21 de abr. de 2015
14 de abr. de 2015
saudade
Hoje ela apareceu logo cedo, entrou na cozinha e me surpreendeu ainda de pijama: um susto, eu e o pão pulando da torradeira, e de repente o gosto do lanche que você levava pra escola. A saudade me dá bom dia e diz: tudo parece ontem, mas ontem é outro tempo. Novo susto e agora choro do lado do fogão, enquanto a saudade vai se espalhando pela casa, misturada com o cheiro do café fresquinho.
7 de abr. de 2015
tímida
A menina: palavras contidas entre parênteses, sorriso apertado entre aspas, e os olhos, quase sempre baixos, pra não se relevar nas entrelinhas.
1 de abr. de 2015
mentiras sinceras
"Bem sei que é nas memórias que os homens mentem mais (...) Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura."
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)
("Memórias da Emília", de Monteiro Lobato)
28 de mar. de 2015
23 de mar. de 2015
quer saber um segredo?
o segredo da menina é precioso como uma pérola
e vive escondido dentro de uma concha que é só dela
o segredo do menino é valioso como ouro
e fica trancado num baú como se fosse um tesouro
mas, às vezes, o assunto é complicado
e já não consegue continuar trancafiado
daí começa a aparecer feito assombração
e faz de tudo para tentar sair da sua prisão
de repente, tenta escapar, mas fica sem voz
e para na garganta, engasgado num monte de nós
a menina morde os lábios e o menino se cala
mas não adianta: de outros jeitos, o segredo fala
feito vento invisível que movimenta tudo
o silêncio diz muito, mesmo se fingindo de mudo
e a lágrima vira palavra de letra transparente
que os olhos escrevem de um jeito urgente
quando um segredo teima em se contar
é melhor ter alguém com quem conversar
não se engane: ele vai continuar mandando recado
como um velho ranzinza e bem magoado
a concha abre devagarzinho: o menino presta atenção
a ponta do baú aparece: a menina tropeça na emoção
e então eles descobrem outro tesouro
mais precioso do que mil pérolas e todo o ouro
um lugar seguro, onde todos os segredos cabem
como um grande cofre que não precisa de chave
por lá, os segredos circulam à vontade
protegidos por um laço chamado amizade
17 de mar. de 2015
uma noite, um gato

Lá fora tem um mundo tão grande!
Quantas coisas pra descobrir...
Ao mesmo tempo, é bom estar aqui
No meu mundo de silêncio e contemplação
Lá fora tem o escuro da noite, as ruas desconhecidas
Mas... Quantas aventuras podem acontecer?
Será tão bom quanto me espreguiçar à vontade
E dormir profundamente num lugar quentinho?
Quando adormeço, visito outros mundos
Às vezes, sou outro gato em outra vida
Passeio lá fora aqui dentro
Pela janela vejo a vida em movimento
E ronrono: lá fora, aqui dentro
Tudo é sonho
15 de mar. de 2015
9 de mar. de 2015
trecho
(...) Eu tinha 12 anos quando minha avó morreu. Três dias antes, ela estava lá, na cozinha que eu conhecia desde sempre, eu e ela em frente ao fogão, duas colheres de pau misturando a massa do brigadeiro na panela de ferro, e eu ria cada vez que mergulhava a ponta do dedo no chocolate quente, Nina, desse jeito você acaba com o recheio do bolo! Ela estava lá, fazendo as coisas de sempre, perguntando da escola, se eu tinha ido ao dentista, querendo saber das novidades e me pedindo pra ligar o forno enquanto untava a forma com uma nuvem fininha de manteiga. Ela ainda estava lá, de pé, ao lado do portão, quando saí carregando o embrulho de papel alumínio com todo o cuidado, minha mãe com o carro ligado, reclamando do trânsito, prometendo voltar no sábado, e o cheiro quente do bolo dentro do carro, virando a esquina enquanto ela acenava pra nós. Ela ainda estava lá.
6 de mar. de 2015
28 de fev. de 2015
as horas
estica
o tempo
altera
a lógica
do relógio
suspende
o agora
e brinca:
tic
enquanto
tac
ainda
20 de fev. de 2015
livro novo, oba!
vai e vem, levando folha, papel e pensamento
vem e vai, imprevisível a cada momento
faz a gente ficar arrepiada, alegre e também triste
faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem
17 de fev. de 2015
carnaval
O enredo era simples: a turma se reunia no pátio do prédio pro ensaio geral, formava duplas ou trios e depois, todos juntos, atravessávamos a avenida da praia de José Menino, em Santos, devidamente equipados com bisnagas coloridas, sacos de confete, muitos rolos de serpentina e um bom estoque de martelinhos de plástico. Organizados em alas, os grupos se posicionavam em pontos estratégicos ao longo da calçada, a postos pra dar banho de água e alegria em quem passasse. Os que não entravam no espírito da folia, levavam martelada e tinham que sair correndo debaixo de vaia. A certa altura, mães e pais começavam a aparecer, chamando pra jantar e, mais ou menos contrariados, íamos todos pra casa, com a promessa de um novo encontro logo cedo, na praia. Lembro de adormecer ouvindo os ruídos que seguiam chacoalhando a cidade noite adentro, com o carnaval grudado no meu corpo em forma de confete.
11 de fev. de 2015
o mistério da gaveta
(...) então os olhos da vó Delma resolveram olhar pra dentro, quem sabe o que poderiam encontrar lá na cabeça? No início, arregalaram, cheios de expectativa, esperando tropeçar numa grande surpresa a qualquer momento. Mas depois de explorar todos os cantos daquele espaço oco e redondo sem que nada acontecesse, foram perdendo o brilho. Durante algum tempo continuaram por ali, murchinhos, perambulando sem foco, esquecidos do que tinham ido procurar lá dentro (...)
Dez anos e muitas reimpressões depois, volto ao meu primeiro livro, que será reeditado no segundo semestre com tintas fresquinhas no texto e nas ilustrações.
Dez anos e muitas reimpressões depois, volto ao meu primeiro livro, que será reeditado no segundo semestre com tintas fresquinhas no texto e nas ilustrações.
9 de fev. de 2015
29 de jan. de 2015
27 de jan. de 2015
21 de jan. de 2015
escrever
"quando você está escrevendo bem, é como se alguém estivesse ditando".
(do escritor português Antonio Lobo Antunes, na Flip, em 2009)
(do escritor português Antonio Lobo Antunes, na Flip, em 2009)
15 de jan. de 2015
chegou!
Feliz por fazer parte desta coletânea organizada pelo Nelson de Oliveira, ao lado de uma turma estreladíssima de escritores: Adriano Messias, Carla Caruso, Claudio Fragata, Cristina Porto, Flávia Côrtes, João Anzanello Carrascoza, Leo Cunha, Luís Dill, Luiz Bras, Maria José Silveira, Marília Pirillo, Sônia Barros, Tânia Martinelli e Tino Freitas. Com um projeto gráfico caprichado de Raquel Matsushita, que também assina as ilustras, o livro ficou... Como dizer? Supimpa!E aqui, um trechinho do meu conto, "Dani vai dançar".
13 de jan. de 2015
mar
no sonho líquido
mergulho nas ondas
desmancho na espuma
sal bolhas bruma
boca e olhos de areia
sons de sereias
desmancho na espuma
sal bolhas bruma
boca e olhos de areia
sons de sereias
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