30 de mai de 2013

Dicionário imaginário (2)


Casa (s.f) 1. país, cidade, rua ou simplesmente o quarto para onde sempre se quer voltar depois de uma longa ausência; 2. espaço reservado para: botões (das roupas); peças de dama e de xadrez (dos tabuleiros); amigos (do coração); 3. lugar onde geralmente moram a escova de dentes, os livros e os sonhos das pessoas.

28 de mai de 2013

Infância

Numa manhã escura como hoje, eu era pequena e tinha medo que a noite nunca terminasse. Então me escondia debaixo da coberta, encolhida no meu quarto de filha única, quietinha, até ouvir o barulho dos pratos e talheres acordando na cozinha, e sentir o cheiro bom da loção pós-barba passando pelo corredor -- mãe e pai: minhas certezas a cada amanhecer.

20 de mai de 2013

Dona Cora

Eu não conheci dona Cora. Sei que ela gostava de história, como seu neto, e de romances, como eu. Lia revistas francesas e cantava La Violetera quando estava alegre, a mesma música com que eu, muito antes de vir a saber disso, ninava meu filho, com letras inventadas. Sei também que ela vivia mudando as cores das paredes e dos tecidos da casa, e que tinha uma primavera carmim sempre florida no jardim.
Hoje eu li um poema de Adélia Prado e pensei nela:
...
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.

Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
...
Eu não conheci dona Cora, mas chego a sentir saudade dela de tanto que a conheço. 

17 de mai de 2013

Inverno

      noite escura
céu deserto
ninguém na rua

de repente
     entre nuvens
                luz

crescente lua
     se insinua

16 de mai de 2013

Gatos de maio

Nariz cor-de rosa, olhos azuis e orelhas atentas no calendário da Popdesign e...

... aqui em casa.

12 de mai de 2013

Mãe

O tempo passa pela gente
Igual e diferente

Diminui a dor
Feito unguento

Aumenta a saudade
Feito fermento

3 de mai de 2013

Problema

Das equações que não consigo resolver: arrumo a mala em dois tempos, não sou cheia de nove horas. O x da minha questão fica entre o oito e o oitenta, e a conta nunca fecha. Levo roupa de menos ou, pior, carrego o diabo a quatro mesmo quando a viagem é rapidinha, dessas que a gente vai e volta em três palitos. Resultado: nota zero pra mim.