Um tempo atrás pensei em escrever uma história de amor entre duas ostras. Fiquei com esse tema na cabeça, imaginando como o casal poderia se cruzar, o quanto iam se achar feios -- com razão, diga-se de passagem --, e como seria difícil o romance engrenar já que, como ostras, os dois eram muito, muito tímidos. O drama teria que evoluir até que a ostra-moça, no auge da paixão, geraria uma pérola. Mas descobri que as coisas não acontecem bem assim: uma pérola se forma quando alguma substância estranha desliza pra dentro da ostra e a irrita. Daí ela se fecha e reage, tentando se defender com um reforço de madrepérola -- o mesmo material que forma a concha. Pelo que entendi, a joia nasce só nesses casos e, mesmo assim, só de vez em quando. Acho que é mais ou menos como um cisco que entra no olho, irrita e faz a gente lacrimejar, sem a parte da pérola. Conclusão: eu precisaria inventar uma situação pra incomodar a ostra. Coloquei o problema na gaveta até outro dia, quando resolvi voltar ao assunto. Na pesquisa, acabei encontrando uma verdadeira pérola, o "Consider the Oyster", escrito em 1941 pela americana M.F.K. Fisher.
...
"As ostras levam uma vida terrível, mas fascinante. De fato, suas chances de sobrevivência são minúsculas, se há alguma. Se conseguem atravessar as duas perigosas semanas da adolescência, podem encontrar um lugar limpo e tranquilo para se fixar. Então começam os anos de paixões, aventuras e ameaças. Nem ela mesma - mas porque chamá-la de ela, exceto por comodismo?-- sabe ainda se é uma ela ou um ele. Uma ostra normal nunca descobre, entra ano, sai ano, a que gênero pertence. Se a temperatura da água for adequada, ele pode se tornar uma ostra e botar milhões de ovos... Se a vida é dura, a de uma ostra é pior. Vive imóvel, silenciosa. Se escapar de todas as ameaças, será apenas para ser comida pelo homem. O corpinho frio escorrega para uma panela, ou um forno, ou ainda vivo, goela abaixo. E acabou-se".
O texto é delicioso. Não abriu meu apetite por ostras, mas sim por outros livros de M.F.K. Fisher. Quanto à história de amor, desisti: o fato "do" ostra em algum momento poder se transformar "na" ostra complicou demais o enredo.
3 de dez. de 2011
1 de dez. de 2011
29 de nov. de 2011
3 formas diferentes de classificar as nuvens
Como:
1. Um bom motivo pra olhar mais vezes para o céu
2. Um ótimo lugar pra se colocar a cabeça
3. O melhor jeito de lembrar que todas as tempestades desmancham
1. Um bom motivo pra olhar mais vezes para o céu
2. Um ótimo lugar pra se colocar a cabeça
3. O melhor jeito de lembrar que todas as tempestades desmancham
28 de nov. de 2011
5 motivos pra gostar de vento
1. Varre o chão sem vassoura
2. Funciona como uma espécie de ar condicionado pras árvores
3. Leva e traz cheiro de chuva, de bolo e de flor
4. Muda o desenho das nuvens
5. Faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem
2. Funciona como uma espécie de ar condicionado pras árvores
3. Leva e traz cheiro de chuva, de bolo e de flor
4. Muda o desenho das nuvens
5. Faz a gente lembrar que as coisas invisíveis existem
27 de nov. de 2011
Domingo
As palavras espreguiçam sem pressa de se dizer. De pijama, andam pela casa silenciosa, ainda sonolentas e embaralhadas. Depois flutuam no gosto do café e olham o céu através da janela, acordando devagarinho como os ruídos do domingo.
24 de nov. de 2011
Bicicleta a bordo
Raramente clico naquele globinho que fica girando lá no final da página, mas, ontem, a presença online de um visitante "indefinido" me deixou curiosa: como assim? Fui checar e descobri esse pontinho amarelo passeando na minha bicicleta perto da Costa do Marfim -- taí um internauta que leva a coisa a sério, navegando literalmente pela blogosfera.
23 de nov. de 2011
Tempo
Ela nasceu no final de novembro de 2000. Tinha três meses quando veio morar com a gente, uma gata branquinha e pequenina, dando susto sempre que desaparecia dentro de um tênis ou no fundo de uma gaveta. Meu filho, com seis anos na época, foi logo batizando a bichana de “Miúda”. Franzina ela era mesmo, mas também tão temperamental que rapidamente ganhou um sobrenome: Miúda Felina. Na prática, o que colou mesmo foi o apelido, Miú, muito mais adequado, e por dois motivos simples: com a convivência, o tal gênio amansou, dando lugar a um serzinho ronronante, macio e brincalhão; o segundo motivo é que, em poucos meses, aquela criaturinha já não tinha nada de miúda: virou uma gatona amarronzada, siamesa elegante com porte de leoa.
