8 de ago. de 2011

Uma prece

Respiro fundo e peço: entra, vento, a casa é sua, fique à vontade. Pode revirar tudo, e não faz mal se as coisas ficarem meio bagunçadas depois que você for embora. Só quero sentir um pouco do seu frescor soprando dentro do meu peito.

5 de ago. de 2011

4 de ago. de 2011

Entrevista


(...) Dentro do pote pode ter geleia
E dentro da cabeça nasce cada ideia!

A querida Rosaly Senra me convidou pra uma conversa gostosa no seu Universo Literário, da rádio UFMG Educativa. O papo ficou gravado aqui

3 de ago. de 2011

O inventor --um miniconto

Quando eu crescer, acho que vou ser inventor.
É que existem umas coisas muito importantes que ainda não foram inventadas. Por exemplo: um medidor de amor. Se dá pra medir febre, por que não dá pra medir amor? Já tenho até o nome -- "amorzômetro". Daí é só colocar em cima do coração da pessoa e pronto: vermelho = máximo; laranja = médio; amarelo = baixo; branco = zero. Se já tivesse um desses hoje em dia eu não precisava ficar perguntando pra minha mãe se ela gosta mais de mim do que do chato do meu irmão.
Também vou inventar um aparelho pra ver os pensamentos dos animais. Bom, pelo menos de alguns. Tem que servir pra cachorros. E talvez pra gatos também. Não tenho muita certeza se o mesmo aparelho vai funcionar pra jacarés, galinhas e outros bichos, mas isso pode ficar pra depois. O principal é o leitor de pensamentos caninos, e também já pensei num nome: iDOG. Tenho certeza que muita gente ia querer ter um desses porque não é só o meu cachorro que pensa um monte de coisas e não consegue me dizer. A gente não passa muito do básico: um latido = "oi"; dois = "vamos dar uma volta"; três = "você demorou pra chegar"; muitos latidos juntos = "estou muito feliz" (ou "muito chateado", depende do tom). Mas não é fácil descobrir o que ele acha das coisas que eu conto todo dia. Eu falo, falo e ele só fica me olhando, pensativo.
Quanta coisa falta inventar nesse mundo!

2 de ago. de 2011

O que tem lá?

Atrás do muro, debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música.
A gente sempre pode esbarrar numa história querendo se contar.
...
A do livro "A Pequena Marionete" começa com a curiosidade do menino e se conta sem palavras através das belíssimas ilustrações de Gabrielle Vicent.


1 de ago. de 2011

Agosto

Às vezes, a saudade me surpreende em lugares inesperados: de repente, vejo minha mãe atravessando a faixa de pedestres na frente do meu carro, e até escuto a sua voz gulosa escolhendo chocolates no supermercado. Ela também gosta de me visitar em sonhos, despertando lembranças embaçadas, inventando encontros improváveis. Saudade não tem dia nem hora pra aparecer – é como uma presença invisível que vive rondando. Mas quando agosto chega, essa saudade faz questão de ficar por perto o tempo todo, preenchendo cada instante com a falta que ela me faz.  

29 de jul. de 2011

A aventura de uma leitora

Quem convive com gatos sabe o quanto pode ser difícil ler sem ser interrompida. Posso desligar o celular e o computador, mas não tenho como desligar minha gata. Basta abrir o jornal na mesa e, em questão de segundos, ela estará andando silenciosamente sobre a página, na maior calma, à procura de um lugar pra se acomodar -- nove em dez vezes o ponto escolhido é justamente em cima da notícia que estou lendo. Mesmo se estiver sentada com o jornal ou um livro abertos, ela dá um jeito de atrapalhar: aparece no colo de repente e se encaixa entre os meus olhos e o texto. É sempre assim e só consigo me livrar dela depois de muitos chega-pra-lá. Dependendo da leitura, a intromissão da gata pode me obrigar a retomar um parágrafo que já estava no final ou a retroceder ainda mais, procurando o fio da meada. Isso não costuma ser muito divertido, mas ontem tive uma experiência interessante enquanto estava lendo “A Aventura de um Leitor”, de Ítalo Calvino. O conto está no livro “Os Amores Difíceis” e descreve o que acontece com Amedeo, o leitor-personagem, enquanto tenta terminar o romance que levou para saborear numa praia quase deserta.
“(...) Naquele momento, também, a atenção pela página que estava lendo  -- um longo trecho descritivo – estava afrouxando (...) Era preciso que não levantasse mais os olhos. Pelo menos até o fim do capítulo. Leu-o de um fôlego. A senhora agora estava com um cigarro na boca e o indicava com um sinal. Amedeo teve a impressão de que ela estava tentando chamar a atenção dele já havia algum tempo”.
Igualzinho à minha gata, fazendo de tudo pra roubar minha atenção e me colocando no mesmo vaivém de Amedeo, linha após linha, dividido entre dois desejos: mergulhar na ficção e atender aos chamados da vida real.

