9 de nov. de 2011
Receio
É um pontinho de interrogação que fica se disfarçando entre reticências porque tem medo da resposta.
7 de nov. de 2011
Palavras
Quando estou lendo, gosto de ser surpreendida por palavras que não conheço. É claro que isso não pode acontecer a cada duas linhas porque, então, o que seria prazer vira uma chatice. Mas topar aqui e ali com uma palavra nova sempre me provoca: mesmo quando não é difícil intuir seu significado dentro do contexto geral, faço uma orelhinha na página e depois vou conferir no dicionário. Dias atrás fui checar a palavra “plasta”, que aparece no juvenil “ A Mocinha do Mercado Central”, de Stella Maris Rezende. Na hora, gostei da estranheza do som, mas não cheguei nem perto do que o Houaiss me contou: plasta é qualquer coisa branda, moldável como o barro e que também nomeia a pessoa lerda, inábil. No final de semana, lendo “Infinitos”, de John Banville, me encantei com “solipsista”, e acabei descobrindo o solipsismo, doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações – por extensão de sentido, o termo é usado para definir a vida e os hábitos de um indivíduo solitário, como o protagonista do livro.
Mas não é só nos livros que esbarro com novidade: hoje ganhei uma caixinha de sabonetes linda e fiquei tentando adivinhar de que fruta era aquele perfume. Teria matado a charada na hora se soubesse que "dióspiro" é o nome do nosso caqui em Portugal.
Mas não é só nos livros que esbarro com novidade: hoje ganhei uma caixinha de sabonetes linda e fiquei tentando adivinhar de que fruta era aquele perfume. Teria matado a charada na hora se soubesse que "dióspiro" é o nome do nosso caqui em Portugal.
5 de nov. de 2011
Do vovô James Joyce
Por conta de um comentário que o blog Mercury Drops deixou hoje num post antigo, fui procurar e acabei relendo a história que James Joyce escreveu para o seu neto em 1936. O livro faz parte de uma coleção muito legal publicada pela Record -- o meu é de 2000, já na 8ª edição, com tradução de Antonio Houaiss e ilustrações de Roger Blachon. Talvez só seja possível encontrar o título em sebos, mas vale a pena. Segue o post de 2007:
Um infantil de Joyce? Pois é, "O Gato e o Diabo" é uma das histórias que J.J. contava para Stephen Joyce, provavelmente a única que ficou registrada, já que foi escrita em uma carta que o avô mandou para seu "querido Stevie" em 1936. O conto é curto e tem P.S. do autor no final: "O diabo fala de preferência uma língua dele mesmo chamada belzebulenga, que ele inventa conforme vai falando, mas, quando ele está com uma bruta raiva, pode falar um notável mau francês muito bem, embora alguns dos que o ouviram digam que com um forte sotaque de Dublin". Joyce assina a carta-livro com um carinhoso "nonno".
Um infantil de Joyce? Pois é, "O Gato e o Diabo" é uma das histórias que J.J. contava para Stephen Joyce, provavelmente a única que ficou registrada, já que foi escrita em uma carta que o avô mandou para seu "querido Stevie" em 1936. O conto é curto e tem P.S. do autor no final: "O diabo fala de preferência uma língua dele mesmo chamada belzebulenga, que ele inventa conforme vai falando, mas, quando ele está com uma bruta raiva, pode falar um notável mau francês muito bem, embora alguns dos que o ouviram digam que com um forte sotaque de Dublin". Joyce assina a carta-livro com um carinhoso "nonno".
4 de nov. de 2011
Calma
O coração escuta e logo começa a bater num compasso mais suave. Os pensamentos também param pra ouvir e aos poucos vão mudando de tom. Calma é assim: uma música que ecoa sem fazer alarde, mudando o ritmo de tudo dentro da gente.
3 de nov. de 2011
Ritual
Começo a trabalhar e a gata logo aparece no escritório. Desliza pelo tapete, silenciosa, checa os cantos de sempre, para pra investigar quando encontra alguma novidade, mas invariavelmente termina entre as minhas pernas, desenhando oitos enquanto se estica pra lá e pra cá. Depois salta pra cima da mesa, contorna as pilhas de livros e papéis sem tirar nada do lugar e segue rumo ao roteador quentinho, onde se aninha pra primeira soneca do dia. Adormece em segundos ouvindo o tec-tec-tec dos meus dedos no teclado -- uma mesma cantiga ninando a gata e acordando as palavras.
