31 de out. de 2011

Livro novo

Todas as coisas se movem
Quando o vento vem cutucar
Por fora e por dentro
Tudo pode mudar de lugar


"Reviravento" já está no forno: o livro sai pela Callis, com ilustrações da Rosinha.

26 de out. de 2011

Intervalo

Nos próximos dias, vou dar um giro por lugares diferentes. Chamar de férias é um exagero, mas nada como um recreio inesperado pra descobrir novas paisagens fora e dentro de mim.
Até segunda-feira!

25 de out. de 2011

Feitiço

A lua enfeitiça o mar
Maré sobe, maré desce
O mar obedece

A lua enfeitiça a gente
Noite clara, noite escura
O olhar procura

Sempre a lua

21 de out. de 2011

Convite

Participar dos eventos da Casa de Livros é uma delícia: a livraria é linda -- uma casa de esquina, clara e espaçosa --, e ainda tem o jardim, que vira sala nos dias de bate-papo. É lá que vou me encontrar amamhã com os pequenos do Colégio Vértice. Apareçam!

20 de out. de 2011

Perseguição

Dias atrás um amigo sugeriu que eu escrevesse sobre determinado tema. Na hora, não me senti provocada pelo assunto, até porque o tema em questão é bem difícil e autores fantásticos já escreveram histórias maravilhosas tratando disso – só pra citar um livro, na minha opinião, insuperável: “O Pato, A Morte e a Tulipa”, de Wolf Erlbruch. Assim, arquivei o tema na pasta “quem sabe, um dia” e segui fazendo as minhas coisas. E aí começou a acontecer: de repente, o tema surge no meio da conversa com uma amiga, num contexto completamente diferente; abro o jornal e lá está ele, na crônica do dia; meu filho pede um livro que tem tudo a ver com o assunto; e adivinhem qual é o enredo do filme que meu marido traz pra gente ver à noite? Como se tudo isso não bastasse, topo fazer uma resenha pra revista “Brasileiros” e só depois descubro que o autor está estreando com um livro sobre... Enfim. Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, mas nem por isso deixo de me surpreender e pensar nos mistérios desse ofício -- quando uma ideia teima em aparecer o tempo todo, não tem como fugir da raia. É sentar e escrever.

18 de out. de 2011

Sorte

As pessoas contam comigo, e eu faço o que posso pra retribuir. Mas, sabe como é, meu melhor amigo é o Acaso e ele me influencia demais – às vezes planejo uma coisa e acabo fazendo outra se o Acaso vem com alguma novidade que me distrai. Vira e mexe perco a hora e deixo o pessoal na mão. Mesmo sabendo que muitos estão à minha espera, fazendo figas e torcendo pra me encontrar, eu falho. Chego atrasado ou até esqueço o endereço, mas juro que não é nada pessoal. Simplesmente acontece! A verdade é que não resisto aos convites do Acaso. A gente não faz nada de especial, só ficamos circulando pra lá e pra cá, meio a esmo, sem compromisso. Engraçado é que nesse vaivém cruzo com certas pessoas muitas vezes. Vai explicar... Não sei se isso é obra do Acaso -- de vez em quando desconfio que ele se faz de desentendido mas sabe direitinho pra onde quer me levar. Ah, e como ele sabe me atrair! De todo modo, não faz diferença pra mim porque não tem quem não me receba de braços abertos. Pudera! Às vezes, basta um empurrãozinho meu e dá tudo certo.
Quer dizer, quase tudo. É que o Acaso também apronta comigo. Quando ele me lança pelos ares, só de farra, posso acabar caindo no meio de uma situação complicada: no dia em que aterrisso perto do gato, por exemplo... Fazer o quê? Pobre do rato!

15 de out. de 2011

Noite

Sonhei que alguém me contava uma história, e era uma história sensacional. Eu ouvia com muita atenção, mas como sabia que estava sonhando fui ficando angustiada com a possibilidade de não lembrar de nada no dia seguinte e dizia pra mim mesma: “acorda e escreve já, amanhã as palavras não vão dar conta de trazer esse sonho de volta”.
Hoje abri os olhos e era só isso: a lembrança da minha urgência sonhando uma história que ainda não quer acordar.

13 de out. de 2011

Hoje

A chuva acordou o dia
Com barulho e ventania

Depois virou garoa fina
E choveu poesia

Pingos de brilho
No cabelo da menina

11 de out. de 2011

Intuição

É como um flash que dispara de repente e sem explicação. Só pra deixar os outros cinco sentidos com a impressão de terem visto uma fotografia que ainda não foi revelada.

7 de out. de 2011

Amarelinha

É como no jogo da infância: a gente tem que pular as pedras sem perder o equilíbrio, e pisar firme com os dois pés no chão quando der. Sempre tem um céu no fim do caminho.

A foto é da Lili Oraggio.

6 de out. de 2011

Adolescência

“Quando eu tinha uns sete ou oito anos, achava que seria adolescente no dia em que tivesse barba, como o primo do meu amigo. Ele era mais velho, mas estava sempre por perto, até jogava videogame com a gente. Era ele quem ‘cuidava’ desse meu amigo quando a mãe não estava em casa. Lembrei dele no dia em que olhei no espelho e me achei esquisito. Custei até descobrir que o problema era o queixo. De repente, parecia que só aquela parte do meu rosto tinha crescido, o resto continuava igual -- as bochechas, os olhos, tudo estava no mesmo lugar, menos o queixo, de repente pontudo e desproporcional. Eu tinha acabado de fazer 13 anos e senti medo de ficar feio daquele jeito pra sempre, mas sosseguei pensando que, um dia, eu ia virar um universitário de óculos e ia ter barba, como a do primo do meu amigo. Não dava pra ter a menor ideia de como era o queixo dele, e seria assim comigo também. A barba ia me salvar".
...
Passei a tarde selecionando trechos do livro "O Nosso Rito a Gente Inventa" para um evento que ainda nem está confirmado. De todo modo, foi gostoso reler os depoimentos e encontrar passagens como essa aí em cima. Fiquei com vontade de começar uma história a partir daí -- nada como a realidade pra inspirar a ficção.

