"...Ando escrevendo um livrinho que talvez apareça na Páscoa. Terá como título Alice contada às crianças. Será ilustrado com desenhos de Tenniel, ampliados e coloridos, com texto utilizando palavras fáceis, como que explicando as gravuras a uma criança. Gostaria de um exemplar? Você será capaz de reacender seus sentimentos de menina, de modo tão claro que possa ter prazer na leitura de um livro destinado a crianças?" Trecho de uma das cartas de Carroll, garimpado pela escritora e ilustradora (e grande amiga) May Shuravel.
A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Finalmente, a Lagarta tirou o narguilé da boca e perguntou, em voz lânguida e sonolenta: -- Quem é você? Não era uma começo de conversa muito animador. Um pouco tímida, Alice respondeu: -- Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento... eu... enfim, sei quem eu era, quando levantei esta manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então. ("Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll -- tradução de Sebastião Uchoa Leite, Summus, 1977 )
Sempre me encanto com a curiosidade de Alice. Tem outro jeito de descobrir maravilhas?
Pode ser puro preconceito, mas confesso que costumo desconfiar dos livros de auto-ajuda literária. Outro dia, porém, acabei saindo de um sebo com um exemplar interessante: "Sem Trama e Sem Final --99 Conselhos de Escrita", de Anton Tchékhov (Martins Fontes). Esse pequeno manual traz as idéias e sugestões do escritor russo a respeito da escrita, extraídas de sua correspondência e de suas próprias experiências como leitor e escritor. Tenho lido esses "conselhos" de forma nada sistemática. Algumas passagens são muito inspiradoras: "[...] Retrato a planície, a imensidão lilás, os criadores de ovelhas [...] os temporais noturnos, os comboios, os pássaros da estepe. Cada capítulo constitui um conto à parte, e todos os capítulos, como as cinco figuras da quadrilha, estão ligados por uma estreita afinidade. Esforço-me para que tenham o mesmo aroma e o mesmo tom [...] Sinto que superei muitas dificuldades, que há passagens com cheiro de feno."
De novo, o preconceito: se minha colega de redação Sandra Boccia não tivesse me mostrado, talvez eu não tivesse me interessado pela resenha de "Para Ler Como um Escritor" (Jorge Zahar), da americana Francine Prose, publicada na revista Época desta semana. Mas depois de ler o texto do escritor José Castello, fiquei interessada nesse guia prático que, paradoxalmente, instiga a experimentar a leitura (e também a escrita) como uma aventura íntima. Com a mesma liberdade que desperta os sentidos e leva alguns (grandes) escritores a escrever passagens "com cheiro de feno". Segue um trecho da resenha de Castello: "Quando ouvimos uma sintonia de Beethoven, ou uma canção de John Lennon, não pensamos nos conteúdos que guardam, ou em seus significados ocultos. Mas sentimos. Ouvimos a música e somos carregados pelos sons. Quanto mais ouvimos, maior o prazer... Transposto para a literatura, esse é o modelo proposto pela escritora Francine Prose... Ela escreve para os que desejam ler 'como um escritor', isto é, com liberdade interior. A estes, sugere uma leitura atenta e cuidadosa, feita mais com a sensibilidade que com o pensamento... Ela escreveu este livro para aqueles que lêem com o ardor das crianças. Não para interpretar, ou para conhecer, mas como uma aventura." Parece bom, não? (Silvana Tavano)
Animados, na série Temperamento felino. Impressos, na seqüência do Balaio de Gatos. Agora, os virtuais. Gatos são os protagonistas das histórias reais do Gatoca, o blog da jornalista Beatriz Levischi (Chocolate, na foto, faz parte de uma turma de dez) e das imperdíveis aventuras (imaginárias?) narradas pela escritora Índigo. (ST)
Essa imagem da nebulosa de Orion veio do telescópio Hubble e está no Portal do Astrônomo: por trás dessas cores incríveis, milhares de jovens estrelas estão se formando. Dá pra ser mais bonito? (ST)
"Fiz esboços de grandes guerreiros, mas René imaginava um homem baixinho, não exatamente bonito, mas esperto... Um anti-herói. Então pensei num homenzinho bigodudo, com um nariz grande. Sempre gostei de desenhar narigões... Asterix nasceu assim. Como sou cabeça-dura, ainda queria meu grande guerreiro. Desenhei outro personagem, maior e mais forte. Assim nasceu Obelix."
