22 de fev. de 2012

Tesouros

Aproveitei o feriadão para enfrentar uma tarefa que venho adiando há muito tempo: abrir uma pilha de pastas cheias de papéis que, um dia, foram importantes. Passei horas rasgando exames médicos, notas fiscais e garantias de coisas que já nem existem, e um monte de isso e aquilos que foram direto para o lixo com suas respectivas pastas. A única que voltou para o armário foi a pasta com os textos que escrevi dos 18 aos 20 anos -- contos que releio e agradeço aos deuses por não ter conseguido publicar nada naquela época. Só que, no meio dessa papelada, encontrei dois escritos muito especiais: num deles, a letra da escritora Lygia Fagundes Telles entre as linhas da minha Olivetti, com anotações e sugestões sobre um conto que havia sido premiado num concurso e que, durante uma entrevista, tive a coragem de pedir que ela lesse. No outro, a letra do poeta Carlos Drummond de Andrade, tão generoso quanto Lygia, respondendo à carta que eu enviara junto com um original que pretendia publicar, contendo um texto dele. Mais do que permitir a reprodução do poema, ele aconselhou: "...Apenas lhe pondero que se trata de um texto bastante longo. Não acha que seria mais próprio transcrever um trecho -- digamos, os 15 últimos dísticos (estrofes de dois versos) para tornar mais leve a citação?"
Não tive chance de citar o poema de Drummond porque o tal "romance" nunca saiu da gaveta. E o primeiro livro que publiquei, 24 anos depois, já não tinha nada a ver com aqueles textos. Ainda assim, não tenho coragem de me desfazer desses papéis: como a carta do poeta e o conto revisado por Lygia, esses primeiros escritos me contam uma outra história: a de um sonho -- o de ser escritora -- que ficou adormecido durante tantos anos dentro de uma pasta.

17 de fev. de 2012

Carnaval

Fantasia colorida
Pingos de confete
Chovem na avenida

...
A tela é do pintor Carybé.
Até quarta!

16 de fev. de 2012

Igual e diferente

E "O Mistério do Tempo" ficou assim:

Fui juntando lé com cré
até finalmente entender:
é só por causa do que a gente sente
que o tempo parece diferente

...
Gostei muito deste trecho:

No sé si el tiempo que pasó
va más lento que el de adelante.
Siento que el reloj del corazón
tiene otro ritmo: más emocionante.






Tomara que os pequenos argentinos também gostem da tradução de Maria Nazareth Ferreira Alves.

14 de fev. de 2012

Bichos

A pressa é um pernilongo agitado. Fica rodeando com aquele zum-zum-zum irritante, não disfarça a presença nem a intenção: só quer mesmo é sugar uns goles do nosso tempo-sangue de canudinho. A preocupação tem mais a ver com um mosquito chato. O danado não pica, mas fica lá, incômodo e feio, esperando um terromoto de braço ou uma ventania de mão pra sair de perto. Quando a preocupação cheira a desconfiança, a gente não vê, mas tem certeza de que tem pulga atrás da orelha. E quando ela salta, a coceira se espalha por toda parte. É diferente da dor forte de uma ferroada de abelha -- essa vai fundo e direto ao ponto. Machuca, arde e não para de latejar enquanto o ferrão não sai. Já a tristeza é uma aranha silenciosa, dessas que chegam de mansinho e vão tecendo uma teia invisível, com um emaranhado de nós que prendem na garganta e apertam o peito da gente.

10 de fev. de 2012

Escrever

Faz calor. Todas as janelas estão abertas e o ar da manhã entra devagar, tímido. Quase não se move: passa pelas portas sem fazer ruído, preenche os quartos sem frescor de novidade. Então olho pra fora, à procura de histórias no céu e na calçada, e mais uma vez escuto as palavras me chamando pra dentro, num sussurro que ecoa pelos cantos da casa.

