31 de ago de 2011

Infância

Numa dessas manhãs escuras como hoje, eu era pequena e tinha medo de tempestade. Lembro de ficar encolhida no meu quarto de filha única, quietinha, esperando o dia acordar com as certezas de sempre: minha mãe e o som de pratos e talheres saindo dos armários da cozinha; meu pai e o perfume forte da loção pós-barba passando pelo corredor. 

30 de ago de 2011

Letrinhas

A editora gostou da ideia logo de cara. Gostou também de alguns trechos que mostrei naquele primeiro dia. Mas, hoje, saindo de casa pra ir ao seu encontro com o texto em que trabalhei tanto nos últimos meses, fico insegura e penso em adiar a reunião pra, quem sabe, reler tudo pela enésima vez. Na mesma hora me dou conta de que ela, a editora, fará isso muito melhor do que eu. Então é isso: vamos em frente.
Se tudo der certo, será o meu 13º livro, e ao contrário do que eu pensava quando publiquei o primeiro, em 2005, cada vez fica mais difícil -- o ofício de escrever me mostra todos os dias o quanto ainda tenho que aprender.

29 de ago de 2011

Pé de bombom


Cerejeira cheia de graça
Até parece um sonho de valsa

...
A foto é da querida Lili Oraggio.

28 de ago de 2011

Fazia tanto frio que a Pilar até perguntou pra Flávia Lins e Silva: estamos em Passo Fundo ou em Passo Frio? A bruxa Creuza foi tratando de se aquecer com uma boa poção de chimarrão, e só o Pinguim Kondo ficou numa boa com os termômetros marcando 0ºC . Pudera, ele e o ilustrador Daniel Kondo nasceram lá -- os dois estavam se sentindo em casa! 

26 de ago de 2011

Intenso

O frio, o ritmo dos dias, os encontros e até as cores das lonas do Circo da Cultura -- tudo foi muito intenso durante a Jornada Literária de Passo Fundo. E também delicioso: participar dessa festa armada em torno dos livros trouxe a oportunidade de rever conhecidos, e ainda conhecer de verdade Regina Rennó, Flávia Lins e Silva, Roseana Murray, Caio Ritter, Roger Melo e muitos outros autores que já frequentam a minha estante há tanto tempo.
Com Daniel Kondo, o meu companheiro de lona e mais novo amigo de infância, compartilhei da melhor parte da farra: os encontros com as crianças.

Muitas crianças. Em cada lona, centenas de pequenos esperando os autores com olhares curiosos...
            



... muita ansiedade e um monte de perguntas.

Querendo saber tudo sobre a gente...

... e, às vezes, querendo chegar bem perto da gente.
No final de cada sessão, Daniel e eu estávamos sempre assim. Precisa dizer mais?


21 de ago de 2011

Jornada

Quando recebi o convite pra participar da Jornada Nacional de Literatura nem lembrei do medão de avião e do medinho de falar em público: a alegria foi logo dizendo sim, e amanhã embarca comigo rumo à 6ª edição da Jornadinha de Passo Fundo.
Volto na quinta-feira com notícias dessa festa.


17 de ago de 2011

Bom dia

Abro a porta do elevador e encaro três pessoas que não conheço. É muito rápido, mas consigo ver um olhar apressado dizendo entra logo, e outro meio tristonho -- ou sonolento? --, e mais outro, tão preocupado, que nem me vê. Eu podia entrar sem dizer nada, bastava balançar a cabeça de leve, com um olhar educado, e depois nós quatro desceríamos em silêncio até o térreo, todos os olhos no tapete ou no relógio. Mas eu digo bom dia, avanço sorrindo e de repente vejo os olhos de três pessoas que não conheço sorrindo pra mim.

16 de ago de 2011

Paisagem

No desenho da menina
Tinha o mar que nunca acaba
E ondas gigantes de espuma macia

Tinha a montanha mais alta do mundo
Protegendo da ventania

A mãe e o pai
No desenho da menina

12 de ago de 2011

Gostoso

-- Dez segundos pra dizer três coisas gostosas com..."P"!
-- Legal!
-- Ééééé... 1...
-- Pastel! Pastel de queijo...
-- 2... 3... 4...
-- Pêê... Piiiiiii... ?... Pipoca!
-- 5... 6...7... 8...
-- ... Hmmmmmmmmm....
-- ...9... eeeeeeeeeeeeee... 
-- Eeeeeeeeeeee.... Picles!
-- PICLES?????
-- É, picles.
-- ... ? 
-- Nunca comeu? Hum, é tão gostoso!

