13 de jun. de 2011

Névoa

Hoje o dia acordou com os olhos embaçados, como se ainda estivesse mergulhado no sonho da noite.

(ST)

8 de jun. de 2011

Um fácil difícil

Você sempre teve facilidade pra escrever? Taí uma perguntinha difícil que os pequenos gostam de fazer quando vou nas escolas. Sim, eu achava que tinha a maior facilidade quando fazia as redações da classe toda nos meus tempos de Dante Alighieri. Mas, hoje? Nossa, como é difícil! Alguém já disse – e disse muito bem -- que escrever exige uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida. Tem dias que não é moleza conseguir colocar uma ideia entre a primeira letra e o ponto final. Tem que fazer exercício e suar a camisa, flexionar as palavras pra lá e pra cá. Tem que olhar pro céu pra tentar ler as nuvens. É bom passear pelo dicionário com olhos de turista e também andar na rua com ouvidos atentos pra escutar conversa de árvore e de vento. Tem que visitar os lugares onde vivem os monstros e depois passar um tempo entre livros e imagens que contam histórias (como essa lindeza da Maria Eugenia). Pra encontrar o que a gente está procurando tem que se perder no meio disso tudo e daí, sim, às vezes, parece tão fácil escrever.  

(ST)

6 de jun. de 2011

Jogos da memória

A memória tem seus caprichos. Um deles é trazer o passado de volta aos pedaços, como fotos recortadas que mostram só o que se quer guardar. Outro é se confundir com o sonho, inventando coisas que fazem a gente sentir saudade do que não aconteceu.

(ST)

3 de jun. de 2011

Quando tudo faz sentido

Hoje uma pessoa disse que eu estava com uma “expressão engraçada”. Devo ter feito uma cara de espanto tão grande que ela logo quis se explicar e foi emendando que eu parecia ótima, só um pouco diferente, será o cabelo, o óculos novo, o isso e o aquilo? Pois é, cortei o cabelo, respondi pra não esticar a conversa, e na hora tive certeza de que ela achou que eu tinha feito uma plástica ou qualquer coisa do gênero e não estava querendo contar. Só que a “cara boa” não tem nada a ver com isso, e o meu espanto também não. Fiquei surpresa de verdade por outro motivo: por causa de umas coisas emocionantes que aconteceram nos últimos dias, ando sentindo umas ondas de contentamento que vem de repente. É uma felicidade discreta, um sorriso de boca fechada, certo calor que se espalha -- um estado de graça que, agora sei, me deixa com uma “expressão engraçada”.

(ST)

2 de jun. de 2011

Escritora e jornalista

Trabalhei em redações durante muitos anos, até 2009, e nessa época, apesar de já ter alguns livros publicados, ainda me apresentava como jornalista e... escritora -- assim mesmo, com um monte de reticências. Acontece que depois do meu último dia em uma redação, em dezembro de 2008, eu estava decidida a ser cada vez menos jornalista e mais escritora. Isso explica porque não fiquei muito animada quando a Miriam Gabbai, da Callis, me propos fazer um livro sobre os rituais de passagem na adolescência através das religiões. Lá estava eu, de novo, com uma pauta na mão e uma grande pesquisa jornalística pela frente. Topei, mas assim que a nossa reunião terminou, comecei a pensar num jeito mais original de fazer o paradidático que ela estava querendo. Dias depois, liguei pra ela e perguntei: "E se a gente abordasse o tema a partir de depoimentos dos próprios adolescentes?". Pra minha sorte, ela gostou da ideia. Bem mais entusiasmada, saí em busca dos meus entrevistados -- jovens de 17 a 20 e poucos anos, que já podiam olhar com certa distância e refletir sobre os ritos que tinham marcado a passagem da infância para a adolescência.
Logo descobri que os ritos religiosos não eram tão frequentes assim, e mesmo quando aconteciam, não eram lembrados como uma experiência significativa. Mas os trinta e tantos meninos e meninas com quem conversei durante muitos meses lembraram de aventuras, vivências e, em alguns casos, de um único momento especial em que a infância ficou pra trás. Por isso, o livro se chama "O Nosso Rito a Gente Inventa".   
O título que minha editora queria continua faltando no catálogo. De novo, tive sorte: ela entendeu que as histórias que ouvi encantaram a escritora e acabaram desviando o foco da jornalista. Ainda assim, é uma reportagem, narrada pelos próprios entrevistados e lindamente ilustrada pelo talento da Maria Eugenia.

(ST)

31 de mai. de 2011

Invenções verdadeiras

Como você cria seus personagens? Depois de ouvir essa pergunta (difícil!) de um repórter, a escritora Maria José Silveira resolveu fazer uma enquete com vários escritores e publicou as respostas no seu blog -- a minha também está .

