28 de fev de 2011

25 de fev de 2011

Das coisas que fervem

Minha querida prima Bia Junqueira é atriz e também dá aulas na Companhia do Teatro Contemporâneo, no Rio de Janeiro. O curso deste ano tem um nome encantador: “A Felicidade de Atuar”, com aulas dirigidas, segundo ela, a todas as pessoas que querem se aproximar da arte de representar de forma lúcida e lúdica. Dias atrás, Bia escreveu contando que tinha dado uma aula inspirada num post publicado aqui -- fiquei feliz e também curiosa pra ver a “preguiça” em cena. Em seguida, ela perguntou se eu me animaria a escrever alguma coisa sobre a... raiva. 
Concordei na hora mas, depois, confesso que empaquei. Difícil! Taí uma coisa que não gosto de sentir e nem de pensar sobre. Mesmo assim, pensei. E a primeira imagem que passou pela minha cabeça foi a de um comprimido efervescente caindo dentro de um copo de água: de repente, tudo o que estava calmo começa a borbulhar, numa reação química eletrizante que altera drasticamente o estado natural do líquido.
O efeito da raiva é bem parecido com isso -- o comprimido pode ser uma notícia, uma situação ou uma pessoa. Algo que provoca, irrita, transtorna: as emoções fervem, os piores pensamentos explodem e tudo se agita numa inquietação fora do normal. Só que, diferente da pastilha efervescente que a gente toma como remédio, uma pílula de raiva é veneno puro, faz mal para o estômago e adoece a alma.

(ST) 

24 de fev de 2011

Carolina

Entro na cozinha e abro a geladeira, como sempre. Não preciso estar com fome nem com sede pra abrir a geladeira e passar um tempo olhando. Sei que posso dar de cara com o pudim de leite da minha vó ou com a musse de chocolate da Selma, o que não seria nada bom num dia como hoje, quando estou desse jeito, meio tristonga. Mesmo assim, abro a geladeira. Por sorte, só encontro maçãs. Escolho a mais vermelhinha, mas considero a hipótese de pedir pra Selma fazer bolo de cenoura com calda de chocolate. Dane-se a dieta! Por sorte, de novo, a campainha toca, levando a Selma e minhas ideias calóricas pra longe."
...
Trecho de "As Namoradas do Meu Pai", publicado pela Girafinha.

(ST)

23 de fev de 2011

Dos sonhos

O sonho da noite reaparece no final da manhã trazendo o rosto de alguém que não vejo há muito tempo e a vaga lembrança de uma conversa que não reconheço. Aos poucos, as cenas vão voltando cada vez mais nítidas, o que só me confunde: sei que nada daquilo aconteceu, mesmo assim fico em dúvida por uns momentos.
Os sonhos pregam peças assim: às vezes, inventam o futuro e, de vez em quando, reinventam o passado.

(ST)

22 de fev de 2011

Serviço (quase) completo

Eu já tinha tentado colocar o bebedouro sobre a plataforma diversas vezes, mas nunca dava certo. Diferente do prato de frutas, que fica amarrado no gradil, não havia jeito de prender a garrafinha que, invariavelmente, despencava para o jardim do prédio. Mas, ontem, meu engenhoso marido conseguiu instalar o serviço de drinques no drive-thru da nossa janela: preso a um cotonete encaixado do lado de fora da persiana, o suquinho agora flutua na sombra, para deleite dos beija-flores e de todos os pequeninos que conseguem se equilibrar, como o sanhaço da foto.
Acho que os sabiás e as maritacas ficaram meio ressabiados, mas ainda não sei como estender os serviços da casa aos grandões. Estou aceitando sugestões.

(ST)                

21 de fev de 2011

Na gráfica

Os ponteiros do relógio ficam em cima da hora
E os ombros da madame desaparecem debaixo da estola

Trecho de "O Lugar das Coisas", ilustrado por Biry Sarkis, saindo pela Callis.

20 de fev de 2011

Trancada no espaço

No quarto capítulo de "Uma Bruxa em Órbita", a Creuza encontra os amigos lunáticos Lili e Cícero numa situação complicada: sentindo-se vigiados o tempo todo por sondas, telescópios, satélites e ônibus espaciais, os bruxos agora vivem trancafiados em casa. E a Creuza achando que ia passar noites estreladas apreciando a vista da cratera-varanda... Pra acompanhar as férias da bruxa, clique aqui.    

