
(ST)
8 de fev. de 2011
Histórias do berço
Tenho sorte. Já faz muito tempo que estou por aqui e essa família é mesmo especial. Sabe como é, gente que dá valor a uma amizade antiga! Mudei de casa nem sei quantas vezes... Claro que envelheci, mas não virei um velho ranzinza, desses que ficam rangendo pelos cantos. Nem perdi minha força: continuo firme, aguento bem os trancos, e por isso estou na ativa, em plena forma, prontinho pra entrar em ação a qualquer momento.
Modéstia à parte, sou um berço bem experiente. Sei lidar com os calmos, os alegres, os bagunceiros e também com os chorões. Com esses, a convivência às vezes é mais difícil, mas sei que não é nada pessoal. É que alguns são mais manhosos, cada um tem seu jeitinho. Felizmente os anjos da guarda sempre estão por perto. Falando em anjos, bom, não gosto de me vangloriar, mas muitos já me disseram que não tem berço como eu dando sopa por aí. Parece que os mais modernos nem se mexem, como é que pode? Eu sempre faço questão de colaborar: se o anjo tá distraído e eu tô vendo que o bebê vai aprontar, começo a balançar forte ou invento um rangido, sei lá, dou um jeito de avisar. Afinal, somos uma equipe, a gente trabalha junto durante meses.
Os primeiros a aparecer são os anjos-cantores! Mas não tem aquela coisa de harpa, não, isso é lenda. Tem anjo especialista em cantiga de roda, em chorinho e também em música clássica. Uns cantam tão bem -- o anjo do Lucas, por exemplo. Que voz, um intérprete celestial! Eu sempre ouvia embevecido, quer dizer, quando conseguia escutar a voz dele... Acontece que o Lucas berrava tanto que o pobre do anjo quase sempre amanhecia rouco. Não dava pra competir: o moleque fazia mais barulho que uma orquestra sinfônica! Na minha opinião, ele não gostava do repertório, mas quem disse que o anjo aceitou minha sugestão de mudar a trilha sonora? Nem quis discutir. Era talentoso, mas meio temperamental. Coisa de artista.
O anjo do Tomás era especial. Cantava música indiana, e com um timbre suaaaaaaaaaave, que delícia! A gente logo embalava num sono profundo. Pena ele não ter aparecido de novo por aqui.
Depois de uns meses, os anjos-atletas começam a nos visitar. Esses têm que ser ágeis e espertos porque, vira e mexe, precisam se atirar no chão pra servir de almofada, ou sair correndo antes que o bebê vire a garrafinha de detergente como se fosse mamadeira. Ficam alertas o tempo todo -- janelas, degraus, tomadas, piscinas e ferro de passar, o mundo é cheio de perigos pra bebês do tipo aventureiro. A Bia não dava folga -- não parava de se mexer nem quando estava dormindo. Lembro que minhas costas viviam moídas.
Mas não estou reclamando, não! É assim mesmo, eles vão crescendo e eu, que no começo pareço tão grande, vou ficando cada dia menor. Sinto falta até das pisadas da Bia quando passo muito tempo nesse quarto escuro. Tomara que o próximo bebê já esteja a caminho. E quem sabe o anjo indiano não resolve reaparecer dessa vez?
Modéstia à parte, sou um berço bem experiente. Sei lidar com os calmos, os alegres, os bagunceiros e também com os chorões. Com esses, a convivência às vezes é mais difícil, mas sei que não é nada pessoal. É que alguns são mais manhosos, cada um tem seu jeitinho. Felizmente os anjos da guarda sempre estão por perto. Falando em anjos, bom, não gosto de me vangloriar, mas muitos já me disseram que não tem berço como eu dando sopa por aí. Parece que os mais modernos nem se mexem, como é que pode? Eu sempre faço questão de colaborar: se o anjo tá distraído e eu tô vendo que o bebê vai aprontar, começo a balançar forte ou invento um rangido, sei lá, dou um jeito de avisar. Afinal, somos uma equipe, a gente trabalha junto durante meses.
Os primeiros a aparecer são os anjos-cantores! Mas não tem aquela coisa de harpa, não, isso é lenda. Tem anjo especialista em cantiga de roda, em chorinho e também em música clássica. Uns cantam tão bem -- o anjo do Lucas, por exemplo. Que voz, um intérprete celestial! Eu sempre ouvia embevecido, quer dizer, quando conseguia escutar a voz dele... Acontece que o Lucas berrava tanto que o pobre do anjo quase sempre amanhecia rouco. Não dava pra competir: o moleque fazia mais barulho que uma orquestra sinfônica! Na minha opinião, ele não gostava do repertório, mas quem disse que o anjo aceitou minha sugestão de mudar a trilha sonora? Nem quis discutir. Era talentoso, mas meio temperamental. Coisa de artista.
O anjo do Tomás era especial. Cantava música indiana, e com um timbre suaaaaaaaaaave, que delícia! A gente logo embalava num sono profundo. Pena ele não ter aparecido de novo por aqui.
Depois de uns meses, os anjos-atletas começam a nos visitar. Esses têm que ser ágeis e espertos porque, vira e mexe, precisam se atirar no chão pra servir de almofada, ou sair correndo antes que o bebê vire a garrafinha de detergente como se fosse mamadeira. Ficam alertas o tempo todo -- janelas, degraus, tomadas, piscinas e ferro de passar, o mundo é cheio de perigos pra bebês do tipo aventureiro. A Bia não dava folga -- não parava de se mexer nem quando estava dormindo. Lembro que minhas costas viviam moídas.