8 de fev. de 2012

Lavanda

Embutido em uma das paredes do meu quarto, dorme um cofre. A peça já estava lá quando vim para esta casa e, mais por preguiça de encarar uma obra do que por desejo ou necessidade de ter um cofre, ele continuou ali, escondido, como sempre esteve, atrás de um quadro. Imagino que, no passado, o cofre guardou objetos de valor, papéis importantes, quem sabe quantos segredos de família permaneceram anos e anos calados lá dentro? Ontem, lendo "A Poética do Espaço" me lembrei dessa pequena caverna de aço encravada na minha parede e resolvi dar uma olhada -- atrás da porta apenas encostada, dei de cara com um passado que não me pertence, enclausurado num espaço vazio e escuro, cheirando a abandono. Pior: imaginei a reação de um eventual ladrão ao encontrar um cofre aberto e sem nada dentro, virando a casa pelo avesso pra tentar achar "riquezas" em outro esconderijo!
Decidi que a peça vai sair dali na próxima reforma. Até lá, o cofre segue disfarçado atrás do quadro, só que, agora, guarda ao menos o perfume de um sachê de lavanda.

5 de fev. de 2012

Sol

Quieto e quente o vento
Também quer descansar
Flutuando no azul de domingo
Com preguiça de ventar

A ilustração é da Maria Eugenia

3 de fev. de 2012

Tempo

Enquanto espero a divulgação da lista de aprovados no vestibular da Fuvest, passeio pelo blog e encontro neste post, de 2008, a mesma sensação: também hoje, aguardo o futuro já sentindo saudade do presente.
...
Último dia de aula. Meninas e meninos vão saindo dos carros enfileirados na porta da escola. Presa no congestionamento, vejo meu filho ajeitando a mochila nas costas, pronto pra atravessar a rua assim que o guarda der o sinal. Olho com carinho para essa cena que tenho visto tantas vezes nos últimos anos e, mais uma vez, tento reter cada detalhe na memória.
Quando ele finalmente cruza o portão e segue, confiante, sobre suas longas pernas finas de adolescente, tenho subitamente duas certezas: a de está tudo certo, e de que o tempo é uma ilusão.
Antes de virar à esquerda ainda arrisco olhar pelo espelho retrovisor uma última vez, mas ele não está mais lá. Retomo meu caminho levando junto a saudade que já sinto do presente.

1 de fev. de 2012

Falta

No meio da tarde, a saudade vem me visitar. Senta no sofá, aceita o cafezinho e vai ficando, indiferente às horas que passam. Não adianta olhar no meu relógio: é o dela que faz tic-tac no silêncio da casa, preenchendo o tempo com a falta que você faz.

29 de jan. de 2012

Foi assim: em agosto do ano passado, conheci o ilustrador e designer Daniel Kondo, meu parceiro nos eventos da Jornada Literária de Passo Fundo. A dobradinha deu certo: quando um engasgava, o outro falava, e assim dois tímidos conseguiram não fazer feio durante as apresentações. Acabamos virando "amigos de infância" e, na volta, partilhando outro medo, o do avião, ele propôs fazermos um livro juntos. Eu não tinha nada inédito na gaveta, mas andava com uma certa ideia na cabeça. Como ele se animou com o tema, resolvi escrever logo que cheguei e mandei o texto, imaginando que ele levaria algum tempo pensando em como ilustrar aquela história. Pra minha surpresa, dois dias depois, o texto já estava numa dupla, me mostrando um novo caminho: aquele era o projeto perfeito para um diálogo e não um monólogo, como o da minha ideia original. Reescrevi o texto e, a partir daí, fomos trabalhando juntos -- as palavras mudando a partir das ilustrações e vice-versa. Foi uma experiência deliciosa e, em menos de um mês, tínhamos um livro pronto. Por uma dessas coincidências que parecem mágica, acabava de ser anunciado o Concurso de Literatura João de Barro que, diferente das edições anteriores, iria premiar textos infantis não apenas inéditos, mas já ilustrados e devidamente editados num projeto gráfico. Graças à minha comadre, a escritora May Shuravel, ficamos sabendo do concurso e resolvemos tentar. Tudo pronto, faltava apenas escolher os nossos pseudônimos: tinha que ser uma dupla especial, como tudo nessa história. Na sexta-feira, quando recebi a notícia do prêmio, tive certeza de que Julia K, filha de Daniel, e Caio T., meu filho, deram a maior sorte para o nosso "Pssssssiu".

24 de jan. de 2012

Intervalo

Quando eu era pequena, as férias na praia duravam quase três meses e os dias de chuva não atrapalhavam. Era até gostoso ter motivo pra ficar em casa, inventando brincadeiras sem areia. Hoje o tempo encolheu, e as férias também: por isso, estou torcendo para que a chuva dê uma trégua e nos próximos dias eu consiga ouvir só o barulho do mar.