(ST)

16 de fev de 2011

Letrinhas no céu


Queria aprender o alfabeto das nuvens pra poder ler tantas histórias que vejo passar.
...
Quando escrevi esse post, meses atrás, não estava pensando numa cartilha. Mas a suiça Danièle Siebenhaar levou esse mesmo desejo ao pé da letra e passou meses perseguindo o movimento das  nuvens até conseguir flagrar seus melhores momentos de A a Z. Seu trabalho foi registrado pela Cloud Appreciation Society, um site interessante que vivo xeretando e que reúne fotos de apreciadores de nuvens do mundo inteiro. Com essas imagens, a moça tem produzido cartões de aniversário e com mensagens personalizadas, mas, como não está totalmente satisfeita com algumas letras, segue buscando buscando novos ângulos -- já dispõe de três Tês, dois Bês e dois Zês, como se vê no final da foto.
A ideia até que é bacana, mas não resolveu o meu problema. Continuo olhando pro céu em busca de outros alfabetos.

(ST)

15 de fev de 2011

Túnel do tempo

Dentro do pequeno monóculo cinza, encontro um dia de sol de muito tempo atrás. Sentadas num barquinho de madeira, uma espécie de jangada colorida fincada na beira do mar, eu e minha irmã sorrimos, encarando o fotógrafo com os olhos franzidos por causa da claridade. Pra mirar na lente de aumento do cone de plástico acabo franzindo os olhos de novo e me revejo nesse passado que, de repente, nem parece tão distante assim.

(ST)     

14 de fev de 2011


Nos dias em que sou atleta
Pedalo sem esquecer da meta
Nos dias em que sou poeta
É o vento que conduz minha bicicleta

*A ilustração é um presente do querido amigo arquiteto e artista plástico Javier Judas, que andou passeando por aqui no final de semana.

11 de fev de 2011

Os sons do coração

O mais comum é o tum-tum-tum de todas as horas, som de um bumbo que nasce com a gente e segue marcando sua batida cadenciada, um fundo musical familiar e até monótono. Tão repetitivo que só escutamos no susto ou se, por qualquer motivo, o ritmo acelera. Também é só de vez em quando que prestamos atenção num outro instrumento -- uma espécie de sanfona ou gaita de fole que abre e fecha sem parar, e sempre no compasso desse bumbo, compondo uma melodia suave que embala todo o corpo. Quando tudo está como sempre, parece musiquinha de elevador, a gente nem nota.
Acontece que certas coisas ou pessoas especiais podem tocar o nosso coração de um jeito diferente e aí, sim, ele faz músicas de todo tipo. Às vezes, o coração fica plissado e se recolhe, encolhido, fazendo o acordeão soar como o lamento de um tango triste. Mas quando a sanfona abre e o coração se alarga, a gente sente a música vibrar, dá vontade até de sair dançando na maior alegria, com o bumbo batendo feliz em plena festa.      

*Para Lili, que ontem estava com o coração plissado.

9 de fev de 2011

As reflexões do espelho

E nos bastidores da história... 

Xi, lá vem ela.
Não falha um dia, é impressionante!
Será que não cansa de ouvir que é a mais bela, a mais isso e aquilo?
Todo dia a mesma perguntinha irritante: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais.... E blábláblá!”
Fala sério. Não posso mentir, meu reflexo mostra a formosura da pele, o brilho dos cabelos, a harmonia dos traços. Ok, você é bonitona mesmo. Mas será que não se manca que tamanha vaidade não é digna da verdadeira essência da beleza? Sou um espelho mágico, é verdade. Apesar disso, não dá pra levar esse papo a fundo. Sabe como é, tenho as minhas limitações dentro do roteiro. É por isso que não vejo a hora dessa história andar: só então vou poder falar da outra, a mais-mais bela!
Vai ser um drama daqueles, mas, convenhamos, essa bruxa anda precisando de um choque de realidade. Paciência tem limite até no mundo da fantasia.

(ST)

8 de fev de 2011

Verão (2)

A noite perde a hora
E não escurece
Quase esquece de ser noite
E não adormece

(ST)