Mas não estou reclamando, não! É assim mesmo, eles vão crescendo e eu, que no começo pareço tão grande, vou ficando cada dia menor. Sinto falta até das pisadas da Bia quando passo muito tempo nesse quarto escuro. Tomara que o próximo bebê já esteja a caminho. E quem sabe o anjo indiano não resolve reaparecer dessa vez?
(ST)
5 de out. de 2010
Das lembranças
Lembrança é uma memória que sempre encontra um lugarzinho pra dormir dentro da gente. Tem umas que preferem a cabeça, outras se acomodam no coração, mas não só. Elas estão por toda parte e despertam de jeitos muito diferentes. As que adormecem na língua, por exemplo, às vezes abrem os olhos de repente, só por causa de um bolo de laranja, e transportam a gente pra lugares e tempos que não existem mais.
Lembrança é assim: acorda com cheiro, com música, com certas palavras ou por nada mesmo. É que algumas têm sono leve, despertam com qualquer barulhinho. Essas são meio inquietas por natureza, acordam fora de hora, manhosas, tristes, magoadas ou, ao contrário, muito contentes -- por algum motivo, não se conformam de ter virado memória. Ficam agitadas querendo dizer que alguma coisa do passado não passou de verdade.
Mas também existem as lembranças que mergulham num sono tão profundo que só espreguiçam quando se cutuca muito. Mesmo assim, continuam sonolentas e embaçadas, confundido a gente com os sonhos que elas estavam sonhando.
(ST)
Lembrança é assim: acorda com cheiro, com música, com certas palavras ou por nada mesmo. É que algumas têm sono leve, despertam com qualquer barulhinho. Essas são meio inquietas por natureza, acordam fora de hora, manhosas, tristes, magoadas ou, ao contrário, muito contentes -- por algum motivo, não se conformam de ter virado memória. Ficam agitadas querendo dizer que alguma coisa do passado não passou de verdade.
Mas também existem as lembranças que mergulham num sono tão profundo que só espreguiçam quando se cutuca muito. Mesmo assim, continuam sonolentas e embaçadas, confundido a gente com os sonhos que elas estavam sonhando.
(ST)
2 de ago. de 2010
17 de mai. de 2010
O problema
Meu avô tem cara de problema.
Acho que ele é a única pessoa pra quem pergunto "tudo bom?" querendo saber se está tudo bom mesmo. É que sempre esqueço que o problema é a cara dele: minha vó já me explicou que a culpa é daqueles riscos na testa e principalmente dos dois grandões que ficam pendurados no meio dos olhos. Outro dia, vi uma foto de quando ele era pequeno, e reparei que não tinha risco nenhum. Daí perguntei pra minha vó se isso tinha acontecido por causa de algum vento -- já me disseram que eu podia ficar vesgo pra sempre se alguém soprasse bem na hora da careta. Mas não foi nada disso: ela disse que, no começo, eram só uns risquinhos que apareciam quando meu avô ficava preocupado com alguma coisa. Depois de muitos anos e muitas coisas preocupantes, os riscos cansaram de ir e vir, então resolveram ficar lá pra sempre.
Mesmo quando lembro disso acho meio esquisito ver meu avô rindo. Não tem jeito, a cara de problema sempre estraga um pouco a piada.
(ST)
Acho que ele é a única pessoa pra quem pergunto "tudo bom?" querendo saber se está tudo bom mesmo. É que sempre esqueço que o problema é a cara dele: minha vó já me explicou que a culpa é daqueles riscos na testa e principalmente dos dois grandões que ficam pendurados no meio dos olhos. Outro dia, vi uma foto de quando ele era pequeno, e reparei que não tinha risco nenhum. Daí perguntei pra minha vó se isso tinha acontecido por causa de algum vento -- já me disseram que eu podia ficar vesgo pra sempre se alguém soprasse bem na hora da careta. Mas não foi nada disso: ela disse que, no começo, eram só uns risquinhos que apareciam quando meu avô ficava preocupado com alguma coisa. Depois de muitos anos e muitas coisas preocupantes, os riscos cansaram de ir e vir, então resolveram ficar lá pra sempre.
Mesmo quando lembro disso acho meio esquisito ver meu avô rindo. Não tem jeito, a cara de problema sempre estraga um pouco a piada.
(ST)
16 de mar. de 2010
A franja do professor
26 de fev. de 2010
A batalha
A fila serpenteia pela parede rumo ao alvo, um microfarelo de bolo, esquecido sobre a toalha. Desta vez, decido não interromper a missão e fico observando o ataque maciço, a velocidade e a organização com que o exército se dirige ao objetivo.
Devem ter um faro incrível, a distância entre a janela por onde entram e a mesa é grande. O trajeto é cheio de obstáculos, mas complico um pouco mais, colocando um pano no meio do caminho. Fico impressionada com a agilidade: sem perder o ritmo, a comandante da fila desvia por uma rota alternativa. A maioria entende a tática e segue atrás, obstinada. Só duas ou três, abobalhadas ou inexperientes, não sei, ficam pra trás. Giram em círculos, aflitas, perdidas. Chego bem perto pra ver melhor: são tão pequeninas, uns riscos fininhos, carregados de eletricidade. Assim, sozinhas, parecem tão frágeis que, por um instante, vacilo. Lembro de uma amiga contando que tinha uma formiga de estimação quando era pequena, mas logo me dou conta de que aqueles tracinhos talvez nem sejam formigas, ou são formigas mutantes, sei lá, são esquisitas e nojentas. Acabo com elas sem piedade e volto a mirar o pelotão que, agora, já está quase fincando a bandeira sobre o montinho de bolo. Enquanto preparo minha munição, observo a euforia de algumas, já desfrutando do gosto da vitória. E então arremesso meu avião de papel e venço a batalha. Será que um dia elas desistem de invadir a terra dos gigantes?