27 de jul. de 2011

Novos ares

Não deu cinco minutos e estavam todos lá. Maritacas, sabiás e companhia devoraram rapidamente a bandeja de frutas do drive-thru da janela, reaberto hoje, depois das férias. Pra eles, tudo volta à rotina, mas a minha vai mudar: volto a trabalhar fora de casa, compartilhando um espaço muito charmoso com amigos queridos. Acho que a turma da janela não vai sentir minha falta, mas, talvez, alguns fiquem meio ressentidos porque as porções diárias de bananas e papaias vão diminuir -- como minha salinha tem uma pequena varanda que dá para uma rua cheia de árvores, planejo levar parte do café da manhã pra lá. Imagino que logo, logo vou conhecer outra turma, a do balcão.

Poesia no ponto

Alguém fixou cartazes com poemas de Mário Quintana, Paulo Leminski, Manoel de Barros e Alice Ruiz em dois pontos de ônibus da avenida Doutor Arnaldo. Ao que tudo indica, eles vão continuar por lá -- a Prefeitura não tem nada contra já que as "peças" não ferem a Lei Cidade Limpa, segundo a notícia publicada no Estadão de hoje.
Tomara que a moda pegue.      

25 de jul. de 2011

Céu

Não fui a Machu Pichu quando tinha 20 anos. Pena. Talvez não tivesse ficado com a impressão de estar entrando num parque temático da Disney, disputando um lugarzinho com os milhares de turistas que circulam pelas ruínas -- umas três mil pessoas por dia, e durante o ano todo, segundo o nosso guia. Ainda assim, viajar pelo Peru é uma experiência emocionante: o espírito das montanhas continua intacto e é enfeitiçador, guiando o nosso olhar para o alto o tempo todo. Acho que nunca olhei tanto para o céu.

(ST)    

24 de jul. de 2011

Flor e Juanito

Flor tem dez anos, cinco irmãos e três lhamas -- Juanito, de 4 meses, é seu atual companheiro de "trabalho": todos os dias, depois da escola, Flor veste seus trajes típicos, enfeita o pequeno Juanito e sai pelas ruas de Cusco abrindo a saia e o sorriso para os turistas que querem tirar uma foto ao seu lado por alguns soles. Flor estranha quando começo a conversar com ela -- está acostumada a ser paisagem para a maioria das pessoas com quem cruza. Mas logo se solta, senta do meu lado e pergunta se quero brincar de adivinhação. Topo na hora. Ela diz a primeira letra e me desafia a adivinhar os nomes de cada um dos seus irmãos; dos pais, dos outros lhamas que vivem com a família. Vai me dando dicas, se diverte com os meus chutes. Depois, tenta adivinhar meu nome, minha idade, o mês que nasci, o isso e o aquilo. Faço cafuné na cabeça macia de Juanito, ele fecha os olhinhos, aproveitando o carinho, enquanto Flor propõe outro jogo. Agora tenho que descobrir um enigma fazendo três perguntas. Erro feio e a menina ri muito, esquecida dos turistas e seus soles. Volto pro hotel meio triste, pensando em Flor e seu Juanito, dois pequenos inventando um jeito de brincar nas ruas de Cusco.