Histórias do berço

Tenho sorte. Já faz muito tempo que estou por aqui e essa família é mesmo especial. Sabe como é, gente que dá valor a uma amizade antiga! Mudei de casa nem sei quantas vezes... Claro que envelheci, mas não virei um velho ranzinza, desses que ficam rangendo pelos cantos. Nem perdi minha força: continuo firme, aguento bem os trancos, e por isso estou na ativa, em plena forma, prontinho pra entrar em ação a qualquer momento.
Modéstia à parte, sou um berço bem experiente. Sei lidar com os calmos, os alegres, os bagunceiros e também com os chorões. Com esses, a convivência às vezes é mais difícil, mas sei que não é nada pessoal. É que alguns são mais manhosos, cada um tem seu jeitinho. Felizmente os anjos da guarda sempre estão por perto. Falando em anjos, bom, não gosto de me vangloriar, mas muitos já me disseram que não tem berço como eu dando sopa por aí. Parece que os mais modernos nem se mexem, como é que pode? Eu sempre faço questão de colaborar: se o anjo tá distraído e eu tô vendo que o bebê vai aprontar, começo a balançar forte ou invento um rangido, sei lá, dou um jeito de avisar. Afinal, somos uma equipe, a gente trabalha junto durante meses.
Os primeiros a aparecer são os anjos-cantores! Mas não tem aquela coisa de harpa, não, isso é lenda. Tem anjo especialista em cantiga de roda, em chorinho e também em música clássica. Uns cantam tão bem -- o anjo do Lucas, por exemplo. Que voz, um intérprete celestial! Eu sempre ouvia embevecido, quer dizer, quando conseguia escutar a voz dele... Acontece que o Lucas berrava tanto que o pobre do anjo quase sempre amanhecia rouco. Não dava pra competir: o moleque fazia mais barulho que uma orquestra sinfônica! Na minha opinião, ele não gostava do repertório, mas quem disse que o anjo aceitou minha sugestão de mudar a trilha sonora? Nem quis discutir. Era talentoso, mas meio temperamental. Coisa de artista.
O anjo do Tomás era especial. Cantava música indiana, e com um timbre suaaaaaaaaaave, que delícia! A gente logo embalava num sono profundo. Pena ele não ter aparecido de novo por aqui.
Depois de uns meses, os anjos-atletas começam a nos visitar. Esses têm que ser ágeis e espertos porque, vira e mexe, precisam se atirar no chão pra servir de almofada, ou sair correndo antes que o bebê vire a garrafinha de detergente como se fosse mamadeira. Ficam alertas o tempo todo -- janelas, degraus, tomadas, piscinas e ferro de passar, o mundo é cheio de perigos pra bebês do tipo aventureiro. A Bia não dava folga -- não parava de se mexer nem quando estava dormindo. Lembro que minhas costas viviam moídas.
Mas não estou reclamando, não! É assim mesmo, eles vão crescendo e eu, que no começo pareço tão grande, vou ficando cada dia menor. Sinto falta até das pisadas da Bia quando passo muito tempo nesse quarto escuro. Tomara que o próximo bebê já esteja a caminho. E quem sabe o anjo indiano não resolve reaparecer dessa vez?

(ST)

7 de fev de 2011

Happy hour

 
Chegaram todas juntas, às 17h40, e passaram um bom tempinho falando sem parar. E como falam essas maritacas...

(ST)     

4 de fev de 2011

Dos temperos

Dias atrás uma amiga comentou que alguém era destemperado - a pessoa em questão tinha tido um chilique por conta de certa situação. Essa história não vem ao caso, mas fiquei pensando que, em alguns momentos, todo mundo pode ficar desse jeito, destemperado, porque, às vezes a receita desanda mesmo e tudo acaba dando errado.
Fiquei pensando também que a palavra destemperado tem a ver com o tempero, digamos, natural das pessoas. Quem não conhece a moça bonita, mas sem sal, o moço que, de tão doce, até enjoa, gente azeda como vinagre e gente gostosa com cheiro de cravo e canela? Também tem os mais apimentados, os bem suaves, os exóticos e condimentados, e assim por diante. Cada um tem seus ingredientes, faz misturas assim ou assado e em doses que dão o molho, um sabor único de cada pessoa. Apesar disso, a língua ensina: quando as coisas ficam esquisitas, qualquer um pode destemperar.

(ST)

3 de fev de 2011

No mundo da Lua

A bruxa Creuza continua Brincando na Rede: no terceiro capítulo de "Uma Bruxa em Órbita", ela surfa no espaço a bordo de um cometa.     

(ST)

2 de fev de 2011

Febre

...
"Então, os olhos da vó Delma resolveram olhar pra dentro e entraram na cabeça. 
No início, estavam cheios de expectativa, achando que iam tropeçar numa grande surpresa a qualquer momento. Mas depois de explorar todos os cantos daquele espaço oco e redondo sem que nada acontecesse, os olhos foram perdendo o brilho e o entusiasmo. Durante algum tempo ficaram murchinhos, perambulando sem foco, esquecidos do que tinham ido procurar lá dentro."
...
Hoje eu me senti exatamente assim: um "desenho desanimado", como a personagem do livro "O Mistério da Gaveta".

(ST)

1 de fev de 2011

Verão

Dia de sol e céu azul
Até o vento para pra admirar
Flutua quieto, sem assunto
Com preguiça de ventar

(ST)