(ST)
Devem ter um faro incrível, a distância entre a janela por onde entram e a mesa é grande. O trajeto é cheio de obstáculos, mas complico um pouco mais, colocando um pano no meio do caminho. Fico impressionada com a agilidade: sem perder o ritmo, a comandante da fila desvia por uma rota alternativa. A maioria entende a tática e segue atrás, obstinada. Só duas ou três, abobalhadas ou inexperientes, não sei, ficam pra trás. Giram em círculos, aflitas, perdidas. Chego bem perto pra ver melhor: são tão pequeninas, uns riscos fininhos, carregados de eletricidade. Assim, sozinhas, parecem tão frágeis que, por um instante, vacilo. Lembro de uma amiga contando que tinha uma formiga de estimação quando era pequena, mas logo me dou conta de que aqueles tracinhos talvez nem sejam formigas, ou são formigas mutantes, sei lá, são esquisitas e nojentas. Acabo com elas sem piedade e volto a mirar o pelotão que, agora, já está quase fincando a bandeira sobre o montinho de bolo. Enquanto preparo minha munição, observo a euforia de algumas, já desfrutando do gosto da vitória. E então arremesso meu avião de papel e venço a batalha. Será que um dia elas desistem de invadir a terra dos gigantes?
(ST)
31 de jan. de 2010
O pato que não sabia nadar
Ele sempre ia primeiro. Arremessado com energia, e cada vez numa direção, o pato afundava de leve antes de ressurgir, boiando, em posições nem sempre adequadas para um pato. Assim que ele aparecia, o garotinho se atirava para salvar o companheiro, anunciando: “Mãe, olha! Vou mergulhar!”. Não era exatamente um mergulho, só um salto no espacinho entre a borda da piscina e a água, o que não diminuía em nada o seu ato de coragem. “Mãe, olha! Agora vou nadar!”, e lá ia ele, salvar o pato, pedalando uma bicicleta invisível guiada por dois bracinhos azuis. Então colocava o pato na garupa e seguia “nadando” até a escadinha. Nesse trajeto, às vezes o pato se desequilibrava, teimando em se afogar de novo, o que complicava por instantes toda a operação. Recuperado, o pato ouvia um rápido sermão antes de ser recolocado no cangote do seu salva-vidas. Já em terra firme, o menino comemorava: “Mãe, olha! Salvei o Inácio!”, quase ao mesmo tempo em que corria de volta para o ponto de partida, ansioso pra atirar o pato pelos ares mais uma vez.
...
A mesma brincadeira de entra-e-sai da piscina, o mesmo "mãe, olha", tudo igual a todos, não fosse esse nome sensacional, Inácio.
(ST)
...
A mesma brincadeira de entra-e-sai da piscina, o mesmo "mãe, olha", tudo igual a todos, não fosse esse nome sensacional, Inácio.
(ST)
20 de jan. de 2010
A mini-poodle -- um miniconto
Ela latiu sem parar, mas ninguém entendeu. Tinha detestado o cheiro do xampu, o corte esquisito e aqueles horríveis lacinhos vermelhos.
(ST)
(ST)
14 de jan. de 2010
Formigas
Elas estão sempre por aqui, e não deveriam estar. As verdadeiras operárias vivem nos campos, nas praças ou, sei lá, nas calçadas, ao ar livre, carregando folhinhas e vivendo suas vidas de formigas na natureza em vez de tentar fazer parte do ecossistema da uma cozinha. Mas essas são muito diferentes. Minúsculas e loiras, ou quase – algumas têm certo reflexo arruivado. Observo nelas a mesma determinação de seus pares quando estão em ação, alinhadas como um exército em marcha rumo ao menor resquício de qualquer coisa que sobre na pia, no chão, na mesa, na dispensa. Fico imaginando como poderiam carregar um farelo de pão do quinto andar até o formigueiro, mas não é o caso. Essas são formigas modernas: trabalham e comem fora todos os dias, mal param na casa, que deve ser um ninho cinco estrelas instalado em algum ponto das fundações do prédio. Tudo bem, tem a violência das ruas e tal, até dá pra entender -- como tribos urbanas, preferem a segurança dos condomínios e a comodidade de ir e vir pelos andares de um shopping cheio de fogões-praças de alimentação, com menus variados. O que mais me intriga é a esperteza. Farejam qualquer tentativa de extermínio e rapidamente mudam os horários de ataque e o trajeto. Recolhem-se durante alguns dias e, de repente, reaparecem, desfilando por novas trilhas, com ar de superioridade. Simplesmente ignoram a hostilidade da vizinhança. Só dão folga no inverno -- daí passam longas temporadas sem aparecer. Talvez viajem pra alguma colônia de férias. Nos dias quentes, em compensação, ficam pra lá e pra cá no maior agito. E andam doidas com esse calorão – tem umas que, de tanta excitação, acabam atropelando as companheiras, desorganizam toda a fila. Essas formigas loiras são mesmo muito, muito estranhas.
