30 de mar. de 2014

cantiga (3)

hoje é domingo
dia de preguiça
a preguiça é delícia
bate na gente
e a gente espreguiça
bate no gato
o gato ronrona
seu pelo se eriça
batem na porta
a gente não abre
todo mundo dormindo
porque hoje é domingo

* hoje é domingo
   pede cachimbo
   o cachimbo é de barro
   bate no jarro
   o jarro é de ouro
   bate no touro
   o touro é valente
   bate na gente
   a gente é tão fraco
   e cai no buraco
   o buraco é tão fundo
   acabou-se o mundo

27 de mar. de 2014

cantiga (2)

se essa rima
se essa rima fosse rica
eu cuidava
eu cuidava de guardar
num cofrinho
num cofrinho bem secreto
só pra ler
só para o meu bem-querer

23 de mar. de 2014

22 de mar. de 2014

20 de mar. de 2014

bom dia, outono!

hoje cedo o vento espalhou a notícia pelas árvores, provocando agitação entre as folhas: da janela, vi as primeiras a mudar de roupa, vestindo amarelo pra saudar a nova estação.

17 de mar. de 2014

silêncio: meninas trabalhando!

De Agatha Cristina, 10 anos, durante a "Roda de Rima", lá na Biblioteca São Paulo:

E agora, Aurora, cadê você?
Queria te ver agora
Mas você foi embora
Agora é você que chora!


11 de mar. de 2014

Convite

o arroz é branquinho quando está sozinho
mas sua cor e sabor mudam com um bom caldinho

a palavra é como o arroz: quando está só, diz uma coisa
mas pode dizer muito mais, depende do que vem depois

com uma porção de imagens e uma pitada de magia
a palavra também muda e fica com gosto de poesia
...
Sexta-feira, dia 14, a partir das 10h, tem "Roda de Rima" na Biblioteca São Paulo. Vem!

26 de fev. de 2014

folia

A gente se reunia no pátio do prédio e combinava tudo, tipo um ensaio geral. Depois, todo mundo de mãos dadas, formávamos um cordão de foliões pra atravessar a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse -- e quem não entrava no espírito da festa, levava muita vaia e marteladas. Lá pelas tantas, mães e pais apareciam chamando pra jantar, dando início ao bloco dos só-mais-um-pouquinho, o samba-enredo que cantávamos juntos até cansar. Sob protestos, a turma dispersava já marcando um encontro logo cedo, na praia. Não sei dos outros, mas eu me recusava a ir pra cama e adormecia no sofá da sala, exausta, ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.
...
Pra animar o blog, um texto parecido com os de outros carnavais, já que continuo na folia da arrumação pós-reforma...

18 de fev. de 2014

quase lá


A reforma finalmente terminou. Até o final do mês -- espero! -- volto pra casa e para o meu velho-novo escritório, com tudo em ordem: livros na estante, passarinhos na janela, ideias na cabeça e tempo de sobra pra passear de bicicleta.

A ilustração veio daqui.

29 de jan. de 2014

O baile das formigas (*)

Chateada com o trágico final da história da sua irmã, a jovem cigarra resolveu imitar a formiga. Neste verão, nada de farra! Trabalharia incansavelmente. Bom, talvez nem tanto assim... Mas estava decidida a não aceitar os convites da turma para as cantorias de sempre. Quem disse que não dá pra trabalhar cantando?

E foi assim que a jovem cigarra encarou o batente, cigarreando com energia e vibração do raiar do dia ao pôr do sol. Lá pelas tantas, exausta e sem o menor pique para emitir seus famosos agudos -- mas com o freezer bem abastecido para enfrentar o inverno! --, resolveu se dar uma noite de folga. Só então percebeu que ainda não tinha cruzado com a formiga.

Que estranho, será que aconteceu um imprevisto? Duvido! Ela e aquela turma de operárias são tão prevenidas! Ou… Será que estou perdendo alguma coisa?

Estava.

Descobriu tudo assim que saiu perguntando pela floresta.
 -- A formiga agora passa a noite na balada! -- contou o grilo, louco para cutucar a cigarra.
-- Como assim?!? Aquela… aquela…certinha? Na balada?
-- Acontece que ela inventou a coreografia do passa-passa-folhinha!
-- Passa o quê?
-- Fo-lhi-nha! Todo mundo leva um estoque e se diverte dançando no ritmo das formigas. Elas montaram uma banda e ficam só na supervisão, estocando as folhas. Parece que todos os formigueiros da região já estão abarrotados!

A cigarra ouviu tudo aquilo mudinha. Na verdade, tinha ficado atônita, sem conseguir soltar nem um zzzzzzi desafinado. Mesmo assim, voltou para casa tentando se consolar: afinal, não morreria de fome no inverno, como a sua pobre irmã.
Pois é, tinha muita comida, só não tinha mais vontade de cantar.

Moral da história: mesmo quando a cigarra canta, a formiga dá baile!

* Esse reconto da fábula da mesma formiga com outra cigarra está publicado na revista Crescer de janeiro.

17 de jan. de 2014

Tempo


Às vezes, acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse sentada na cabine de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, fico alisando seus cabelos longos e, juntas, adormecemos, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

10 de jan. de 2014

Mudança

Voltar para casa depois de uma grande reforma é como regressar de uma longa viagem. As coisas, o lugar e a gente: tudo é igual, mas está diferente. Entre as paredes recém-pintadas da sala, que é a mesma e também é outra, experimento o frescor de olhar pra tudo que é tão familiar como se fosse a primeira vez.

5 de jan. de 2014

2014

gira
 o sol
 o mundo
 e o tempo

gira
 o pedal
 a roda
 e o pensamento
 e seguimos pedalando!



21 de dez. de 2013

Quase

Olho pela janela e o sábado me dá bom dia em tom de domingo, quase num sussurro, como se não quisesse atrapalhar o silêncio das coisas: a escola fechada, a praça vazia, ninguém à espera do ônibus no ponto -- pelas ruas quietas do bairro, 2013 aproveita pra sossegar, saboreando o torpor de uma espécie de estado de vigília. Sabe que ainda acordará algumas vezes, sobresssaltado, nos congestionamentos dos shoppings, nas filas dos supermercados e nas avenidas barulhentas com suas árvores festeiras que teimam em passar a noite em claro.
Mas, aqui e ali, o ano já cochila, prestes a cair num sono profundo.

Até já!