1 de nov. de 2011
Mandinga
"Quando eu era pequena e queria muito que uma coisa acontecesse – ou não acontecesse -- eu fazia umas 'promessas'. Quer dizer, era mais como uma espécie de combinado mágico. Por exemplo: às vezes eu percebia que meu pai ia ficar triste. Isso acontecia toda vez que ele começava a ouvir umas músicas que ele só ouvia quando estava daquele jeito, querendo ficar triste. Na mesma hora eu inventava um combinado. Podia ser qualquer bobagem como ficar somando os números das placas dos carros que passavam na minha rua até dar 18, dia do meu aniversário, ou ficar quieta durante 18 minutos, sem falar uma única palavra. Coisas desse tipo. Parecia mágica, sempre dava certo: assim que o 18 aparecia, o telefone tocava, meu pai atendia e começava a conversar. Acabava esquecendo da música e da tristeza".
Trecho de "As Namoradas do Meu Pai".
Trecho de "As Namoradas do Meu Pai".
31 de out. de 2011
Livro novo
Todas as coisas se movem
Quando o vento vem cutucar
Por fora e por dentro
Tudo pode mudar de lugar
"Reviravento" já está no forno: o livro sai pela Callis, com ilustrações da Rosinha.
Quando o vento vem cutucar
Por fora e por dentro
Tudo pode mudar de lugar
"Reviravento" já está no forno: o livro sai pela Callis, com ilustrações da Rosinha.
26 de out. de 2011
Intervalo
Nos próximos dias, vou dar um giro por lugares diferentes. Chamar de férias é um exagero, mas nada como um recreio inesperado pra descobrir novas paisagens fora e dentro de mim.
Até segunda-feira!
Até segunda-feira!
25 de out. de 2011
Feitiço
A lua enfeitiça o mar
Maré sobe, maré desce
O mar obedece
A lua enfeitiça a gente
Noite clara, noite escura
O olhar procura
Sempre a lua
Maré sobe, maré desce
O mar obedece
A lua enfeitiça a gente
Noite clara, noite escura
O olhar procura
Sempre a lua
21 de out. de 2011
Convite
Participar dos eventos da Casa de Livros é uma delícia: a livraria é linda -- uma casa de esquina, clara e espaçosa --, e ainda tem o jardim, que vira sala nos dias de bate-papo. É lá que vou me encontrar amamhã com os pequenos do Colégio Vértice. Apareçam!
20 de out. de 2011
Perseguição
Dias atrás um amigo sugeriu que eu escrevesse sobre determinado tema. Na hora, não me senti provocada pelo assunto, até porque o tema em questão é bem difícil e autores fantásticos já escreveram histórias maravilhosas tratando disso – só pra citar um livro, na minha opinião, insuperável: “O Pato, A Morte e a Tulipa”, de Wolf Erlbruch. Assim, arquivei o tema na pasta “quem sabe, um dia” e segui fazendo as minhas coisas. E aí começou a acontecer: de repente, o tema surge no meio da conversa com uma amiga, num contexto completamente diferente; abro o jornal e lá está ele, na crônica do dia; meu filho pede um livro que tem tudo a ver com o assunto; e adivinhem qual é o enredo do filme que meu marido traz pra gente ver à noite? Como se tudo isso não bastasse, topo fazer uma resenha pra revista “Brasileiros” e só depois descubro que o autor está estreando com um livro sobre... Enfim. Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, mas nem por isso deixo de me surpreender e pensar nos mistérios desse ofício -- quando uma ideia teima em aparecer o tempo todo, não tem como fugir da raia. É sentar e escrever.
18 de out. de 2011
Sorte
As pessoas contam comigo, e eu faço o que posso pra retribuir. Mas, sabe como é, meu melhor amigo é o Acaso e ele me influencia demais – às vezes planejo uma coisa e acabo fazendo outra se o Acaso vem com alguma novidade que me distrai. Vira e mexe perco a hora e deixo o pessoal na mão. Mesmo sabendo que muitos estão à minha espera, fazendo figas e torcendo pra me encontrar, eu falho. Chego atrasado ou até esqueço o endereço, mas juro que não é nada pessoal. Simplesmente acontece! A verdade é que não resisto aos convites do Acaso. A gente não faz nada de especial, só ficamos circulando pra lá e pra cá, meio a esmo, sem compromisso. Engraçado é que nesse vaivém cruzo com certas pessoas muitas vezes. Vai explicar... Não sei se isso é obra do Acaso -- de vez em quando desconfio que ele se faz de desentendido mas sabe direitinho pra onde quer me levar. Ah, e como ele sabe me atrair! De todo modo, não faz diferença pra mim porque não tem quem não me receba de braços abertos. Pudera! Às vezes, basta um empurrãozinho meu e dá tudo certo.
Quer dizer, quase tudo. É que o Acaso também apronta comigo. Quando ele me lança pelos ares, só de farra, posso acabar caindo no meio de uma situação complicada: no dia em que aterrisso perto do gato, por exemplo... Fazer o quê? Pobre do rato!