(ST)
(ST)
11 de jan. de 2010
O peixe
Ele é azul. Ou melhor, muitos azuis. De vários tons brilhantes de escamas que vão clareando até sumir numa cauda fininha, quase transparente. Está dentro de um aquário grande com pedras, plantas ornamentais e outros peixes de cores e temperamentos diferentes -- é o único que não para quieto. Sobe veloz pra mergulhar na diagonal em direção ao fundo, no outro canto, e logo parte pra outra extremidade. Às vezes, nessas descidas, fica um tempinho olhando pela parede de vidro, entretido com o movimento colorido do imenso oceano que circunda o aquário. Mas logo sobe outra vez e mais uma vez desce, desenhando uma linha azul, como se fosse o contorno de um quadro líquido. Nesse vai e vem acorda um peixe que está se fingindo de pedra, cutuca uma turma que boia em grupo, meio sonada, implica com um douradinho, minúsculo, que se atrapalhou no meio das algas. Mas ninguém dá bola. Então o azul continua, sozinho, pra cima e pra baixo. É o único que não para quieto e se arrisca até o ponto mais alto, só pra mordiscar a água com gosto de céu.
(ST)
(ST)
19 de dez. de 2009
Tesouros
“Não podemos encontrar o sobrenatural sem passar pela natureza"
...
-- Hoje a fila das formigas ficou enorme! Você tinha que ver! Começava perto da jabuticabeira e terminava lááááááá no pé de limão. Acho que tinha uns três quilômetros. Ou mais, nem sei!
A mãe explicou que essa era a distância entre a casa deles e a da avó.
-- Mas se elas cruzavam o jardim de um muro até o outro, então era mesmo uma fileira e tanto – disse a mãe, enquanto tentava clarear o encardido das unhas do menino. -- Você andou cavando buraco de novo? Desse jeito, nosso jardim vai virar uma piscina!
Canteiro de flor cheirosa, passarinho fazendo lanche de fruta, tatu-bola disfarçado de pedrinha, tesouros escondidos, quanta história acontecia naquele jardim. E foi por causa das escavações que a mãe quis saber:
-- E o Trix? Faz tempo que você não fala dele...
Trix, o gnomo que morava no tronco do velho chorão, a árvore mais antiga, mais alta e a mais bonita da rua.
O menino enfiou a cabeça debaixo do chuveiro, fingindo não ter escutado a pergunta, e continuou falando das formigas. A mãe não ia gostar nem um pouco se soubesse que Trix estava seguindo uma pista que levava à pracinha, do outro lado da rua. É que o gnomo tinha certeza de que, ali, eles encontrariam um tesouro.
Por isso mesmo, o menino levou um susto, no dia seguinte, quando viu o amigo pulando no topo de uma grande pedra, bem no meio do jardim. Trix fazia sinais, apontando para o chão, excitadíssimo.
-- Mas você não disse que a gente ia cavar o próximo buraco lá na pracinha?
-- Disse e agora desdigo! As formigas me trouxeram de volta pra cá. E elas pararam exatamente neste ponto! Aqui, aqui mesmo, três vezes aqui!
Foi só o gnomo indicar o lugar pra que o menino começasse o cava-e-tira-terra-e-cava-e-tira-terra de todo dia. E como cavou nesse dia! No final da tarde, cercado de montanhinhas de terra e com os braços doloridos, ele já estava parando quando sua mão esbarrou em alguma coisa dura, fria e esquisita.
-- Trix, o que será isso? Uma pedra?
Enfiou a cara no buraco, mas não conseguiu ver nada. Lá dentro, no fundo, era escuro, e fora, o sol já ia se apagando.
-- Pega uma lanterna! – disse o gnomo, mandão como sempre.
O menino se irritava com essa mania do amigo ficar dando ordens o tempo todo, mas dessa vez não reclamou porque aquela era mesmo uma ótima ideia. Correu até a cozinha: sabia que o pai havia comprado uma lanterninha para deixar ao lado da pia, na “gaveta das emergências”. Aproveitou pra pegar as pás de praia com dentes, novinhas, ainda guardadas na parte de cima do armário.
Voltou ao jardim com todo o equipamento e retomou a escavação imediatamente, nem lembrou da dor nos braços. Pra chegar na “coisa”, o menino agora teria que cavar de lado, porque, fosse lá o que fosse, aquilo estava enterrado um pouquinho mais à direita. E cava e cutuca e se entorta e quando já não tinha mais jeito de alcançar o fundo do buraco-túnel, ele teve a ideia de usar os pés para tentar enxergar lá embaixo. Enfiou uma perna dentro do buraco, bem esticadinha, e colocou a lanterna acesa encaixada entre os dedos do pé. Foi quando viu melhor a “coisa”, e achou que aquilo não parecia uma pedra.
-- Trix! Trix! Você acha... ? Será que é? ... É... Pode ser, não é? Pode mesmo ser um baú! Ou será que é uma arca?
O menino esticou bem o pé e mirou com a lanterna, mas só conseguiu ter certeza de que a "coisa" não era grande, e era amarronzada, de um tom que se confundia demais com a cor da própria terra. Mas aquela caixa bem que poderia ter sido dourada um dia!
Foi então que Trix mergulhou no buraco, escorregando pela perna do menino até chegar ao baú. De lá, mãos em concha em volta da boca, anunciou:
-- Acho que finalmente encontramos! Sim, sim, sim! Três vezes sim!