Neste seu 11º novembro, ela completa uma idade que equivale aos nossos 60 anos. Está mais cheinha, menos ágil, dorme por horas a fio, conversa menos. O menino que foi criança junto com a gata virou um adolescente alto, magríssimo, inquieto e falante. Está às vésperas do vestibular e do primeiro mochilão, com tudo por começar -- num único tempo, dois tempos correndo juntos em direções opostas.
Neste seu 11º novembro, ela completa uma idade que equivale aos nossos 60 anos. Está mais cheinha, menos ágil, dorme por horas a fio, conversa menos. O menino que foi criança junto com a gata virou um adolescente alto, magríssimo, inquieto e falante. Está às vésperas do vestibular e do primeiro mochilão, com tudo por começar -- num único tempo, dois tempos correndo juntos em direções opostas.
22 de nov. de 2011
Prato do dia
O arroz é branquinho
Quando está sozinho
Mas muda de gosto e de cor
Com qualquer caldinho
A palavra é como o arroz:
Quando está só, diz uma coisa
E também pode dizer outra
Depende do que vem depois
Se o tempero é diferente
O arroz e a palavra surpreendem
Cada vez é uma história
Abrindo o apetite da gente
...
Hoje o dia vai ser bem saboroso: vou conversar com os pequenos da Escola Building. O cardápio promete.
Quando está sozinho
Mas muda de gosto e de cor
Com qualquer caldinho
A palavra é como o arroz:
Quando está só, diz uma coisa
E também pode dizer outra
Depende do que vem depois
Se o tempero é diferente
O arroz e a palavra surpreendem
Cada vez é uma história
Abrindo o apetite da gente
...
Hoje o dia vai ser bem saboroso: vou conversar com os pequenos da Escola Building. O cardápio promete.
19 de nov. de 2011
Baile
O vento assobia baixinho
A árvore fica assanhada
Folhas se agitam e animam
Sombras dançando na calçada
A árvore fica assanhada
Folhas se agitam e animam
Sombras dançando na calçada
18 de nov. de 2011
Algodão doce
Certas ideias são assim: começam como aquela nuvem branca com tons de rosa surgindo feito mágica em volta de um palito. A imaginação sente o gostinho e vai tecendo uma trama que parece deliciosa. A miragem dá água na boca, mas é só isso: a ideia-algodão doce logo se desfaz no papel como uma nuvem desmanchando no ar.
16 de nov. de 2011
A casa triste
Depois de tanto banho de sol e de chuva, a placa "vende-se" amarelou. A outra, que dizia "aluga-se", sumiu no emaranhado de folhas do jardim que envelheceu rabugento e solitário, sem visita de passarinho. Lá no fundo, o tempo enferrujou no portãozinho que alguém esqueceu de fechar, deixando pra trás a casa que, um dia, foi branca. Pelo vidro das janelas, procuro mistérios e fantasmas, mas só vejo a tristeza que ficou morando lá.
14 de nov. de 2011
12 de nov. de 2011
10 de nov. de 2011
No metrô
Eles devem ter 16, 17 anos, no máximo. Ele fala o tempo todo, faz gestos largos, não para quieto no banco. Ela escuta com olhos encantados. De vez em quando, dão muita risada. Ele esfrega as mãos nas pernas de jeans, ela enrola o dedo no cabelo. Estão se apaixonando, e levantam ao mesmo tempo pra desembarcar na estação Paraíso.
9 de nov. de 2011
Receio
É um pontinho de interrogação que fica se disfarçando entre reticências porque tem medo da resposta.
7 de nov. de 2011
Palavras
Quando estou lendo, gosto de ser surpreendida por palavras que não conheço. É claro que isso não pode acontecer a cada duas linhas porque, então, o que seria prazer vira uma chatice. Mas topar aqui e ali com uma palavra nova sempre me provoca: mesmo quando não é difícil intuir seu significado dentro do contexto geral, faço uma orelhinha na página e depois vou conferir no dicionário. Dias atrás fui checar a palavra “plasta”, que aparece no juvenil “ A Mocinha do Mercado Central”, de Stella Maris Rezende. Na hora, gostei da estranheza do som, mas não cheguei nem perto do que o Houaiss me contou: plasta é qualquer coisa branda, moldável como o barro e que também nomeia a pessoa lerda, inábil. No final de semana, lendo “Infinitos”, de John Banville, me encantei com “solipsista”, e acabei descobrindo o solipsismo, doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações – por extensão de sentido, o termo é usado para definir a vida e os hábitos de um indivíduo solitário, como o protagonista do livro.