Albert Uderzo, ontem, no Globo, sobre os primeiros esboços da famosa dupla de gauleses, criada em 1959, com o roteirista René Goscinny. No ano passado, quando completou 80 anos, o ilustrador foi homenageado por 34 desenhistas com o álbum "Asterix e Seus Amigos", que a Record está lançando aqui agora.
A bruxa Creuza e sua xará brasileira, a Creusa de "O Pavão Misterioso" inspiraram os leitores do blog a lembrar de alguns "Pedros": "O Menino Pedro e seu Boi Voador", de Ana Maria Machado; "Pedro e o Lobo", de Sergei Prokofiev; "Pedro e a Lua", de Odilon Moraes; "Pedro e o Diabo da Croácia", de May Shuravel. E ainda tem o Pedro Malasartes, o Pedrinho, de tantas aventuras no "Sítio do Picapau Amarelo", o meu Pedro, do "Faz de Conta que é Verdade" e o Peter Pan, que é um Pedro com sotaque. (Silvana Tavano)
Depois de ler a reportagem de Antonio Gonçalves Filho, publicada no Caderno 2 de hoje, fiquei curiosa para ler a nova tradução de Alice, de Carroll, feita pelo cineasta Jorge Furtado e sua professora de inglês Liziane Kugland. O visual da personagem também ficou moderno na interpretação da designer carioca Mariana Newlands. (ST)
Cavaleiro boquirroto, cavaleiro apaixonado, com a garra da paixão semeando rebelião ... Fujam deste homem que ele está doido. O demônio o tentou para tramar escândalos que lhe hão de custar a prateada cabeça. ... [trecho do poema "Tiradentes (Com Muita Honra)", de Carlos Drummond de Andrade]
"A vida é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos -- viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca. (...) A vida das gentes deste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e gemes os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. -- E depois que morre? - perguntou Visconde. -- Depois que morre vira hipótese. É ou não é? O Visconde teve de concordar que era." (quem mandou esse trecho genial das "Memórias de Emília" foi a Cristiane Rogerio, amiga e editora da revista Crescer)
O pôr do sol de hoje é de trombeta -- disse Emília, com as mãos na cintura, depézinha sobre o batente da porteira, onde, naquela tarde, depois do passeio pela floresta, o pessoal de dona Benta havia parado. Eles nunca perdiam o ensejo de aproveitar os espetáculos da natureza. Nas chuvas fortes, Narizinho ficava de nariz colado à janela, vendo chover. Se ventava, Pedrinho corria à varanda com o binóculo para espiar a dança das folhas secas -- "quero ver se tem saci dentro". E o Visconde dava explicações científicas para todas as coisas. O pôr do sol daquele dia estava realmente lindo. Era um pôr de sol de trombeta. Por quê? Porque Emilia tinha inventado que em certos dias o Sol "tocava trombeta a fim de reunir todos os vermelhos e ouros do mundo para a festa do acaso". (Trecho de "A Chave do Tamanho", publicado em 1942)
E não é que a bruxa Creuza tem uma xará? Bom, quase xará. Além do "s", a Creusa de "O pavão misterioso" faz parte de uma história muito diferente. Ela não chega a ser uma princesa, mas quase -- é a filha (lindíssima!) de um sultão valente (ou de um conde muito orgulhoso?), que vive isolada de tudo e todos, escondida num quarto da casa (ou palácio?) da familia. Diferente da bruxa Creuza, que sassarica o tempo todo, a personagem que a escritora Ana Maria Machado foi buscar na literatura de cordel não fala com ninguém, nem com os próprios criados. De qualquer jeito, também tem muita magia na aventura dessa Creusa, que faz parte do terceiro volume das "Histórias à Brasileira", recontadas por Ana Maria e ilustradas por Odilon Moraes (Companhia das Letrinhas). Não sei de mais nenhuma Creuza, com "s" ou "z", na literatura infantil. Também não consegui lembrar de outros xarás literários. Só mesmo "João", e nesse caso tem até mais de dois: o do pé de feijão, o irmão da Maria e o João Pequeno, companheiro do Robin Hood. Alguém lembra de outros personagens-xarás? (Silvana Tavano)
Gato molhado, Gato malhado. Gato pingado. Novidade: "Gato Mia", de Cristina Villaça, ilustrado por Fernando Torelly, do também novo selo Fio, da Ed. Rocco
Children's Book é de 1987 e faz parte da série "books" do premiado fotógrafo cubano Abelardo Morell.Charles Dickens e Ellen Ternan aparecem em Two Open Books, de 2000.