Com o pulo de alegria que deu, o menino desmanchou dois dos montinhos de terra que tinha erguido ao lado do buraco. Nem ligou pra a bronca que a mãe daria por causa da bagunça. Agora, só pensava num jeito de trazer o bauzinho para cima: claro que as formigas não conseguiriam puxar aquilo e, a essa hora, todos os gnomos das redondezas já tinham se recolhido pra dentro de suas árvores. De novo, o menino tentou puxar o objeto com os pés, sem sucesso -- o bauzinho nem se mexia, era como se estivesse plantado na terra. Lá de dentro, Trix gritou outra vez:
-- Acho que encontrei uma fechadura. Tento entrar pela fresta e saio logo pra contar tudo!
Entrou, mas não saiu. E não saiu e não saiu e na hora em que a mãe ameaçou um castigo, o menino teve que voltar pra casa. Estava anoitecendo, não adiantou protestar nem dizer que estava muito preocupado com o amigo.
-- Mas, mãe... E se ele ficou preso? E se tinha algum bicho horrível lá dentro?
-- Tenho certeza de que está tudo bem. O Trix sabe se virar. Você vai ver como, amanhã, ele aparece com um monte de novidades...
Exausto, o menino adormeceu preocupado, pensando nos perigos que o amigo podia estar correndo. Mesmo assim, teve um sonho lindo. Nele, o Trix estava feliz da vida, pulando entre montanhas de moedas e pedras preciosas, escorregando por colares de pérolas, dando cambalhota no meio de enormes anéis de ouro. Pena que a sensação de pesadelo do dia anterior voltou assim que ele abriu os olhos, logo cedo.
A primeira coisa que pensou: o Trix pode ter ficado enroscado nas correntes de ouro ou, pior, foi soterrado por uma esmeralda gigante!
Com o peito apertado de tanta aflição, saltou da cama e correu para o jardim, ainda de pijama. Olhou na direção da pedra e teve que esfregar os olhos pra ter certeza do que estava vendo: ali havia uma... “coisa”. Seria aquela coisa? E como o Trix tinha conseguido desenterrar o tesouro?
-- Trix! Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiquis! TRIX!
Não demorou nem um minuto pra que o gnomo aparecesse num dos galhos do chorão, espreguiçando.
-- Bom dia!
-- Trix! Você está bem?
-- Desculpe, desculpe, desculpe! Três vezes desculpe! Você ficou preocupado, eu sei. Mas já era noite alta quando saí do buraco, o que foi uma sorte. Encontrei uma turma de corujas que só aparece por aqui nesse horário. Foram elas que me ajudaram a puxar o... hã, hã... o... baú.
Só então o menino lembrou.
-- E cadê o tesouro?
De braços cruzados, Trix encolheu os ombros e torceu a boquinha, apontando com o queixo na direção da pedra. O menino então correu para lá. Com as palmas das mãos, começou a esfregar energicamente a superfície impregnada de terra. E esfregou com tanta força que não demorou nada pra que o sonho do tesouro se desmanchasse diante de seus olhos: o baú não passava de uma velha lata de biscoitos, parecida com umas que ele já tinha visto na casa da avó. A “fresta da fechadura” nada mais era do que um buraquinho aberto pela ferrugem, e a lata pesava daquele jeito porque estava cheia de terra. Com a ajuda da pá que tinha ficado por ali, o menino conseguiu tirar a tampa, ou melhor, o “telhado” da casa de uma família de minhocas gordinhas.
Chateado, fechou a lata e já ia devolver o falso tesouro ao seu lugar de origem quando um raio de sol furou uma das muitas nuvens que encobriam o céu. Na mesma hora, o ar esquentou e alguma coisa reluziu dentro do buraco.
-- TRIX!
O gnomo estava procurando o pé direito da sua botinha e, por isso, não prestou muita atenção no menino.
-- O quê?
-- Você viu isso?
-- Vi o quê? E você, viu meu sapato? Onde será que deixei...
-- O brilho... Lá dentro... Mas, como é que pode um buraco brilhar?
-- Brilho?
-- É! Eu vi, juro que vi!
-- Ah, deve ser o reflexo de alguma aguinha que brotou lá no fundo.
-- Mas, Trix...
-- Ahá! Finalmente! Aqui está!
Enquanto calçava o pé perdido, o gnomo emendou:
-- Vou retomar as investigações lá na pracinha. Você vem comigo?
Dessa vez foi o menino que não respondeu -- continuava atônito com o que acabara de ver. O gnomo, por sua vez, sentiu-se rejeitado, virou as costas e saiu marchando, rumo à praça.
Ainda estava segurando a lata-casa das minhocas na mão quando o sol reapareceu, iluminando o jardim. Como tudo em volta, o buraco clareou e, de repente, aconteceu de novo. O brilho! Com o olhar hipnotizado, o menino seguiu a luz e descobriu que havia, sim, alguma coisa brilhante e de verdade, saindo da terra, como se fosse um espinho de vidro!
Colocou a lata no chão e, com a ajuda da pá, cutucou em volta daquele ponto, com delicadeza. Pouco a pouco, muitas outras pontinhas de tamanhos e formas diferentes, reluzindo com mais ou menos intensidade, foram surgindo diante dos seus olhos extasiados. Ali estava, incrustado na terra, um cristal gigante e translúcido.
Fascinado, o menino ficou admirando as faces daquela pedra imensa e luminosa, esculpida pela natureza com a perfeição de uma joia rara, e teve uma certeza: era o tesouro dos tesouros. Podia até ser uma pedra mágica!
Não via a hora de mostrar ao Trix.
