29 de jan de 2014

O baile das formigas (*)

Chateada com o trágico final da história da sua irmã, a jovem cigarra resolveu imitar a formiga. Neste verão, nada de farra! Trabalharia incansavelmente. Bom, talvez nem tanto assim... Mas estava decidida a não aceitar os convites da turma para as cantorias de sempre. Quem disse que não dá pra trabalhar cantando?

E foi assim que a jovem cigarra encarou o batente, cigarreando com energia e vibração do raiar do dia ao pôr do sol. Lá pelas tantas, exausta e sem o menor pique para emitir seus famosos agudos -- mas com o freezer bem abastecido para enfrentar o inverno! --, resolveu se dar uma noite de folga. Só então percebeu que ainda não tinha cruzado com a formiga.

Que estranho, será que aconteceu um imprevisto? Duvido! Ela e aquela turma de operárias são tão prevenidas! Ou… Será que estou perdendo alguma coisa?

Estava.

Descobriu tudo assim que saiu perguntando pela floresta.
 -- A formiga agora passa a noite na balada! -- contou o grilo, louco para cutucar a cigarra.
-- Como assim?!? Aquela… aquela…certinha? Na balada?
-- Acontece que ela inventou a coreografia do passa-passa-folhinha!
-- Passa o quê?
-- Fo-lhi-nha! Todo mundo leva um estoque e se diverte dançando no ritmo das formigas. Elas montaram uma banda e ficam só na supervisão, estocando as folhas. Parece que todos os formigueiros da região já estão abarrotados!

A cigarra ouviu tudo aquilo mudinha. Na verdade, tinha ficado atônita, sem conseguir soltar nem um zzzzzzi desafinado. Mesmo assim, voltou para casa tentando se consolar: afinal, não morreria de fome no inverno, como a sua pobre irmã.
Pois é, tinha muita comida, só não tinha mais vontade de cantar.

Moral da história: mesmo quando a cigarra canta, a formiga dá baile!

* Esse reconto da fábula da mesma formiga com outra cigarra está publicado na revista Crescer de janeiro.

17 de jan de 2014

Tempo


Às vezes, acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse sentada na cabine de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, fico alisando seus cabelos longos e, juntas, adormecemos, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

10 de jan de 2014

Mudança

Voltar para casa depois de uma grande reforma é como regressar de uma longa viagem. As coisas, o lugar e a gente: tudo é igual, mas está diferente. Entre as paredes recém-pintadas da sala, que é a mesma e também é outra, experimento o frescor de olhar pra tudo que é tão familiar como se fosse a primeira vez.

5 de jan de 2014

2014

gira
 o sol
 o mundo
 e o tempo

gira
 o pedal
 a roda
 e o pensamento
 e seguimos pedalando!