Segredo

Está tudo lá: nos olhos, e também no jeito de segurar o livro, no sorriso fora de hora, no cabelo preso com elástico apertado demais.
A menina não diz, mas seu segredo fala.

Publicado aqui.

4 de out. de 2011

Um monstro

Urgente é um monstro enorme. Apesar de seu tamanho descomunal, ele se move com extrema rapidez, o que sempre provoca um vento inesperado e muito forte, capaz de arrastar tudo o que encontra pelo caminho. É da mesma família do Bicho-Papão, só que prefere perseguir os adultos, pois as crianças raramente dão bola pra suas ameaças. E como vive apressado, Urgente não gosta de perder tempo: por isso só inferniza quem o teme e se desespera sempre que ele aparece, mandão, dando ordens que nunca podem esperar. Quando está faminto, o monstro perturba o sono e não dá sossego enquanto a vítima não pula da cama. Mas Urgente não é um monstro noturno: gosta mesmo é de assombrar à luz do dia, devorando as horas do relógio e a energia das pessoas -- é disso que ele se alimenta pra ficar cada vez maior, mais poderoso e assustador.
Quando ele ataca, o primeiro impulso é sair correndo. Só que é justamente assim que a gente cai na sua armadilha. Daí não jeito: o Urgente nos engole, rápido e sem dó.

3 de out. de 2011

???

Comigo também era assim: sempre fui do planeta das letras.
...
E quem descobriu essa imagem-pesadelo foi a Maria Amália Camargo!

29 de set. de 2011

Cismada

A cisma é uma ideia fixa que fica teimando em se provar. Muitas vezes, ela não é nada, só acha que é. Isso acontece com a cisma que é prima do pressentimento, mas gosta de se apresentar como filha da certeza. E como essa cisma quase sempre é amiga íntima da desconfiança, de vez em quando a gente acaba implicando com coisas ou pessoas a troco de nada. Pior é quando aparece algum motivo pra implicar de verdade. Aí, ninguém segura: cheia de razão, a danada começa a dar palpite o tempo todo, por puro capricho, incomodando feito pulga chata atrás da orelha.
Mas existe outro tipo de cisma. Essa até pode ser alguma coisa, apesar de ela mesma nem sempre botar muita fé nisso. Também inventa ideias e impressões pra ficar cismando, insistente.
Tem que prestar atenção porque, com ela, é tudo diferente -- essa cisma é prima do desejo, filha do sonho e pode virar a melhor amiga da perseverança se a gente decide encarar o tira-teima.

27 de set. de 2011

O pé nervoso

Ontem passei a tarde preparando o meu encontro com os pequenos da Escola Building, na Livraria Casa de Livros, no próximo sábado. Como eles leram "O Lugar da Coisas", resolvi fazer um sarau de "poemas malucos" e acabei reescrevendo alguns, como esse, já publicado aqui:
...
De perna cruzada e olhar esquecido
O moço parecia estar meio adormecido.
A única parte que tinha acordado
Era o pé esquerdo: que pé agitado!

Tranquilo como ele só, o moço continuou sentado
Enquanto o pé balançava, todo afobado
E nervoso, chutando ar pra todo lado.

De vez em quando sossegava um momento,
Mas logo recomeçava o vaivém, que tormento!
Dava aflição ver aquele pé sacudindo
Como se gritasse: --Acorda, vamos indo!

Bem que o pé já queria sair andando
Mas só podia seguir chacoalhando.
Fazer o quê? O moço ainda estava sonhando...

23 de set. de 2011

Futuro

Todo mundo pensa um bocado em mim. Bom, se não for todo mundo, é quase. Cada um me chama de um jeito -- Amanhã, Ano-Novo, Mês-Que-Vem -- e mais um monte de nomes. Pessoalmente, gosto muito de Algum-Dia. Acho poético. Até aí, tudo certo, sei que é sempre de mim que estão falando. Enquanto não chego, as pessoas ficam curiosas -- umas mais, outras menos, mas a maioria imagina ou tenta adivinhar coisas a meu respeito. Acontece que se não chego com um presentinho, uma surpresa bacana ou pelo menos uma notícia boa, é batata: passo desapercebido, ninguém me dá muita bola. É assim: já me acostumei a ser esperado com ansiedade e, depois, recebido com indiferença, principalmente quando não trago nada de especial.
Chato é se, por acaso, tenho que anunciar algum problema ou até coisa pior. Quem fica muito decepcionado já sai dizendo que nunca mais vai botar fé em mim. Que dureza ouvir isso! Mas não me ofendo, sei que é coisa de momento. No fundo, no fundo, mesmo esse pessoal conta comigo chegando a toda hora, e nisso eu não falho -- pode ter certeza que vou continuar aparecendo. Nem precisa conferir na bola de cristal.

19 de set. de 2011

Inquietação

É uma vontade que ainda não sabe falar, mas faz barulho e se mexe o tempo todo, brincando de pega-pega dentro da gente.