A frase que abre essa história é de Arnaud Desjardins. Conto publicado no livro "Era Uma Vez Para Sempre"
...
-- Hoje a fila das formigas ficou enorme! Você tinha que ver! Começava perto da jabuticabeira e terminava lááááááá no pé de limão. Acho que tinha uns três quilômetros. Ou mais, nem sei!
A mãe explicou que essa era a distância entre a casa deles e a da avó.
-- Mas se elas cruzavam o jardim de um muro até o outro, então era mesmo uma fileira e tanto – disse a mãe, enquanto tentava clarear o encardido das unhas do menino. -- Você andou cavando buraco de novo? Desse jeito, nosso jardim vai virar uma piscina!
Canteiro de flor cheirosa, passarinho fazendo lanche de fruta, tatu-bola disfarçado de pedrinha, tesouros escondidos, quanta história acontecia naquele jardim. E foi por causa das escavações que a mãe quis saber:
-- E o Trix? Faz tempo que você não fala dele...
Trix, o gnomo que morava no tronco do velho chorão, a árvore mais antiga, mais alta e a mais bonita da rua.
O menino enfiou a cabeça debaixo do chuveiro, fingindo não ter escutado a pergunta, e continuou falando das formigas. A mãe não ia gostar nem um pouco se soubesse que Trix estava seguindo uma pista que levava à pracinha, do outro lado da rua. É que o gnomo tinha certeza de que, ali, eles encontrariam um tesouro.
Por isso mesmo, o menino levou um susto, no dia seguinte, quando viu o amigo pulando no topo de uma grande pedra, bem no meio do jardim. Trix fazia sinais, apontando para o chão, excitadíssimo.
-- Mas você não disse que a gente ia cavar o próximo buraco lá na pracinha?
-- Disse e agora desdigo! As formigas me trouxeram de volta pra cá. E elas pararam exatamente neste ponto! Aqui, aqui mesmo, três vezes aqui!
Foi só o gnomo indicar o lugar pra que o menino começasse o cava-e-tira-terra-e-cava-e-tira-terra de todo dia. E como cavou nesse dia! No final da tarde, cercado de montanhinhas de terra e com os braços doloridos, ele já estava parando quando sua mão esbarrou em alguma coisa dura, fria e esquisita.
-- Trix, o que será isso? Uma pedra?
Enfiou a cara no buraco, mas não conseguiu ver nada. Lá dentro, no fundo, era escuro, e fora, o sol já ia se apagando.
-- Pega uma lanterna! – disse o gnomo, mandão como sempre.
O menino se irritava com essa mania do amigo ficar dando ordens o tempo todo, mas dessa vez não reclamou porque aquela era mesmo uma ótima ideia. Correu até a cozinha: sabia que o pai havia comprado uma lanterninha para deixar ao lado da pia, na “gaveta das emergências”. Aproveitou pra pegar as pás de praia com dentes, novinhas, ainda guardadas na parte de cima do armário.
Voltou ao jardim com todo o equipamento e retomou a escavação imediatamente, nem lembrou da dor nos braços. Pra chegar na “coisa”, o menino agora teria que cavar de lado, porque, fosse lá o que fosse, aquilo estava enterrado um pouquinho mais à direita. E cava e cutuca e se entorta e quando já não tinha mais jeito de alcançar o fundo do buraco-túnel, ele teve a ideia de usar os pés para tentar enxergar lá embaixo. Enfiou uma perna dentro do buraco, bem esticadinha, e colocou a lanterna acesa encaixada entre os dedos do pé. Foi quando viu melhor a “coisa”, e achou que aquilo não parecia uma pedra.
-- Trix! Trix! Você acha... ? Será que é? ... É... Pode ser, não é? Pode mesmo ser um baú! Ou será que é uma arca?
O menino esticou bem o pé e mirou com a lanterna, mas só conseguiu ter certeza de que a "coisa" não era grande, e era amarronzada, de um tom que se confundia demais com a cor da própria terra. Mas aquela caixa bem que poderia ter sido dourada um dia!
Foi então que Trix mergulhou no buraco, escorregando pela perna do menino até chegar ao baú. De lá, mãos em concha em volta da boca, anunciou:
-- Acho que finalmente encontramos! Sim, sim, sim! Três vezes sim!
Com o pulo de alegria que deu, o menino desmanchou dois dos montinhos de terra que tinha erguido ao lado do buraco. Nem ligou pra a bronca que a mãe daria por causa da bagunça. Agora, só pensava num jeito de trazer o bauzinho para cima: claro que as formigas não conseguiriam puxar aquilo e, a essa hora, todos os gnomos das redondezas já tinham se recolhido pra dentro de suas árvores. De novo, o menino tentou puxar o objeto com os pés, sem sucesso -- o bauzinho nem se mexia, era como se estivesse plantado na terra. Lá de dentro, Trix gritou outra vez:
-- Acho que encontrei uma fechadura. Tento entrar pela fresta e saio logo pra contar tudo!
Entrou, mas não saiu. E não saiu e não saiu e na hora em que a mãe ameaçou um castigo, o menino teve que voltar pra casa. Estava anoitecendo, não adiantou protestar nem dizer que estava muito preocupado com o amigo.
-- Mas, mãe... E se ele ficou preso? E se tinha algum bicho horrível lá dentro?
-- Tenho certeza de que está tudo bem. O Trix sabe se virar. Você vai ver como, amanhã, ele aparece com um monte de novidades...