(ST)         

Abrindo o apetite

Ontem passei o dia brincando de fazer poesia com os pequenos das escolas municipais Pde. Joaquim de Souza e Silva e Vereador Benedito Batista, em Contagem, Minas Gerais. Fiz uma salada de palavras com os textos do "Como Começa" e do "Mistério do Tempo" e depois pedi pra turma inventar um tempero novo pra cada trecho. Este, por exemplo, ficou com um sabor bem gostoso de rima: "Na escola, fui juntando lé com cré/ Mané com chulé/ Café com cafuné/ Jacaré com pontapé".          

(ST)  

27 de mai. de 2011

Coincidências

Podia ter sido o título do post de anteontem: foi uma grande coincidência eu estar entrando na livraria na mesma hora em que o moço da editora apresentava meu livro recém-publicado (e que eu ainda não tinha visto) pra gerente. E também foi por acaso que o Pedro tirou da estante da biblioteca um livro que sua mãe reconheceu pela capa, publicada aqui dias atrás – uma coincidência que a Juliana contou ontem, no seu comentário. A gente sempre se surpreende quando coisas inesperadas, mesmo as mais banais, acontecem ao mesmo tempo – é como se a vida real ganhasse um toque de ficção, com direito a mistérios e acasos que parecem caber só nas histórias inventadas. Lembrei de um livro que fala muito sobre isso e até fiquei com vontade de reler “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera. Fui procurar e achei um trecho que diz exatamente o que penso: “Nossa vida cotidiana é bombardeada de acasos, mais exatamente encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos – aquilo que chamamos de coincidências (...) O romance não pode ser censurado por seu fascínio pelos encontros misteriosos dos acasos (...), mas podemos, com razão, censurar o homem por ser cego a esses acasos da vida cotidiana, privando assim a vida da sua dimensão de beleza”.
Não há nada de sobrenatural nas coincidências. Elas só nos fazem lembrar que a magia também faz parte da vida.    

(ST) 

26 de mai. de 2011

Pressentimento

É como um perfume que a gente sente, mas não sabe de onde vem. Às vezes passa logo, mas tem dias que insiste em ficar no ar, espalhando inquietude. Em certos momentos, é só um lampejo, igual à luz de um farol que pisca, de repente, no meio da neblina, deixando uma impressão com cara de certeza. De um jeito ou de outro, pressentimento é sempre embaçado, como um sonho que continua se sonhando depois de acordar. E tem esse mistério de se fazer entender, mesmo sem se explicar.
...
Porque hoje minha bicicleta me levou por uns caminhos antigos, reescrevi esse post publicado aqui.

(ST)

25 de mai. de 2011

Bichos na livraria

Ontem passei na Livraria da Vila pra comprar um presente e -- surpresa! -- acabei saindo de lá com o "Fala, Bicho!", meu primeiro título pela Moderna e também a primeira parceria com a ilustradora Ana Terra. Meu lote deve estar chegando, mas não deu pra não comprar um exemplar, e tenho certeza que os bichos acharam ótimo. É que prometi rachar os direitos autorais com a minha gata, a calopsita da Estela, o pug do Julio, as porquinhas-da-índia da Deborah, a turma da janela e todos os personagens do livro.

(ST)

23 de mai. de 2011

O meu Lobato

Não sei dizer quantos anos eu tinha quando visitei o sítio do Picapau Amarelo pela primeira vez. Só lembro que gostei tanto daquela turma que voltei muitas vezes à estante do meu primo, onde esses livros moravam. Pra minha sorte, esse primo não prestava muita atenção e, às vezes, certos volumes não voltavam pra casa -- "O Minotauro", por exemplo, se perdeu no labirinto do meu quarto pra sempre. Mas isso é outra história.
Só vim a ser proprietária da coleção completa muito tempo depois, numa época em que a curiosidade já me levava pra outros sítios; dos 20 aos 30 e muitos não voltei a visitar Lobato, mas era bom saber que aqueles livros estavam ali e podiam me levar de volta à infância na hora em que sentisse vontade. Isso aconteceu quando comecei a escrever para crianças: foi com grande prazer que reli "As Reinações de Narizinho" e sigo relendo todos os outros. Há pouco tempo, um trabalho me conduziu à "Emília no País da Gramática" que, mesmo sem ser emocionante, é inventivo e continua sendo genial.
Resolvi falar de Lobato depois de ler a reportagem da revista Bravo, com as cartas que expõem com todas as letras a intolerância racial do autor. Não quero entrar na discussão sobre a necessidade de se fazer correções ou de acrescentar explicações aos seus textos infantis, mas fiquei com vontade de dizer que, pra mim, o que ficou marcado não foi o ranço do seu racismo, mas a mágica da sua fantasia. Da tia Nastácia, guardei uma imagem carinhosa -- a de alguém me esperando sempre com bolinhos saindo do forno; a personagem que transformou um sabugo seco no sábio Visconde e que costurou os sonhos da Narizinho na boneca Emília. Por tudo isso, torço pra que esse "desvio" do autor não desvie futuros leitores dos caminhos do Sítio.
Por coincidência, ontem esbarrei nesse texto de Clarice Lispector, de 1968: "Quanto a mim, continuo a ler Monteiro Lobato. Ele deu iluminação de alegria a muita infância infeliz. Nos momentos difíceis de agora, sinto um desamparo infantil, e Monteiro Lobato me traz luz". Assim como a minha tia Nastácia ainda traz cheiro de bolo gostoso.