Mas não é só nos livros que esbarro com novidade: hoje ganhei uma caixinha de sabonetes linda e fiquei tentando adivinhar de que fruta era aquele perfume. Teria matado a charada na hora se soubesse que "dióspiro" é o nome do nosso caqui em Portugal.
Mas não é só nos livros que esbarro com novidade: hoje ganhei uma caixinha de sabonetes linda e fiquei tentando adivinhar de que fruta era aquele perfume. Teria matado a charada na hora se soubesse que "dióspiro" é o nome do nosso caqui em Portugal.
5 de nov. de 2011
Do vovô James Joyce
Por conta de um comentário que o blog Mercury Drops deixou hoje num post antigo, fui procurar e acabei relendo a história que James Joyce escreveu para o seu neto em 1936. O livro faz parte de uma coleção muito legal publicada pela Record -- o meu é de 2000, já na 8ª edição, com tradução de Antonio Houaiss e ilustrações de Roger Blachon. Talvez só seja possível encontrar o título em sebos, mas vale a pena. Segue o post de 2007:
Um infantil de Joyce? Pois é, "O Gato e o Diabo" é uma das histórias que J.J. contava para Stephen Joyce, provavelmente a única que ficou registrada, já que foi escrita em uma carta que o avô mandou para seu "querido Stevie" em 1936. O conto é curto e tem P.S. do autor no final: "O diabo fala de preferência uma língua dele mesmo chamada belzebulenga, que ele inventa conforme vai falando, mas, quando ele está com uma bruta raiva, pode falar um notável mau francês muito bem, embora alguns dos que o ouviram digam que com um forte sotaque de Dublin". Joyce assina a carta-livro com um carinhoso "nonno".
Um infantil de Joyce? Pois é, "O Gato e o Diabo" é uma das histórias que J.J. contava para Stephen Joyce, provavelmente a única que ficou registrada, já que foi escrita em uma carta que o avô mandou para seu "querido Stevie" em 1936. O conto é curto e tem P.S. do autor no final: "O diabo fala de preferência uma língua dele mesmo chamada belzebulenga, que ele inventa conforme vai falando, mas, quando ele está com uma bruta raiva, pode falar um notável mau francês muito bem, embora alguns dos que o ouviram digam que com um forte sotaque de Dublin". Joyce assina a carta-livro com um carinhoso "nonno".
4 de nov. de 2011
Calma
O coração escuta e logo começa a bater num compasso mais suave. Os pensamentos também param pra ouvir e aos poucos vão mudando de tom. Calma é assim: uma música que ecoa sem fazer alarde, mudando o ritmo de tudo dentro da gente.
3 de nov. de 2011
Ritual
Começo a trabalhar e a gata logo aparece no escritório. Desliza pelo tapete, silenciosa, checa os cantos de sempre, para pra investigar quando encontra alguma novidade, mas invariavelmente termina entre as minhas pernas, desenhando oitos enquanto se estica pra lá e pra cá. Depois salta pra cima da mesa, contorna as pilhas de livros e papéis sem tirar nada do lugar e segue rumo ao roteador quentinho, onde se aninha pra primeira soneca do dia. Adormece em segundos ouvindo o tec-tec-tec dos meus dedos no teclado -- uma mesma cantiga ninando a gata e acordando as palavras.
1 de nov. de 2011
Mandinga
"Quando eu era pequena e queria muito que uma coisa acontecesse – ou não acontecesse -- eu fazia umas 'promessas'. Quer dizer, era mais como uma espécie de combinado mágico. Por exemplo: às vezes eu percebia que meu pai ia ficar triste. Isso acontecia toda vez que ele começava a ouvir umas músicas que ele só ouvia quando estava daquele jeito, querendo ficar triste. Na mesma hora eu inventava um combinado. Podia ser qualquer bobagem como ficar somando os números das placas dos carros que passavam na minha rua até dar 18, dia do meu aniversário, ou ficar quieta durante 18 minutos, sem falar uma única palavra. Coisas desse tipo. Parecia mágica, sempre dava certo: assim que o 18 aparecia, o telefone tocava, meu pai atendia e começava a conversar. Acabava esquecendo da música e da tristeza".
Trecho de "As Namoradas do Meu Pai".
Trecho de "As Namoradas do Meu Pai".
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