Exausto, o menino adormeceu preocupado, pensando nos perigos que o amigo podia estar correndo. Mesmo assim, teve um sonho lindo. Nele, o Trix estava feliz da vida, pulando entre montanhas de moedas e pedras preciosas, escorregando por colares de pérolas, dando cambalhota no meio de enormes anéis de ouro. Pena que a sensação de pesadelo do dia anterior voltou assim que ele abriu os olhos, logo cedo.
A primeira coisa que pensou: o Trix pode ter ficado enroscado nas correntes de ouro ou, pior, foi soterrado por uma esmeralda gigante!
Com o peito apertado de tanta aflição, saltou da cama e correu para o jardim, ainda de pijama. Olhou na direção da pedra e teve que esfregar os olhos pra ter certeza do que estava vendo: ali havia uma... “coisa”. Seria aquela coisa? E como o Trix tinha conseguido desenterrar o tesouro?
-- Trix! Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiquis! TRIX!
Não demorou nem um minuto pra que o gnomo aparecesse num dos galhos do chorão, espreguiçando.
-- Bom dia!
-- Trix! Você está bem?
-- Desculpe, desculpe, desculpe! Três vezes desculpe! Você ficou preocupado, eu sei. Mas já era noite alta quando saí do buraco, o que foi uma sorte. Encontrei uma turma de corujas que só aparece por aqui nesse horário. Foram elas que me ajudaram a puxar o... hã, hã... o... baú.
Só então o menino lembrou.
-- E cadê o tesouro?
De braços cruzados, Trix encolheu os ombros e torceu a boquinha, apontando com o queixo na direção da pedra. O menino então correu para lá. Com as palmas das mãos, começou a esfregar energicamente a superfície impregnada de terra. E esfregou com tanta força que não demorou nada pra que o sonho do tesouro se desmanchasse diante de seus olhos: o baú não passava de uma velha lata de biscoitos, parecida com umas que ele já tinha visto na casa da avó. A “fresta da fechadura” nada mais era do que um buraquinho aberto pela ferrugem, e a lata pesava daquele jeito porque estava cheia de terra. Com a ajuda da pá que tinha ficado por ali, o menino conseguiu tirar a tampa, ou melhor, o “telhado” da casa de uma família de minhocas gordinhas.
Chateado, fechou a lata e já ia devolver o falso tesouro ao seu lugar de origem quando um raio de sol furou uma das muitas nuvens que encobriam o céu. Na mesma hora, o ar esquentou e alguma coisa reluziu dentro do buraco.
-- TRIX!
O gnomo estava procurando o pé direito da sua botinha e, por isso, não prestou muita atenção no menino.
-- O quê?
-- Você viu isso?
-- Vi o quê? E você, viu meu sapato? Onde será que deixei...
-- O brilho... Lá dentro... Mas, como é que pode um buraco brilhar?
-- Brilho?
-- É! Eu vi, juro que vi!
-- Ah, deve ser o reflexo de alguma aguinha que brotou lá no fundo.
-- Mas, Trix...
-- Ahá! Finalmente! Aqui está!
Enquanto calçava o pé perdido, o gnomo emendou:
-- Vou retomar as investigações lá na pracinha. Você vem comigo?
Dessa vez foi o menino que não respondeu -- continuava atônito com o que acabara de ver. O gnomo, por sua vez, sentiu-se rejeitado, virou as costas e saiu marchando, rumo à praça.
Ainda estava segurando a lata-casa das minhocas na mão quando o sol reapareceu, iluminando o jardim. Como tudo em volta, o buraco clareou e, de repente, aconteceu de novo. O brilho! Com o olhar hipnotizado, o menino seguiu a luz e descobriu que havia, sim, alguma coisa brilhante e de verdade, saindo da terra, como se fosse um espinho de vidro!
Colocou a lata no chão e, com a ajuda da pá, cutucou em volta daquele ponto, com delicadeza. Pouco a pouco, muitas outras pontinhas de tamanhos e formas diferentes, reluzindo com mais ou menos intensidade, foram surgindo diante dos seus olhos extasiados. Ali estava, incrustado na terra, um cristal gigante e translúcido.
Fascinado, o menino ficou admirando as faces daquela pedra imensa e luminosa, esculpida pela natureza com a perfeição de uma joia rara, e teve uma certeza: era o tesouro dos tesouros. Podia até ser uma pedra mágica!
Não via a hora de mostrar ao Trix.
A frase que abre essa história é de Arnaud Desjardins. Conto publicado no livro "Era Uma Vez Para Sempre"
1 de dez. de 2009
O grande encontro
Era uma vez um Autor com uma vaga ideia para uma nova história. E como nessa história tinha vaga de verdade para um grande Personagem, pensou em começar sua busca colocando um anúncio no jornal.
Procura-se um Personagem disposto a viver aventuras eletrizantes. Não é necessário ter experiência no tema, mas algumas características serão especialmente consideradas: um certo preparo físico, raciocínio rápido e personalidade carismática.
O primeiro candidato a se apresentar foi logo dizendo:
- Participei de passagens importantes de muitos livros famosos, imortalizados por personagens estrelados.
- Ah, parabéns! O senhor tem razão. Os grandes personagens não envelhecem. Mas, se entendi bem, o senhor nunca foi o protagonista desses enredos, certo? Enfim... É uma pena, mas um coadjuvante de idade avançada não é o que busco. Desculpe!
Dois dias e muitas páginas amassadas depois, o Autor recebe outro candidato - um tipo muito sincero, mas bastante imaturo.