(ST)                     

11 de jul. de 2011

Frescor

As palavras precisam fazer ginástica. Sem exercício, elas também enferrujam, perdem a força e o ritmo; o fôlego e a resistência. Vão ficando cada vez menos flexíveis, sem musculatura e, pior: preguiçosas. Como já não têm energia pra se articular em novas posições, acabam ocupando os lugares de sempre, sem ânimo pra tentar um salto surpreendente nem disposição pra se aventurar por uma caminhada mais longa e, claro, sem a menor condição de encarar uma maratona. Com o tempo, endurecem, como se estivessem engessadas, e muitas vezes engordam de forma deselegante, cedendo à tentação de se empanturrar com adjetivos doces demais. Só o treino constante mantém as palavras na sua melhor forma: enxutas, arejadas e com um frescor de coisa viva.  

(ST)  

8 de jul. de 2011

Perto

Gosto muito do trabalho da ilustradora argentina María Wernicke e gostei especialmente do seu "Papai e Eu, Às Vezes", publicado aqui pela Callis, com tradução da querida Carla Caruso. Fiquei namorando o livro desde a primeira folheada, na feira de Bolonha, em março, e ontem finalmente comprei o meu exemplar pra  passear sem pressa na garupa de tantas imagens lindas, como essa aí em cima: é bom lembrar que, às vezes, a gente pode fechar os olhos e se deixar levar por alguém que conhece o caminho.

(ST)

7 de jul. de 2011

Missão impossível

A coisa não vai pra frente: toda vez que tento arrumar a estante, aparece algum livro convidando pra bater papo no sofá.

A ilustração veio daqui.

(ST)

6 de jul. de 2011

Aparências

Rosa de pano
Maçã de cera
Joia de vidro

Muitas coisas iludem
O olhar distraído

(ST)

5 de jul. de 2011

Brrrrrrrrrr (2)

Embaralhadas debaixo do cobertor, as palavras preferiram continuar dormindo, encolhidas de frio.

(ST)

4 de jul. de 2011

Medo

Ele gosta de se esconder debaixo da cama, quietinho ou sussurrando pesadelos. Prefere a noite escura, mas às vezes aparece sob a luz dos refletores, sobe no palco e rouba a cena quando a gente tem que falar em público. É verdade que até pode ser divertido encontrar com ele na montanha-russa ou no meio de um filme de terror. E tem quem ache emocionante encarar uma aventura ao seu lado, nas alturas ou nas profundezas radicais. Mas em geral ele não é bem-vindo. E não pode dar moleza: se o danado começa a rodear sem mais nem menos, é bom ir dando logo um sonoro xô antes que ele se instale, sem fazer a menor cerimônia. Quando tem espaço, ele se espalha tão rápido que acaba deixando a gente encurralada num cantinho, sem conseguir se mexer. 
Bom é quando dá pra virar o jogo: você topa com aquele monstro na beira do trampolim, mas daí prefere fechar os olhos, respirar fundo e ir em frente. Então descobre que, às vezes, é justamente o medo que ajuda a gente a ter coragem de saltar. 

(ST)

1 de jul. de 2011

Homem-ditado

Quando eu era pequena, achava a maior graça sempre que meu avô dizia: “boca fechada não entra mosquito”. Ficava imaginando porque um mosquito ia querer entrar na boca de alguém com tanto espaço pra voar. Mas ele era severo e não se divertia comigo. Hoje em dia acho até que meu avô se ofendia, como se eu estivesse debochando de uma das suas máximas. Ele sempre tinha uma na ponta na língua pra retrucar ou comentar e principalmente pra encerrar qualquer conversa. Velhinho, ele virou uma espécie de homem-ditado -- dependendo do assunto, a gente já adivinhava o arremate: lá vem a história do silêncio de ouro, agora ele vai dizer que seguro morreu de velho ou que mais vale um pássaro na mão etcétera e tal. Fui crescendo, parei de achar graça e comecei a sentir certa compaixão pelo meu avô, aprisionado nessas frases feitas, cheias de verdades chatas. E cada vez que ele ameaçava soltar um desses provérbios embolorados, era eu quem tinha vontade de dizer: “boca fechada não entra mosquito”.   

(ST)