A ilustração é da Maria Eugenia.
Até segunda!

18 de jan. de 2012

Magas

Elas já apareceram aqui, há dois anos, no dia em que ganhei esse presente de uma amiga querida. Vieram dentro de uma caixinha, enroladas num manual de instruções que ensina a brincar com as bonecas de acordo com uma antiga tradição do Vietnã. Acontece que a brincadeira é séria: a ideia é conversar com uma das três sempre que a gente estiver precisando resolver um problema, e eles recomendam que essa conversa aconteça de noite, um pouco antes da hora de dormir. Daí a confidente sai da caixinha, escuta tudo com atenção e, durante a noite, enquanto a gente descansa, ela vai tentar resolver a questão. As regras são rígidas: como são só três bonecas, é permitido ter no máximo três problemas por dia.
Desde que chegaram, elas dormem na gaveta do meu criado-mudo. Muitas vezes abri a caixinha só pra dar um olá, e por longos períodos esqueci que as três estavam ali, prontas pra ouvir e ajudar. Mas, ontem, bati um longo papo com as três -- como a história é um pouco complicada, achei melhor abrir uma exceção e convocar uma junta. Enquanto elas continuam buscando uma solução, eu arranjei um tempo pra pensar em outras coisas, inclusive no blog, que ficou meio abandonado nos últimos dias. Escreve isso e mais aquilo, aos poucos tudo vai entrando num certo eixo, e o que, ontem, parecia tão difícil, hoje já não assusta tanto. Sabidas essas bonecas, não?

15 de jan. de 2012

Leila

-- Você quer ajuda pra tentar fazer o seu poema?
-- Quero!
-- Como é a frase que você sorteou?
-- "Amizade é um assunto sério"...
-- E o que você quer escrever?
-- Que a Julia é minha melhor amiga!
-- Então vamos lá: que palavra combina com "sério"?
-- Hmm... Cemitério?
-- É. Combinar, combina. Será que não tem outra?
-- ... Mistério?
-- Boa!
...
Ontem, na oficina da Biblioteca São Paulo, a Leila escreveu:
Amizade é um assunto sério
Julia, você é a minha melhor amiga
E isso não é nenhum mistério!


Em tempo: a foto é do Genésio Manoel e Silva, da equipe da Biblioteca.

13 de jan. de 2012

Convite

O ventilador acorda o vento
O relógio inventa o tempo
A palavra veste o pensamento

O invisível faz poesia
A todo momento
...
E amanhã tem oficina de poesia para crianças na Biblioteca São Paulo, a partir das 15h. Apareçam!

11 de jan. de 2012

Concha

Olho pela lente de um daqueles antigos monóculos e me vejo num dia de sol, num verão de outro tempo, em uma das únicas fotos coloridas da minha infância: estou dentro de um grande buraco, com uma pá em cada mão, cavocando o lago inventado entre dois grandes castelos decorados com palitos de picolé. Lembro da época em que as férias e as histórias de areia pareciam não ter fim e, por um instante, quase escuto o barulho do mar ecoando dessa pequena concha de plástico.

9 de jan. de 2012

Verão

O sol não vai embora
E a noite perde a hora

Quase esquece de escurecer
E o dia custa a adormecer

5 de jan. de 2012

Caminhos

A frase começa animada e dispara em linha reta com um fôlego que promete sustentar a tensão e o ritmo por muitos quilômetros. Mas logo esbarra em uma vírgula, fica confusa, decide pensar duas vezes antes de escolher a direção: então dobra a esquina errada e acaba num beco de onde não consegue sair, cercada de pontos de interrogação.

3 de jan. de 2012

Lagartixa

Ela entra pela janela e vai deslizando, desnorteada (curiosa?), pela superfície branca e lisa. Contorna os quadros até encontrar caminho livre rumo ao ponto mais alto da parede. Experimenta o teto, desce de novo e finalmente se fixa lá em cima, descansando por um momento da sua vida nômade de lagartixa. Antes que ela vá embora, atraída por um mosquito qualquer, lembro de outra sala, há muito tempo, e quase escuto a voz da minha mãe falando de uma lagartixa que nos traria tanta sorte. Nem percebo quando estou sorrindo para a parede, grata pela visita inesperada dessa outra lagartixa, que trouxe um flash do passado como um bom presságio do futuro.