10 de ago de 2011

9 de ago de 2011

Com que roupa?

Vestir as ideias com as palavras certas é um grande desafio. Inexata ou equivocada, a palavra pode trair a natureza de uma ideia assim como uma peça de roupa mal cortada, numa cor muito intensa ou apagada demais acaba comprometendo todo o conjunto. E tem os excessos: de acessórios-adjetivos roubando o brilho do modelo original, e de tantos outros enfeites que só enfeiam. E tem as repetições: ideias que vão e vem, reaparecendo com a mesmíssima roupa -- como manter o impacto da "primeira vez" vestindo palavras amarrotadas? Cada ideia exige várias experimentações, ajustes e retoques -- como acontece num ateliê de costura, as palavras vão sendo moldadas no corpo da ideia, sob medida. 
Sempre é assim, mesmo quando as ideias estão vestidas de um jeito descontraído, bem simples, tipo jeans e camiseta. Aliás, geralmente são essas que passam mais tempo se arrumando pra sair.

8 de ago de 2011

Uma prece

Respiro fundo e peço: entra, vento, a casa é sua, fique à vontade. Pode revirar tudo, e não faz mal se as coisas ficarem meio bagunçadas depois que você for embora. Só quero sentir um pouco do seu frescor soprando dentro do meu peito.

5 de ago de 2011

4 de ago de 2011

Entrevista


(...) Dentro do pote pode ter geleia
E dentro da cabeça nasce cada ideia!

A querida Rosaly Senra me convidou pra uma conversa gostosa no seu Universo Literário, da rádio UFMG Educativa. O papo ficou gravado aqui

3 de ago de 2011

O inventor --um miniconto

Quando eu crescer, acho que vou ser inventor.
É que existem umas coisas muito importantes que ainda não foram inventadas. Por exemplo: um medidor de amor. Se dá pra medir febre, por que não dá pra medir amor? Já tenho até o nome -- "amorzômetro". Daí é só colocar em cima do coração da pessoa e pronto: vermelho = máximo; laranja = médio; amarelo = baixo; branco = zero. Se já tivesse um desses hoje em dia eu não precisava ficar perguntando pra minha mãe se ela gosta mais de mim do que do chato do meu irmão.
Também vou inventar um aparelho pra ver os pensamentos dos animais. Bom, pelo menos de alguns. Tem que servir pra cachorros. E talvez pra gatos também. Não tenho muita certeza se o mesmo aparelho vai funcionar pra jacarés, galinhas e outros bichos, mas isso pode ficar pra depois. O principal é o leitor de pensamentos caninos, e também já pensei num nome: iDOG. Tenho certeza que muita gente ia querer ter um desses porque não é só o meu cachorro que pensa um monte de coisas e não consegue me dizer. A gente não passa muito do básico: um latido = "oi"; dois = "vamos dar uma volta"; três = "você demorou pra chegar"; muitos latidos juntos = "estou muito feliz" (ou "muito chateado", depende do tom). Mas não é fácil descobrir o que ele acha das coisas que eu conto todo dia. Eu falo, falo e ele só fica me olhando, pensativo.
Quanta coisa falta inventar nesse mundo!

2 de ago de 2011

O que tem lá?

Atrás do muro, debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música.
A gente sempre pode esbarrar numa história querendo se contar.
...
A do livro "A Pequena Marionete" começa com a curiosidade do menino e se conta sem palavras através das belíssimas ilustrações de Gabrielle Vicent.


1 de ago de 2011

Agosto

Às vezes, a saudade me surpreende em lugares inesperados: de repente, vejo minha mãe atravessando a faixa de pedestres na frente do meu carro, e até escuto a sua voz gulosa escolhendo chocolates no supermercado. Ela também gosta de me visitar em sonhos, despertando lembranças embaçadas, inventando encontros improváveis. Saudade não tem dia nem hora pra aparecer – é como uma presença invisível que vive rondando. Mas quando agosto chega, essa saudade faz questão de ficar por perto o tempo todo, preenchendo cada instante com a falta que ela me faz.