(ST)    

21 de mai. de 2011

Frio

De tão gelado, o vento fez o sol se encolher, encabulado
Como se tivesse aparecido sem ser convidado
No céu azul e tão frio de sábado


(ST)

20 de mai. de 2011

Onde

Debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música. As ideias vivem por aí, distraídas, querendo se contar. 


19 de mai. de 2011

O primeiro a chegar

O pica-pau não se intimidou com o frio: aterrissou cedinho e praticamente acabou com a melancia. Depois atacou as cascas de caqui e se mandou. As maritacas perderam a hora mas, por sorte, ele não é chegado em banana -- foi só o que sobrou do café da manhã.

(ST)

18 de mai. de 2011

Em coreano


Não vai dar pra conferir a tradução, mas tomara que os pequenos coreanos gostem do "Como Começa".   

(ST)

17 de mai. de 2011

Entusiasmo

Tenho certeza de que vou levar uma bronca quando meu filho descobrir o post de ontem. Mas o entusiasmo provoca essas coisas impulsivas, apaixonadas e, por isso mesmo, um pouco desmedidas. Desde que não se transforme em fanatismo, essa energia só faz bem: traz força, inspiração, alegria. Não é o que acontece quando a gente se entusiasma por alguém, por uma causa ou por um trabalho? A etimologia da palavra diz tudo: o termo grego “enthousiasmós” significa “transporte divino”, o que me faz pensar no que a gente sente quando se apaixona, por exemplo, por um livro, lendo e também escrevendo. No dicionário, encontro muitos sinônimos sonoros como "excitação", "arrebatamento" e "exaltação criadora", e comprovo que entusiasmo é um dos combustíveis que move o mundo. Pra mim, está no topo da lista de sentimentos de primeira necessidade: sem isso, não tem colírio que dê conta de inventar brilho nos olhos nem creme anti-idade que nos devolva o frescor da juventude.

(ST)

13 de mai. de 2011

Mistério

Depois de quase dois dias de apagão o blog voltou a funcionar, mas o post de ontem sobre "Livros e Bolos" sumiu. Como hoje é sexta-feira, 13, talvez ele reapareça de repente (?). De todo modo, não deletei a ideia, então segue um replay pra quem não leu:
...
No post desaparecido, eu contava sobre a minha pilha de livros do criado-mudo que não diminui nunca, e de como é difícil dar conta de tudo o que gostaria de ler. Contava também que, apesar disso, vira e mexe acabo relendo livros que já estão na estante há muito tempo, às vezes até sem querer. Foi exatamente o que aconteceu com "Água Viva", de Clarice Lispector -- dias atrás, enquanto procurava um trecho que queria usar no meio de um texto, acabei lendo outro e mais outro até finalmente reler o livro todo.
Foi essa leitura que me fez pensar que livros são como bolos: tem os que a gente experimenta e não gosta, nem chega a comer um pedaço inteiro; os que saboreamos devagar, um pouquinho por dia; e também aqueles que simplesmente devoramos de uma vez só. Mais que isso, certos livros são como um bolo de fubá saindo do forno e prová-los nessa hora é delicioso. Sentimos um prazer imenso na hora, mas isso nem sempre se repete comendo o mesmo bolo em outro momento.
Mas existem os bolos especiais, como o de Clarice. Com tantas camadas e recheios diferentes, esses mantêm um gosto de "primeira vez". Nesse caso, reler não é apenas relembrar, mas descobrir sabores que continuam surpreendendo o paladar a cada bocado.

(ST)

11 de mai. de 2011

Reviravento

Todas as coisas se movem 
Quando o vento vem cutucar
Por fora e por dentro
Tudo pode mudar de lugar


O livro deve sair ainda este ano pela Callis, ilustrado pela Rosinha.


10 de mai. de 2011

Sempre no ar

A jornada da Creuza pelo espaço chega ao fim com o 8º capítulo de "Uma Bruxa em Órbita". Depois de aprontar na Lua e em Marte ela volta pra casa , mas o relato dessas aventuras fica na estante do site Brincando na Rede.

(ST)