- Já passei por muitas imaginações, mas...
- Mas?
- Nunca cheguei ao papel...
- Ah...
- Tenho muito potencial, mas...
- Mas?
- Preciso de alguém que acredite em mim, que me decifre e me revele com todas as letras, entende?
- Você é muito interessante. Mas...
Na semana seguinte, com a cabeça embaralhada e ainda sem um herói à vista, o Autor começa a pensar em outras possibilidades e, repentinamente, tem uma grande ideia: e se o narrador transformasse a própria aventura em Personagem? Animado, ele já ia colocar o texto em ação quando o telefone toca.
- Bom dia. Posso falar com o Autor?
- E o senhor é...?
- O Personagem.
- Ah, claro, o anúncio...
- Exato, o anúncio. Muito bem escrito, por sinal.
- ...?
- Quantos livros o senhor publicou?
- ... !?!
- Alô? Alô, o senhor está na linha?
- Sim... Claro, estou ouvindo... Continue, por favor!
- Desculpe! Espero que não me leve a mal, mas preciso saber um pouco mais sobre o seu estilo, como é o seu processo criativo, quais gêneros o senhor domina, se tem livros premiados... É que não me encaixo com naturalidade em qualquer texto. Tenho que sentir alguma consistência literária, entende?
O Autor experimentou vários estados de espírito. No início, ficou atônito. Mais que isso, catatônico! Depois, a palavra certa seria "irritado". Mas, pouco a pouco, foi se sentindo, como dizer?, impressionado! Pois, à medida em que respondia às perguntas do Personagem, foi se surpreendendo mais e mais com suas próprias palavras.
No dia seguinte, conversaram de novo. E no outro, outra vez.
Trocaram ideias durante tanto tempo que acabaram se tornando grandes amigos. Anos depois, eram tão íntimos que um logo adivinhava o que o outro tinha acabado de pensar e, juntos, inventaram histórias fabulosas.
Esse miniconto foi publicado em maio pela revista Nova Escola.
Procura-se um Personagem disposto a viver aventuras eletrizantes. Não é necessário ter experiência no tema, mas algumas características serão especialmente consideradas: um certo preparo físico, raciocínio rápido e personalidade carismática.
O primeiro candidato a se apresentar foi logo dizendo:
- Participei de passagens importantes de muitos livros famosos, imortalizados por personagens estrelados.
- Ah, parabéns! O senhor tem razão. Os grandes personagens não envelhecem. Mas, se entendi bem, o senhor nunca foi o protagonista desses enredos, certo? Enfim... É uma pena, mas um coadjuvante de idade avançada não é o que busco. Desculpe!
Dois dias e muitas páginas amassadas depois, o Autor recebe outro candidato - um tipo muito sincero, mas bastante imaturo.
- Já passei por muitas imaginações, mas...
- Mas?
- Nunca cheguei ao papel...
- Ah...
- Tenho muito potencial, mas...
- Mas?
- Preciso de alguém que acredite em mim, que me decifre e me revele com todas as letras, entende?
- Você é muito interessante. Mas...
Na semana seguinte, com a cabeça embaralhada e ainda sem um herói à vista, o Autor começa a pensar em outras possibilidades e, repentinamente, tem uma grande ideia: e se o narrador transformasse a própria aventura em Personagem? Animado, ele já ia colocar o texto em ação quando o telefone toca.
- Bom dia. Posso falar com o Autor?
- E o senhor é...?
- O Personagem.
- Ah, claro, o anúncio...
- Exato, o anúncio. Muito bem escrito, por sinal.
- ...?
- Quantos livros o senhor publicou?
- ... !?!
- Alô? Alô, o senhor está na linha?
- Sim... Claro, estou ouvindo... Continue, por favor!
- Desculpe! Espero que não me leve a mal, mas preciso saber um pouco mais sobre o seu estilo, como é o seu processo criativo, quais gêneros o senhor domina, se tem livros premiados... É que não me encaixo com naturalidade em qualquer texto. Tenho que sentir alguma consistência literária, entende?
O Autor experimentou vários estados de espírito. No início, ficou atônito. Mais que isso, catatônico! Depois, a palavra certa seria "irritado". Mas, pouco a pouco, foi se sentindo, como dizer?, impressionado! Pois, à medida em que respondia às perguntas do Personagem, foi se surpreendendo mais e mais com suas próprias palavras.
No dia seguinte, conversaram de novo. E no outro, outra vez.
Trocaram ideias durante tanto tempo que acabaram se tornando grandes amigos. Anos depois, eram tão íntimos que um logo adivinhava o que o outro tinha acabado de pensar e, juntos, inventaram histórias fabulosas.
Esse miniconto foi publicado em maio pela revista Nova Escola.
30 de nov. de 2009
Promessa
Ei, você não vem deitar? Já é tarde! Vem logo, aproveita, hoje eu tô me sentindo mais fofo ainda! Sua mãe me colocou no sol, arejei as plumas e as ideias. E com essa fronha macia fico sempre tão inspirado... Então, tá esperando o quê? Isso: deita, ajeita bem a cabeça. Agora respira fundo e fecha os olhos. Mas... Como assim? Logo hoje você inventa de dormir de barriga pra cima? Vira, por favor, é melhor! E vê se não me amassa demais. Assim, ótimo! Agora tá tudo certo. Coloca o ouvido bem pertinho de mim e escuta esse sonho lindo que eu tenho pra contar.
(ST)
(ST)
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