Quer dizer, quase tudo. É que o Acaso também apronta comigo. Quando ele me lança pelos ares, só de farra, posso acabar caindo no meio de uma situação complicada: no dia em que aterrisso perto do gato, por exemplo... Fazer o quê? Pobre do rato!
15 de out. de 2011
Noite
Sonhei que alguém me contava uma história, e era uma história sensacional. Eu ouvia com muita atenção, mas como sabia que estava sonhando fui ficando angustiada com a possibilidade de não lembrar de nada no dia seguinte e dizia pra mim mesma: “acorda e escreve já, amanhã as palavras não vão dar conta de trazer esse sonho de volta”.
Hoje abri os olhos e era só isso: a lembrança da minha urgência sonhando uma história que ainda não quer acordar.
Hoje abri os olhos e era só isso: a lembrança da minha urgência sonhando uma história que ainda não quer acordar.
13 de out. de 2011
Hoje
A chuva acordou o dia
Com barulho e ventania
Depois virou garoa fina
E choveu poesia
Pingos de brilho
No cabelo da menina
Com barulho e ventania
Depois virou garoa fina
E choveu poesia
Pingos de brilho
No cabelo da menina
11 de out. de 2011
Intuição
É como um flash que dispara de repente e sem explicação. Só pra deixar os outros cinco sentidos com a impressão de terem visto uma fotografia que ainda não foi revelada.
7 de out. de 2011
Amarelinha
É como no jogo da infância: a gente tem que pular as pedras sem perder o equilíbrio, e pisar firme com os dois pés no chão quando der. Sempre tem um céu no fim do caminho.
A foto é da Lili Oraggio.
A foto é da Lili Oraggio.
6 de out. de 2011
Adolescência
“Quando eu tinha uns sete ou oito anos, achava que seria adolescente no dia em que tivesse barba, como o primo do meu amigo. Ele era mais velho, mas estava sempre por perto, até jogava videogame com a gente. Era ele quem ‘cuidava’ desse meu amigo quando a mãe não estava em casa. Lembrei dele no dia em que olhei no espelho e me achei esquisito. Custei até descobrir que o problema era o queixo. De repente, parecia que só aquela parte do meu rosto tinha crescido, o resto continuava igual -- as bochechas, os olhos, tudo estava no mesmo lugar, menos o queixo, de repente pontudo e desproporcional. Eu tinha acabado de fazer 13 anos e senti medo de ficar feio daquele jeito pra sempre, mas sosseguei pensando que, um dia, eu ia virar um universitário de óculos e ia ter barba, como a do primo do meu amigo. Não dava pra ter a menor ideia de como era o queixo dele, e seria assim comigo também. A barba ia me salvar".
...
Passei a tarde selecionando trechos do livro "O Nosso Rito a Gente Inventa" para um evento que ainda nem está confirmado. De todo modo, foi gostoso reler os depoimentos e encontrar passagens como essa aí em cima. Fiquei com vontade de começar uma história a partir daí -- nada como a realidade pra inspirar a ficção.
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Passei a tarde selecionando trechos do livro "O Nosso Rito a Gente Inventa" para um evento que ainda nem está confirmado. De todo modo, foi gostoso reler os depoimentos e encontrar passagens como essa aí em cima. Fiquei com vontade de começar uma história a partir daí -- nada como a realidade pra inspirar a ficção.
4 de out. de 2011
Um monstro
Urgente é um monstro enorme. Apesar de seu tamanho descomunal, ele se move com extrema rapidez, o que sempre provoca um vento inesperado e muito forte, capaz de arrastar tudo o que encontra pelo caminho. É da mesma família do Bicho-Papão, só que prefere perseguir os adultos, pois as crianças raramente dão bola pra suas ameaças. E como vive apressado, Urgente não gosta de perder tempo: por isso só inferniza quem o teme e se desespera sempre que ele aparece, mandão, dando ordens que nunca podem esperar. Quando está faminto, o monstro perturba o sono e não dá sossego enquanto a vítima não pula da cama. Mas Urgente não é um monstro noturno: gosta mesmo é de assombrar à luz do dia, devorando as horas do relógio e a energia das pessoas -- é disso que ele se alimenta pra ficar cada vez maior, mais poderoso e assustador.
Quando ele ataca, o primeiro impulso é sair correndo. Só que é justamente assim que a gente cai na sua armadilha. Daí não jeito: o Urgente nos engole, rápido e sem dó.
Quando ele ataca, o primeiro impulso é sair correndo. Só que é justamente assim que a gente cai na sua armadilha. Daí não jeito: o Urgente nos engole, rápido e sem dó.
3 de out. de 2011
???
Comigo também era assim: sempre fui do planeta das letras.
...
E quem descobriu essa imagem-pesadelo foi a Maria Amália Camargo!
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E quem descobriu essa imagem-pesadelo foi a Maria Amália Camargo!
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